O AMOR NO PODE ESPERAR
MAURCIO DE CASTRO (PELO ESPRITO HERMES)

SINOPSE

Nunca houve tanto desamor no mundo, se revelando no descanso da maioria para com a responsabilidade de cuidar bem de si, na leviandade com que muitos cuidam das 
suas reais necessidades, mergulhando nas iluses das aparncias, nos jogos da competio, do poder, do orgulho e da inconseqncia, ignorando as oportunidades de 
progresso que a vida lhe oferece, como se fossem seres merecedores de todos os privilgios sem ter que dar nada em troca. Essas iluses tm custado caro e o sofrimento 
aparece tentando mostrar a verdade que muitos no querem ver culpando os outros pelos seus desacertos. Dia cegar que cansados de sofrer, comearo a enxergar a 
realidade, reconhecero a prpria responsabilidade cobrando o desenvolvimento de seus potenciais. Sentiro amor dentro de si e a necessidade inadivel de se cuidar, 
de conquistar a prpria felicidade e estar em condies de participar da construo de um mundo melhor. No retarde seu progresso, faa j a sua parte porque a hora 
 agora e seu AMOR NO PODE ESPERAR.

PALAVRAS AMIGAS DO AUTOR ESPIRITUAL

Colaborar com a divulgao da espiritualidade  um trabalho maravilhoso, porm difcil. As dificuldades do processo muitas vezes superam o entusiasmo de muitos irmos 
nossos da comunidade onde vivo.  que os mdiuns, em grande parte, ainda continuam resistentes. Passam por todas as provas de manifestaes medinicas, tm inmeras 
chances de perceber a continuao da vida aps a morte, o processo de reencarnao, porm no se dedicam ao ideal espiritual que muitas vezes escolhem antes do prprio 
nascimento. Mas, estou aqui, com minha personalidade teimosa e persistente tentando passar o que aprendi e vivi com companheiros mais evoludos que eu. Garanto que 
 fascinante encontrar recepo medinica em companheiros da Terra. Psicografar! Viver experincias de outros como se fossem nossas! Sorrir com suas vitrias, chorar 
com seus fracassos, amar, descobrir a vida em suas dimenses mais profundas! Tenho certeza de que se a ignorncia fosse vencida muitas pessoas veriam na mediunidade 
uma ferramenta a mais para seu progresso e felicidade e no mais como instrumento de medo e de tortura. Quando recebi de irmos mais elevados a tarefa de enviar 
mensagens de esclarecimento para a Terra preferi o romance. Em meu nvel de aprendizado e evoluo tenho algumas condies de escolha e este trabalho - a escrita 
medinica - por ser de profunda responsabilidade, atinge centenas de criaturas, e deve ser dosado com muita cautela. Acredito que passar receitas sobre o certo e 
o errado, lies de moralismo ou cientificismo pura e simplesmente no seja de minha alada. J uma histria, onde os personagens viveram seus dramas, seus erros 
e acertos, suas escolhas e os resultados dos mesmos, me parece bem mais convincente e bem menos complicado de se fazer entender. Em nosso curso para escritores temos 
como condio essencial o poder de escolha e a categoria romance tem atrado muitos de ns. Tambm pudera! Tudo o que temos de mais belo em termos de literatura 
no mundo terreno deve-se em grande parte  forma romanceada como os autores conduzem seu pensamento. A prpria Bblia  uma coletnea de romances, cada um em seu 
estilo e em sua funo. Que beleza! Passar histrias, contos, acontecimentos, fatos de todos os tipos fascinam no s a ns escritores "fantasmas" como tambm os 
leitores, que vidos pela narrativa podem desfrutar de intensos momentos de prazer, encantamento e aprendizado. Afinal, ler bons livros  a melhor forma de experimentar 
a vida sem sofrer.  isso que me d foras para levar esta tarefa adiante, e me desculpem os amigos que desistiram, quero dizer que todos eles esto se privando 
da imensa oportunidade de utilizar o amor em favor de todas as pessoas que sofrem. Refiro-me aqui tambm aos mdiuns que continuam achando que mediunidade  sofrimento 
e vale de lgrimas, e movidos por esses pensamentos desistem de suas tarefas com facilidade. Eles ignoram que a maior ajuda que damos  espiritualidade  divulg-la 
com amor, com o amor que Deus tem pela humanidade e esse mesmo amor jamais pode esperar...

Hermes 24/05/2004

PRLOGO

Flvio olhou mais uma vez aqueles envelopes em suas mos e sua irritao aumentou. No era isso o que ele queria para sua vida. Trabalhar ainda que como office-boy 
naquela famosa empresa era o sonho de nove entre dez jovens de sua idade, mas para ele era como se fosse nada. Contava 23 anos e sua turma de amigos lhe dizia que 
ele era um rapaz de sorte, nada lhe faltava. Tinha uma famlia boa, pais responsveis, amigos leais, porm mesmo assim ele no se sentia feliz. Esse emprego arranjado 
por um amigo de seu pai, a princpio lhe proporcionou uma grande euforia. Era a empresa onde seus colegas de colgio mais almejavam trabalhar e realmente era timo 
ter seu nome em qualquer currculo, o emprego viria certo. Quando iniciou a tarefa percebeu que no era to bom assim. Passar a metade do dia entregando correspondncias, 
prestando favores a terceiros no centro de So Paulo no era nada agradvel. Andar pela Paulista se tornou uma rotina e ele no parava mais para admirar a beleza 
de seus majestosos edifcios. Naquele dia, aps trs meses de trabalho, sentia que no ia resistir, deixaria o emprego. Com o segundo grau incompleto, Flvio sabia 
que no era fcil conseguir um emprego melhor. Criado em famlia de classe mdia, se quisesse nem trabalharia, passaria o dia a vagar com alguns amigos e a fingir 
que estudava. Mas seu pai desde cedo lhe incutiu a idia do trabalho como meio de progresso e ele tentava seguir. Havia tambm alguns poucos amigos que assim como 
ele tentavam aproveitar melhor o tempo. Mas Flvio no estava gostando do que estava fazendo. De sbito olhou o relgio e percebeu que j eram cinco horas da tarde. 
Felizmente no iria mais transitar pela empresa levando e trazendo envelopes. S no prximo dia faria esse servio e como no dia seguinte ele pretendia se demitir, 
com certeza estaria livre dele. Desceu as escadarias que o levavam ao elevador e pensativo recordou a alegria de ngelo e rica, seus pais, quando o presenciaram 
chegando no primeiro dia de trabalho. Flvio cresceu ouvindo a histria de que seus genitores haviam sido pobres. rica havia nascido em uma zona rural e seu pai 
tinha sido um rapaz pobre que, ingressando na faculdade de Administrao logo conseguiu juntar o suficiente para o casamento. No princpio, seus pais sofreram inmeras 
dificuldades, mas como aprenderam desde cedo a lutar e no desanimar, conseguiram o que hoje chamam de vida boa. Ser que ele, Flvio, no estaria deixando para 
trs uma chance de progresso? Desceu do elevador e seguiu andando, sua casa era a poucas quadras dali. Durante o trajeto comeou a recordar sua averso pelos estudos 
e como os pais sofriam com isso. No sabia como havia conseguido chegar ao segundo ano do segundo grau. Contudo, apesar de manter a apatia pelos estudos, Flvio 
se revelava um observador arguto da natureza e do comportamento humano, por isso sonhava com um trabalho onde pudesse desenvolver melhor essa capacidade. Na empresa 
onde vrias pessoas conviviam seria uma tima oportunidade. Porm, logo se decepcionou, a apatia e a preguia o fizeram pensar em deixar aquele trabalho. As pessoas 
chatas e fechadas daquele ambiente onde se trabalhava apenas pelo dinheiro enchiam a sua pacincia. Chegou em casa desanimado e encontrou a me preparando o jantar.
- Flvio? J chegou meu filho?
- Cheguei daquela espelunca! 
Disse mais para si do que para a me.
- Por que est abusado, algum problema no trabalho?
- O trabalho  o prprio problema, descobri que no dou para isso.
rica largou o pano de prato, deu ordens  empregada que continuasse com o servio e foi falar com o filho no sof da sala. Percebeu o que ela j esperava h muito 
tempo: Flvio desistiria do emprego. Olhou dura para ele e disse:
- O que voc est querendo? Deixar o trabalho? Ah! Isso eu no permitirei!
- Isso no d para mim me! Ando estressado com o que estou fazendo, cansei! Amanh mesmo deixarei este emprego.
- Voc no pode fazer isso, seu pai vai ter um desgosto daqueles.
Flvio parou para pensar e resolveu no dar largas quela discusso. Disse:
- Vou pensar, agora tomarei um banho para relaxar um pouco.
Ele subiu as escadas e foi para o quarto. rica ficou no sof, pensativa. Por que o Flvio tinha que ser assim? Era o filho mais diferente que tinha. Cristiano, 
de 26 anos, viajara para a Inglaterra havia muito tempo e estava fazendo excelentes progressos. Foi fazer intercmbio e j estava bem empregado. Apesar de no ver 
a famlia h mais de cinco anos, rica e ngelo estavam contentes em saber que o filho estava bem encaminhado. Sua segunda filha Marina cursava Direito em excelente 
faculdade e no havia dvidas que seu futuro tambm seria brilhante. Mas Flvio... Esse no era nada fcil. Desde pequeno, apesar de aprender com facilidade no 
dava tanto valor ao estudo, reclamava da chatice das aulas, das coisas inteis que estudava, dos professores, de tudo! Para estimul-lo, ngelo comeou a falar em 
empreg-lo e at que ele no rejeitou a idia. Porm, rica que conhecia muito o filho e seu temperamento instvel, sabia que qualquer trabalho em suas mos duraria 
muito pouco. Por que o Flvio era assim? A porta da sala se abriu e Marina entrou:
- O que minha me linda faz a no sof com esse ar de tristeza?
- Oh, Marina, s voc agora para me levantar um pouco o nimo. Seu irmo diz que amanh deixar o emprego.
Marina fez um ar de desagrado e comentou:
- Esse menino sempre querendo aparecer e fazer chantagens. Bem que as pessoas falam que o que ele quer mesmo  levar vida bomia e sem fazer nada. No me admira 
se ele conseguir uma velha rica que o sustente!
rica atemorizada protestou:
- De onde voc tirou essa idia? Era s o que faltava!
Marina continuou:
- Pensa que no observo as coisas? Outro dia a tia Francisca disse a mesma coisa e ainda disse que por ser o caula foi criado errado e muito mimado pela senhora 
e papai.
rica fez um ar azedo. Aquela metida da Francisca, o que ela queria dando opinio na sua famlia? Logo ela uma solteirona amarga que nunca havia tido filhos.
- Olha, vamos mudar de assunto - disse rica. - V tomar seu banho que logo iremos jantar, seu pai hoje vai chegar mais tarde, tem uma reunio extra na empresa e 
mandou dizer que no o espere.
Marina foi para o seu quarto e pelo corredor percebeu que Flvio estava no banho. Pensou: Aquele metido! Bem que merecia perder o emprego e levar uma boa dura do 
pai. Flvio tomava uma ducha e pensava no que fazer de sua vida que, alis, estava muito sem graa. Desde o incio da adolescncia sentia um vazio interior e uma 
sensao de saudade indefinvel. Nunca estava realmente bem. Os namoros apesar de divertidos e saudveis no serviram para lhe preencher, estudar era muito chato, 
trabalhar tambm no estava sendo nada agradvel. Tinha um tino muito grande para compreender as pessoas ao seu redor, mas compreender a si mesmo no estava sendo 
fcil. Os amigos tambm j no lhe pareciam to agradveis. Terminou o banho e sentiu uma tristeza infinita. Vestiu uma roupa confortvel e foi para a varanda de 
seu quarto. J eram sete horas da noite e de onde estava dava para perceber uma nesga do cu e suas estrelas despontando iluminadas. Era uma linda noite de vero 
e o cu aberto convidava-o para uma reflexo interior. Sentou-se na cadeira de balano que havia na varanda e pensou em como seria bom viver longe dali, num lugar 
onde s houvesse paz e alegria. Fixou seu olhar no firmamento e um torpor o invadiu. Adormeceu. Sonhou que estava num campo verde cheio de flores amarelas, caminhou 
por ele e  sua frente um rapaz de jeans e camisa branca, lbios abertos em terno sorriso, disse:
- Seja bem-vindo Flvio, a reunio j vai comear.
Meio atordoado, Flvio recordou-se que deveria estar ali por um motivo srio que no conseguia compreender de pronto. O rapaz pegou em sua mo e seguiram por uma 
estrada que terminava em um pesado porto de ferro. O rapaz tocou a campainha que havia num alto muro e o porto se abriu. Flvio no sabia que lugar era aquele. 
Do porto seguia-se uma alameda ladeada por um imenso jardim todo iluminado onde vrias pessoas conversavam animadamente. Continuaram andando calados e aos poucos 
Flvio foi lembrando do local: era nesta cidade que ele vivia antes de reencarnar. Numa esquina, uma moa se aproximou e os cumprimentou. Flvio encheu os olhos 
de lgrimas e exclamou:
- Carlota! Quanto tempo!
- Que  isso querido? No existe tempo para aqueles que realmente se amam! - E se abraaram.
Noel, o rapaz que acompanhava Flvio, virou para ela e disse:
- Como imaginvamos no foi difcil traz-lo at aqui, ele conserva ainda muito do que aprendeu conosco e no mar encapelado do mundo felizmente ainda no esqueceu.
Carlota concordou feliz e os trs sentaram-se num banco. Flvio, muito sereno, disse:
- Oh, Noel, no sei como tenho conseguido viver l. As idias e os comportamentos frvolos imperam, eles invertem tudo. O que  realmente importante ficou encoberto 
e o que  passageiro e ftil est em evidncia. Sinceramente no sei se terei coragem de iniciar  tarefa.
Noel olhou para ele com profundidade e disse:
- Vejo que tem certa razo no que diz amigo, porm voc deve perceber que quando algo nos incomoda  porque no estamos vendo com os olhos da verdade. No mundo onde 
existem espritos de diferentes nveis  natural existir a variedade de comportamentos e muitas vezes os mais descabidos. Porm, cada esprito cria o seu prprio 
universo e vive feliz ou infeliz de acordo com ele. Quem j aprendeu a viver bem em qualquer ambiente compreende as necessidades de cada irmo e antes de criticar 
procura auxiliar.
Carlota ouvia atenta e Flvio exultou:
- Como  bom poder conviver com vocs, h sempre a chance de reaprender o que sempre ouvi e estudei por aqui.
Noel o interrompeu:
- Vamos para a sala de reunies onde Hilrio nos aguarda. Saram por uma rua larga que dava numa bela praa iluminada.
No centro da praa havia um enorme prdio com letreiros que diziam: Departamento de orientao e auxlio aos missionrios. Carlota inseriu uma espcie de carto 
magntico e a porta se abriu dando passagem a um recinto cheio de portas. Abriu uma delas e uma espcie de elevador surgiu. Em poucos segundos eles entravam em uma 
sala espaosa onde um senhor de cabelos grisalhos lia pausadamente alguns papis. Ao v-los, disse:
- J os esperava e sei que Camila no pde vir.
Carlota respondeu:
- Como sempre deixou se levar pelo vcio e foi impossvel adormec-la, s podemos contar com Flvio.
Hilrio levantou-se, virou-se de costas e ficou a observar a noite pela janela de sua sala, depois se virou e disse:
- Os verdadeiros trabalhadores do bem no se abatem se um companheiro desertar da tarefa. Camila ter a prpria hora de amadurecer ainda que seja sob o peso da dor. 
Quanto a Flvio  chegada a hora. Mandei cham-lo aqui hoje porque o tempo avana e  imperioso que recorde algumas verdades antes do que est por vir. Sua famlia, 
apesar de aparentar tranqilidade e segurana, no fundo est construindo um destino sobre a areia e no sobre a rocha como ensinou Jesus. Seu pai cultiva formas-pensamentos 
que iro criar situaes tumultuantes e os preconceitos da me, com sua rotina estafante e seu pessimismo, materializaro uma reao negativa da vida. Por outro 
lado, sua irm debaixo da postura de boa moa cultiva na mente hbitos infelizes devido um terrvel complexo de inferioridade. Todos ouviam calados respeitando a 
sabedoria daquele esprito.
- No  difcil perceber o que recebero da vida. Voc, Flvio, concordou em renascer com eles para lhes prestar auxlio, porm observando seu comportamento nos 
ltimos dias estamos notando que j comea a se envolver no turbilho do mundo. Como esprito estudado e benevolente voc j compreende a inutilidade de tantos ensinamentos 
que as escolas terrenas passam. A forma de ensino atrasada e cansativa comparada  do mundo onde vivia o levou ao desinteresse. E com razo, no se pode forar a 
natureza. Quero lhe explicar que seu desinteresse com relao ao trabalho tambm no   toa, voc quer se encontrar, quer saber onde est sua vocao e estamos 
aqui justamente para isso. Carlota, ligue a tela.
Um monitor de grandes propores foi ligado e nele surgiu a imagem de Flvio dois anos antes de reencarnar. Ele se chamava Henrique e ouvia de Carlota as explicaes 
sobre o tipo especfico de mediunidade que teria. Carlota explicou-lhe que aceitando a misso de levar alvio a um grupo que tanto amava era necessrio que ele recebesse 
do mundo maior a ddiva da mediunidade. Pessoas materialistas e grosseiras necessitariam de provas da espiritualidade para que pudessem acordar do pesado sono em 
que viviam. No que essas provas dos espritos viessem de graa s pelo capricho de mostrar que a vida espiritual existia. O grupo necessitado j vinha sofrendo 
h algumas encarnaes por no usar o melhor de si. Eles j tinham condies de dar um passo  frente e pediram orientao espiritual para que na prxima existncia 
no falissem mais. Carlota fez uma pausa e explicou que a famlia foi orientada de que o auxlio do Alto nunca falta a ningum, porm era preciso estar receptivo 
para receb-lo. Eles aceitaram e Flvio, esprito amigo que estava estudando os processos de evoluo aceitou a tarefa com o intuito de ajudar e aprender ao mesmo 
tempo. Flvio sabia que ensinar era uma forma de reter conceitos e sentia que apesar de saber muito ainda havia infinidades de lies a aprender. Foram programadas 
as reencarnaes. Juliete, esprito que usou a sensualidade de forma perversa e prostituda, estava arrependida e queria comear uma nova vida; viria como Marina, 
irm de Flvio. Zuleika Carbajaua, antiga fantica religiosa, no tinha sido to rica quanto gostaria e no aceitando a forma da filha Juliete viver, expulsou-a 
de casa acomodando-se na religio, nos preconceitos e na rotina entediante; viria como rica, me de Marina. Solano Carbajaua, revoltado com o padro de vida que 
tinha e com a atitude da filha, apegou-se a Eduardo, seu filho mais velho, e ambos comearam a roubar nos negcios que mantinham, sendo descobertos e presos. Solano, 
sem dinheiro e deixando a mulher na misria, matou-se na priso. Eduardo conseguiu fugir mais tarde consorciando-se com uma prostituta e dando golpes e mais golpes. 
Solano renasceu como ngelo e por sentir-se culpado da vida de ladro incutiu na cabea de todos que s o trabalho sacrificioso  que tinha valor. Eduardo retornou 
como Cristiano e Henrique viria como Flvio para, no momento certo, lanar sobre eles a semente da espiritualidade, pois j tinham alado algumas conquistas espirituais, 
graas a seus esforos e aceitao. Logo depois foi mostrado a Flvio todo o seu trabalho futuro e toda a sua preparao para exerc-lo com segurana na Terra. A 
tela foi desligada e Flvio olhou para Hilrio. Ele percebendo o que lhe ia no ntimo disse:
- Pode perguntar, sei que tem uma dvida.
- Isso mesmo. Se aqui no astral eles haviam aprendido muito, qual seria a necessidade de minha ajuda?
Noel ressaltou:
- Bem se v como o esquecimento do mundo, apesar de benfico pode nos paralisar!
Hilrio explicou:
- Meu filho, ns os espritos que estudamos a personalidade humana h sculos, conhecemos muito bem os pendores de cada um neste grupo; pelas leis das probabilidades 
sabamos que o que eles tinham a oferecer numa nova encarnao era muito pouco. So comum espritos tocados pelo remorso demonstrar arrependimento. Eles pareciam 
ter aprendido, porm o contato com o mundo carnal faz aparecer os problemas mal resolvidos de outrora, colocando-os  prova para saber o quanto haviam assimilado. 
Como Carlota disse a pouco, o tempo que passaram conosco em nossa cidade fez com que o solo de seus coraes fossem abertos e voc seria o encarregado de reg-lo 
em momento propcio. E chegou esse momento. Voc com poderosa mediunidade de desobsesso e de psicofonia ser chamado a esse encargo, no pode e nem deve desanimar.
Olhando nos olhos de Flvio prosseguiu:
- Seus corpos fsico e perispiritual foram programados para o trabalho de ajuda e nosso aviso  que as sensaes pr-medinicas iro comear. Voc j est com os 
23 anos que foram permitidos para o entrosamento familiar, e os dissabores de uma mediunidade de prova o colocaro frente a frente com o que deve ser feito. Suas 
perturbaes no viro por causa da mediunidade;  muito comum o mdium sofrer e culpar a sua sensibilidade aguada, isto  um erro. Nosso desequilbrio emocional 
 que atrai para ns energias perturbadoras. Lembre-se de que voc Flvio, apesar de no viver mais no mal, ainda tem muitos resqucios de pensamentos desarmoniosos 
e depressivos. Sua tarefa, assim como a de todos,  ajudar se ajudando. A conquista do nosso mundo interior  uma tarefa grande e  necessrio no s deixar de fazer 
o mal aos outros como principalmente de fazer o mal a si mesmo. Estaremos sempre juntos e  importante avisar que Noel e Carlota sero seus mentores. Que Deus te 
abenoe e que o Universo possa conspirar a nosso favor.
Os trs levantaram-se e j iam cruzando a porta quando Flvio voltou e perguntou:
- E Camila? No vai cumprir sua parte?
Hilrio olhou com olhos profundos ao responder:
- S o tempo dir!

1  DESPERTANDO DO SONHO

Voc se lembrar parcialmente do que se passou aqui - disse Noel a Flvio. - O crebro do corpo denso esquecer quase que a totalidade dessas informaes a nvel 
consciente, porm haver a infalvel intuio que o orientar no que fazer. De volta  praa onde ficava o prdio, Flvio pde observar melhor toda a sua suntuosidade, 
o estilo moderno acompanhava as cidades terrenas e havia muita harmonia no ar.
- Sinto inform-lo Flvio - falou Carlota. Senti o que voc pensou e se me permite farei uma correo: no so as nossas cidades que acompanham as modas terrenas 
em sua arquitetura,  a Terra que acompanha o nosso ritmo. Tudo o que l existe primeiro existiu aqui. No  to errado dizer que a Terra  uma cpia do mundo espiritual.
Os trs seguiram animados e volitaram at a varanda do quarto de Flvio. Voltando ao corpo de carne ele acordou. Quanto tempo teria dormido? Olhou para o relgio 
e percebeu que havia dormido por uma hora e meia. Que sono estranho foi esse que o acometeu? Desceu e viu a me e a irm acabando de jantar.
- Nossa, o prncipe acordou! - disse Marina num gracejo.
- Entrei em seu quarto e o vi dormindo to profundamente que no quis acord-lo. Sente-se, eu mandarei Sandra colocar a mesa pra voc - falou rica prestativa.
- No precisa se preocupar me, eu como na cozinha mesmo. Alis, estou sem fome. A propsito, papai j chegou?
- No, hoje ele disse que haveria reunio extra na empresa, reunio de emergncia, s chegaria mais tarde. Mas estou estranhando... Ele nunca chegou to tarde.
Marina levantou-se da mesa e disse:
- Bom, isso no me importa, hoje s nove horas Dirce e Juliana vm estudar comigo uma matria importante e no quero ser interrompida, principalmente porque o Ricardo 
Valadares tambm vem e no  sempre que se pode contar com a ajuda dele.
Flvio olhou-a desconfiado e disse:
- Por acaso est interessada no herdeiro dos Valadares?
- No seja bobo, ele  meu colega desde que ingressei na faculdade e muito inteligente, ele vem s dar uma ajuda. E se eu fosse voc, alm de continuar trabalhando, 
eu tratava de me interessar mais pelo colgio, vejo que seu futuro ser uma porcaria, sem emprego e sem dinheiro.
Marina subiu para seu quarto e rica concordando com o que ela disse, continuou:
- Sua irm tem razo, pense bem antes de deixar esse trabalho e sair por a vagando com aqueles seus amigos que s do problemas para a famlia. Sabe o quanto seu 
pai e eu lhe amamos e no queremos nosso filho por a em meio a bbados e prostitutas.
Flvio ouvia calado, para que argumentar? Ele sabia que a me e a irm eram assim mesmo e o melhor seria calar. Amanh no iria mais trabalhar e ponto final. rica 
foi para a sala de vdeo e Flvio foi para a cozinha. A empregada arrumava a prataria do jantar e solcita esquentou a comida para ele. De repente, Flvio sentiu 
vontade e perguntou:
- Sandra, voc acredita em sonhos?
Ela, que no esperava uma pergunta dessas, disse sem pensar muito.
- Olha, seu Flvio, eu nunca parei pra acreditar em sonho. A gente que vive assim nessa vida agitada no tem muito tempo para pensar nessas coisas. Mas a Margarida, 
vizinha da minha me, sempre pra pra interpretar os sonhos de todo mundo do bairro.  muito engraado, e o melhor  que na maioria das vezes ela acerta tudo. Mas 
por que esta pergunta?
Flvio parou de mastigar um instante e vendo a receptividade de Sandra resolveu se abrir:
-  que hoje tive o mais estranho sonho de minha vida. Quando terminei de tomar banho sentei-me na cadeira da varanda de meu quarto e um sono irresistvel me invadiu. 
Lembro-me que eu me vi conversando com um senhor e mais duas pessoas numa sala; esse senhor me dizia que eu precisava ajudar minha famlia e que uma tarefa iria 
comear. Depois s me lembro de estar voando no cu da cidade e vendo as casas l embaixo bem pequenininhas. Em seguida acordei. Porm, a sensao que mais me deixou 
confuso foi um nome que ficou em minha mente at agora.
Sandra que ouvia atenta perguntou:
- Qual nome, seu Flvio?
- Camila! Esse nome me soa muito familiar apesar de no conhecer ningum com ele.
- Bem, - disse ela sorrindo - s levando o senhor na casa de dona Margarida para ela adivinhar seu sonho, porque eu mesma no entendi nada.
- Muito pior eu. Logo agora que deixei o trabalho vem um velho e me diz que a tarefa vai comear, veja s.
- Olha, eu no gosto de me meter na vida de ningum, muito pior de meus patres, mas eu concordo com o senhor deixar esse emprego.
Flvio se surpreendeu, afinal uma pessoa lhe entendia. Curioso, ele quis saber o porqu desse pensamento dela.
- Eu via o senhor chegar desse emprego sempre chateado, quase no comia direito, at emagreceu! Olha seu Flvio, dinheiro assim no presta no. O dinheiro  energia 
espiritual e s o que  ganho com prazer  que rende. Olhe para mim, nunca tive estudo e sei que empregada domstica ganha pouco, mas sou feliz com o que tenho e 
meu dinheiro d pra tudo que preciso. Gorete, uma vizinha de minha me,  solteira e ganha o mesmo que eu, s que trabalha mal-humorada, vive se queixando e o dinheiro 
dela parece que  amaldioado, no rende,  todo gasto em problemas de sade ou prejuzos. Parece at trabalho feito.
- No fale besteiras Sandra, mas concordo em parte com o que voc falou, no sinto nenhum prazer em trabalhar ali, e o pior  que penso que no vou gostar de trabalhar 
mais em lugar nenhum.
- Se acalme rapaz, um dia voc descobre sua vocao.
A conversa foi interrompida pelo ar srio e grave de ngelo que entrou na cozinha. Secamente ele disse:
- Flvio, termine esse jantar e v para a sala, preciso conversar com voc, sua me e sua irm.
Pelo tom do pai, Flvio sentiu que alguma coisa negativa havia acontecido. Terminou a refeio e foi para a sala. L j estavam rica e Marina juntamente com ngelo.
- Posso saber o motivo dessa reunio domstica? - disse Marina. H tempos no existe isso aqui. Por acaso algum ganhou na loteria?
- Pare de gracinhas Marina, o assunto  srio. Hoje na empresa recebi um chamado do acionista majoritrio para uma reunio onde fui notificado de que perdi o emprego.
O silncio foi geral. Ele continuou:
- A empresa passa por uns problemas delicados... Desses em que se passa a vender suprfluos, coisa e tal... E foi preciso haver alguns cortes. Por azar eu fui um 
dos escolhidos para sair. A empresa pagou-me tudo que havia direito por demisso sem aviso prvio, alegando que seria melhor devolver minhas receitas do que manter-me 
empregado. Enfim, mais uma demisso sem explicaes nesse imenso pas.
Marina protestou:
- A tem coisa! O senhor  um dos mais velhos administradores daquela empresa que me parece ir muito bem. Tenho acompanhado pelos jornais e vejo que os produtos 
dela tm muita aceitao no mercado. Conte direito pai, o que o senhor tem a esconder?
Foi  vez de rica tomar a palavra:
- O que  isso, sua atrevida?  assim que se fala com um pai? Pai  sempre pai e o que eles dizem os filhos no devem contestar.
ngelo tentou contornar:
- Olha filha, tudo o que os donos da Limbol fizeram comigo est dentro dos trmites legais.  assim mesmo, de quando em vez os diretores vem que precisam reciclar 
o quadro de funcionrios e fazem isso: demitem quem querem. Tambm h outros administradores da famlia que trabalham na empresa; entre eles e eu  lgico que iriam 
optar pelos familiares. 
Flvio desde que entrara na sala sentira arrepios percorrer-lhe o corpo. De repente, sem que pudesse controlar, ele comeou a se sentir dominado por uma fora diferente. 
Quis gritar, mas a voz no saiu. Sentiu seu corpo sendo conduzido para o sof da sala mecanicamente e a sentar impvido. Enquanto seu pai falava, um nervosismo foi 
tomando conta de seu ser. Os presentes, atentos ao que ngelo dizia, nem observaram o estado esttico de Flvio. O esprito de Carlota envolvera Flvio para iniciar 
o trabalho medinico conforme haviam combinado. Na verdade "violentar" um mdium era tarefa que ela no gostava de fazer, porm era necessrio e mais necessrio 
ainda era deix-lo consciente. Sem treinar suas defesas, Flvio foi se deixando levar pela energia da entidade, que assim pde iniciar o que j estava traado. Interrompendo 
o pai, ele disse com voz modificada:
- Cada um recebe de acordo com as suas atitudes. Cabe a voc agora ver a parcela de sua responsabilidade no que lhe aconteceu e se reavaliar.
ngelo olhou-o desconfiado e rebateu:
- Vai dizer agora que a culpa  minha? Meu filho que deveria desvelar-se por mim, agora me acusa?
- No estou culpando ningum, mas  hora de perceber que voc atraiu tudo isso por causa de seus pensamentos e atitudes. O tempo para voc ser de desafios, haver 
horas em que pensar em desistir, porm ns estaremos do seu lado. Lembre-se de que a culpa jamais resolveu nenhum problema, o que vale mesmo  a mudana de atitudes 
para outras mais positivas.
Era inacreditvel, Flvio, seu filho, dando agora uma de profeta!
- Cale a boca e deixe de falar besteiras, o que voc pode saber sobre o futuro?
Marina interrompeu:
- Ora papai, no v que esse pirralho como sempre est querendo aparecer?
De repente, rica percebeu que Flvio no se mexia e falou para os outros:
- Olhem o Flvio, est estranho, no se movimenta.
Nessa hora soa a campainha e entram na sala Dirce, Juliana e Ricardo. Marina, envergonhada por ver seus colegas presenciarem aquela cena enrubesceu. Flvio continuou:
- No posso saber muito sobre o futuro, pois o destino no existe, porm o modo como encaramos a vida hoje  o que vai determinar as experincias de amanh. No 
h nada de errado com Flvio, ele  apenas um ajudante, aproveitem a chance para melhorar e reciclar valores. At a prxima vez.
Carlota afastou-se de Flvio cansada pela resistncia do rapaz que j se fazia sentir sobre ela. Flvio, por sua vez, livre do jugo de outra mente sentiu seu rosto 
cobrir-se de fino suor. Ele ouviu claramente tudo o que falou, porm no conseguiu parar a boca. O medo por haver se deixado levar por uma sensao esquisita fez 
com que ele desesperado subisse imediatamente as escadas. Vermelhos de vergonha por Flvio ter se passado por louco, rica e ngelo pedindo desculpas aos amigos 
de Marina foram atrs dele no quarto. Dirce, olhando para Marina que continuava rubra, no se conteve:
- Mas o que houve aqui? Seu irmo parecia fora de si, com outra voz e depois saiu correndo... Ele est doente?
Envergonhada ela mentiu:
-  que o Flvio sempre foi assim desde pequeno, adora chamar a ateno dos outros, deve estar querendo deixar papai e mame preocupados com sua sade para amanh 
no ir trabalhar.
Foi  vez de Ricardo falar:
- Deve ser por causa dos problemas bobos que todos ns temos de vez em quando com o trabalho.
- Ou preguia mesmo! - falou Juliana.
Marina interrompendo a conversa disse:
- No vamos perder tempo com as criancices do Flvio, vamos ao que interessa que  o nosso trabalho. Subam garotos - e fazendo a pose de bem equilibrada, Marina 
fingiu muito bem e foi sorridente estudar com os amigos.
Flvio no abriu a porta por mais que seus pais batessem e insistissem. rica e ngelo que agora tinham um duplo problema pela frente estavam esgotados.
- Agora mais essa! Alm de voc ter perdido o emprego temos um filho fazendo teatro dentro de casa.
- Cale a boca, mulher! - reclamou ngelo. - No v que o caso  srio?
- No acho que seja no. O Flvio  tardinha me confessou que vai deixar o emprego na empresa do Dr. Otto e eu acho que ele est fazendo manha, fingindo um abalo 
nos nervos para no ser obrigado a trabalhar amanh.
ngelo ficou muito nervoso:
- No  possvel. Ele vai trabalhar amanh nem que seja arrastado! O dinheiro que tenho em mos s  suficiente por algum tempo. Se eu no arranjar outro emprego 
rpido, muito de suas despesas ele mesmo ter de custear.
- Quer-me dizer que est pessimista?
- No  isso.  que um excelente administrador como eu no deve aceitar tudo o que vem pela frente. Tenho que s optar pelo melhor.
Como Flvio no respondia de forma nenhuma aos chamados eles resolveram descer e dormir.
No seu quarto Flvio estava banhando seu travesseiro de lgrimas. Logo agora que o pai perdera o emprego, isso acontecia em sua vida. O certo  que uma fora estranha 
tomara conta de sua voz e ele, mesmo percebendo, no conseguiu conter. A sensao de conforto sentida nesta hora foi solapada pelo seu medo e sua sensao de impotncia. 
Estaria ficando louco? Olhou para o cu e percebeu que ele j no estava mais estrelado. Ouvira as ltimas palavras do pai que dizia que o foraria a ir para o trabalho 
e sua depresso aumentou. Impaciente esperou a hora que Sandra foi dormir e desceu at a cozinha. Lembrou que sua me tomava uns calmantes de vez em quando e sabia 
onde eles ficavam. Abriu o frasco e tomou dois de vez, precisava relaxar e dormir. Foi para a cama e angustiado adormeceu. Com o efeito dos calmantes, ngelo tambm 
dormia, porm rica no conseguia conciliar o sono. Por que seu marido com o emprego estvel de uma hora para outra se viu no olho da rua? Ela no trabalhava e vivia 
 custa dele. Era uma perfeita matrona. Passava o dia a cuidar da casa, dos cabelos, da pele e da religio. Desde a mais tenra idade, rica era ligada ao Catolicismo 
com um fanatismo intenso. Todo o dia ia  missa das seis na Catedral, nos fins de semana estudava a Bblia com suas amigas e dava aulas de catecismo s crianas. 
Ela tinha certeza de que Deus no desampararia a sua famlia, afinal ela era uma mulher extremamente virtuosa e caridosa. Dava somas e mais somas de dinheiro que 
ngelo lhe cedia para as pastorais e se punia por qualquer ato que julgasse indigno e impuro para uma senhora casada. Tudo o que ela julgava errado nos outros condenava 
ferozmente e nessa postura no percebia que a cada dia tornava sua aura impregnada de energias negativas. Era o tipo de criatura que no queria enxergar a verdade: 
o que realmente era importante ficava de lado e tudo que levasse ao descumprimento das normas sociais e da igreja virava motivo de fria. Mas ela estava segura de 
que assim encontraria a felicidade. Iludida, achava que cumprir as regras exteriores mesmo em detrimento aos chamados do corao, daria  sua alma a elevao que 
o cu exigia. Apesar de pessimista no cotidiano, ela adormeceu na espera do auxlio divino. Flvio comeou a ter um sono agitado. Debatia-se na cama e suava muito. 
Ningum na casa percebeu que trs entidades movidas pelo dio, com semblantes deformados entraram acompanhando ngelo desde a hora que ele chegou do trabalho. Ficaram 
observando Carlota utilizar a mediunidade de Flvio e assim no desgrudaram mais dele. Viram quando ele desceu para tomar os calmantes e muito se alegraram. Com 
os remdios o assdio que eles planejavam fazer ficaria muito mais fcil. Ester, Malaquias e Roque como eram chamados iniciaram seu plano de vingana e desta vez 
tudo daria certo. Eles comearam a sugar a vitalidade de Flvio e incutir no seu corpo astral semi desprendido imagens de aberraes espirituais. Os pesadelos iniciaram 
e Flvio acordou num susto. Olhou para o relgio, viu que no dormira nem meia hora e que estava com o corpo molhado de suor. Comeou a se sentir mal, um misto de 
tontura com angstia e uma sensao de morte iminente apoderou-se de seu corpo. Dois fachos de luz chegaram no quarto e foram tomando corpo, eram Carlota e Noel, 
que pressentindo o que iria acontecer vieram prestar auxlio. Flvio, achando que estava sozinho no quarto tinha a companhia de cinco pessoas. Noel disse:
- No sei se poderemos fazer muito por ele.  um mdium de prova em desenvolvimento que se deixa levar facilmente pelo medo. Se tivesse mais fora para reagir, esses 
fatos no estariam acontecendo. Carlota e Noel comearam a aplicar passes no coronrio, acima da cabea, mas foi em vo. Ester sem perceber a presena deles se lanou 
violentamente sobre o corpo de Flvio que estremeceu. De repente, Ester o envolveu tanto que parecia haver tomado o corpo inteiro dele. Carlota disse:
- O perisprito dele est semi-afastado e agora Ester assumiu o comando. Pouco temos a fazer seno orar a Deus para que nos ajude a cumprir nossa parte - e comearam 
a orar.
Enlouquecida, Ester abriu violentamente a porta do quarto e seguida por seus comparsas deu violento chute na porta do quarto de ngelo. Flvio parecia ter fora 
multiplicada e os olhos abertos e brilhantes expeliam chispas de raiva. ngelo e rica acordaram assustados e viram o filho ali, sorrindo diabolicamente e gritando:
- Voc perdeu, seu ladro! Solano mais uma vez foi descoberto. Voc agora vai morrer! - e avanou no pai com fria.
rica comeou a chorar e a gritar:
- Flvio! Pare com isso. O meu Deus do cu, nos ajude!
- Cale-se maldita! Esse a teve a paga que merece e em breve ser a sua.
ngelo que estava assustado, tentava ainda concatenar os pensamentos:
- Do que me acusa, filho? Olhe, eu sou seu pai, seu pai.
Flvio rebelou-se:
- Cale-se ladro. Eu sei de tudo, sou sua sombra, te acompanho desde aquele maldito dia que voc roubou toda a minha famlia e nos deixou na misria. Voc passou 
um bom tempo fugido, mas te encontrei neste outro corpo bem diferente, eu sei que  voc Solano! No te deixarei em paz. Fui eu e meus filhos fiis que colaboramos 
para que sua falcatrua na empresa fosse descoberta. Aquele papel no estava l  toa, fizemos voc esquecer ele e mais os outros e abrimos o caminho para voc ser 
pego em flagrante.
ngelo gelou. Mas o que era aquilo? Como Flvio sabia do que havia ocorrido na empresa? De repente uma onda de raiva o acometeu. Algum contara ao filho o seu envolvimento 
com desvios de dinheiro e ele agora estava querendo rir de sua cara. Num mpeto avanou para ele e deu violento soco em seu queixo:
- Cale-se moleque.
rica, vendo a agresso, desmaiou. Ester deixou o corpo de Flvio e sorriu vitoriosa. Livre dela, Flvio, queixo sangrando, saiu em disparada para a garagem, pegou 
a chave do carro de sua me e lanou-se pelas ruas de So Paulo em alta velocidade. Malaquias que havia influenciado ngelo para bater no filho juntou-se com Roque 
e Ester que disseram:
- Por hoje j est bom! Vamos para o Desterro que Jorge ficar feliz com as notcias. - E os vultos escuros sumiram na noite.
Todos acordaram com a gritaria. Sandra e Marina pegaram o corpo de rica e colocaram na cama. Ningum entendeu o motivo da briga. Sandra estava estarrecida. Nunca 
em tantos anos de servio vira ngelo bater em ningum, muito menos num filho, mas respeitando a privacidade dele nada perguntou. Marina disse:
- Parece que um furaco passou por aqui.
- Seu irmo, que se aproveita para fingir-se de louco e me desrespeitar.
- O qu? O Flvio fez isso? Ah, ento bem que mereceu o soco que levou.
Nisso Sandra percebeu que rica despertava. Aps lavar o rosto, ngelo pediu para que Marina e Sandra se retirassem, pois estava tudo bem e o destino de Flvio nas 
ruas de So Paulo no o incomodava. rica ouvindo isso enlouqueceu. Alm de seu filho no saber guiar direito, a noite de So Paulo era muito violenta e o trnsito 
desenfreado. No conseguiu dormir mais. Estava com raiva do marido porque ele lhe ocultava alguma coisa e preocupada com Flvio, pois sabia que ele realmente estava 
doente. Pior que isso era pensar nele sozinho em seu carro numa selva de pedra como esta cidade. No quarto, Noel e Carlota no se cansavam de orar pela famlia. 
Eles no conseguiram agir a contento porque as mentes deles no permitiram. Pessoas que se deixam levar impulsivamente por idias nefastas e perniciosas so presas 
fceis dos espritos levianos e vingadores que se aproveitam e fazem tudo o que querem com suas supostas vtimas. Restava agora buscarem Flvio que, a esta altura, 
se deixava levar pelo sentimento de raiva e cometia o grave erro de dirigir em excesso de velocidade.

2 - CAMILA

Flvio tentava conter as lgrimas que embaavam sua viso. Nunca havia recebido uma surra do pai, no mximo algumas palavras speras, mas agora aquele soco foi  
gota d'gua. Ele queria esquecer e aumentava cada vez mais a velocidade. No banco traseiro Noel e Carlota observavam a situao ao mesmo tempo em que em telepatia 
recebiam a mensagem do instrutor Hilrio:
- Aguardem com serenidade. Seriam perfeitamente dispensveis essas dores porvindouras, porm a vida usa a ignorncia de uns para fazer o aprendizado de outros ou 
para coloc-los frente a frente com algo que muito aguardam. Continuem seguindo o caminho sem desanimar, jamais esquecendo que Jesus est sempre prximo e nunca 
desampara.
Numa avenida movimentada um carro conversvel vinha na contramo com uma pessoa distrada ao volante. Flvio tentou brecar, mas foi tarde demais. Uma batida, uns 
gritos de horror e muita confuso. O carro de Flvio juntamente com o conversvel foram parar a metros de distncia. Rapidamente apareceram bombeiros que de dentro 
dos destroos retiraram o corpo de Flvio e de uma jovem loura, no outro carro, conduzindo-os para o pronto-socorro. Por coincidncia os dois jovens foram atendidos 
na mesma hora e ficaram no mesmo quarto. Ela estava consciente e havia fraturado um brao e uma perna. Flvio com apenas alguns arranhes, porm, talvez por fora 
do desmaio continuava adormecido. As enfermeiras procuraram os documentos dele, mas no os encontraram. Na bolsa da moa havia sua identidade: Camila Assuno Ferguson. 
Aps conseguir o seu nmero a equipe do hospital ligou para a famlia dela e os informou dos recentes acontecimentos. Enquanto isso Flvio adormecido foi levado 
para o astral. Numa sala de um dos prdios da colnia Campo da Redeno ele foi despertando e mais uma vez estava com Hilrio, Carlota e Noel. Ao abrir os olhos, 
disse:
- O que houve, onde estou?
Hilrio adiantou-se:
- Mais uma vez conosco. Em menos de 24 horas duas viagens ao alm, muita mudana e muita confuso. Como tem se sado?
Ele ainda atordoado pareceu recordar-se e disse:
- J sabe que no estou fazendo o bem, peo desculpas.
- No h o que desculpar, mas sim aprender a fazer melhor.
Ele, com um qu de revolta, perguntou:
- Por que tudo tinha de acontecer assim to de repente? Ainda hoje pela tarde chegava do trabalho com a rotina de sempre. Tudo ia sem mais novidades e de uma hora 
para outra parece que o cu desaba sobre minha cabea. No lhe parece injusto?
Hilrio, num terno sorriso, explicou:
- No existem injustias, a vida  uma equao perfeita. No que diz respeito  mediunidade no  de hoje que voc vem sentindo seus efeitos. Desde a infncia os 
constantes desmaios e as mudanas repentinas de humor j davam indcios do que viria mais tarde. Quando o trabalhador est pronto o trabalho aparece. Mandei traz-lo 
aqui pelo rumo rpido que os acontecimentos vm tomando. Os encarnados com o livre-arbtrio fazem mudanas muitas vezes to cleres nos caminhos pelos quais trilham 
que aqui na espiritualidade a orientao "orai e vigiai"  seguida com o triplo de intensidade. Sua desorientao mental o levou quele acidente e como no h acaso 
na obra divina, seu carro se chocou com outro guiado por uma alma muito necessitada de sua presena. Chegou a hora: voc reencontrar Helena, que hoje se chama Camila. 
As afinidades de energias os colocaram frente a frente, aproveite.
Completamente desperto, Flvio mostrou-se feliz:
- Que maravilha, afinal so 23 anos de espera, desejo que ela no sofra quando eu reencontrar Anita. Mas, e minha famlia, por que indo assim to de repente?
Carlota retorquiu:
- Vejo que voc j captou um vcio humano: o de exagerar as coisas.
Hilrio prosseguiu:
- Isso mesmo. O que eles esto passando e vo passar so reflexo dos pensamentos do passado que ainda insistem em manter. Como sabamos que essa fase viria trabalhamos 
em voc um desenvolvimento rpido de mediunidade. Mas voc se deixou levar pelo desequilbrio e atraiu as entidades perturbadoras. Um portador de mediunidade pode 
atrair tanto um esprito sofredor como um superior, e sua vinda aqui,  para que perceba que no deve mais deixar se levar to profundamente por sentimentos negativos.
Noel interrompeu:
- A espiritualidade no cobra sua perfeio, apenas seu esforo em se conscientizar e dar o melhor de si. O resto ns aqui fazemos. Mas quando a pessoa deixa de 
fazer o seu melhor como voc fez agora a pouco, a conexo com o superior  cortada e pouco ou nada podemos fazer, a no ser deixar a pessoa colher os prprios resultados.
Hilrio prosseguiu:
- Pela urgncia que voc tem em melhorar para fazer um bom trabalho ns viemos lhe pedir que busque os meios da auto-ajuda, felizmente, muitos dos nossos irmos 
encarnados na Terra esto cumprindo perfeitamente seu papel palestrando, escrevendo e mostrando para todos os caminhos necessrios para a felicidade, busque-os. 
Jesus disse: "batei e abri-se-vos-". Se procurar esse auxlio, mais fcil ir conseguir o que pretende.
Flvio perguntou:
- Quer dizer que devo buscar os livros do Espiritismo?
- Tambm. Os nossos irmos do astral esforam-se para passar tudo o que aprendem aqui atravs da psicografia no s na linha do espiritismo como no espiritualismo 
em geral. A psicologia experimental vem inspirando pessoas que tm feito grandes obras. Na cidade que vivemos no temos rtulos e valorizamos tudo o que  capaz 
de levar o esprito a desenvolver seus potenciais inatos e eternos.
- Entendi - disse Flvio. - A febre dos livros de auto-ajuda, das palestras, dos lugares de refazimento j se faz sentir sobre o mundo e vem ganhando campo cada 
vez maior. Saberei procurar no momento oportuno; mas vim parar novamente aqui apenas para ser alertado sobre isso?
-  claro que no! - ponderou Hilrio. - Viemos avis-lo sobre o estado penoso em que se encontra Camila. Vocs vo se reencontrar e ser imperioso que voc a auxilie 
como irmo um pouco mais adiantado. Camila no conseguiu perdoar sua me e bebe desenfreadamente para se vingar da mesma.  uma atitude dolorosa que s a tem feito 
sofrer.
Flvio encheu os olhos de lgrimas e concluiu:
- Talvez no cumpra mesmo sua parte no trato, neste caso o que acontecer com ela?
Hilrio, olhos profundos, respondeu:
- Sofrer muito. Assim como voc, Camila  portadora de ostensiva mediunidade e na exata hora ser chamada ao encargo que escolheu e aceitou antes de renascer na 
Terra. Por ter o corpo programado para o trabalho medinico sentir a conseqncia danosa daqueles que desertam aos chamados do corao. Na vida que leva, facilmente 
ser vtima de terrvel obsesso dos espritos principalmente os viciados em alcoolismo. Toda pessoa que bebe carrega consigo companhias espirituais viciadas e sugadoras 
que se aproveitam de seu desequilbrio para sugar as libaes do lcool s quais tanto se habituaram.
- Bom,  chegada a hora de retornar ao corpo. Cuide de Camila fazendo o seu melhor. No caia na vaidade de salv-la, pois isso no lhe compete; siga apenas seu corao 
dando o que ele tem de melhor. Jamais se esquea de buscar o contato espiritual e a literatura confortante da auto-ajuda. V em paz!
No quarto do hospital Flvio despertou. Apesar do machucado, uma doce sensao de paz invadiu o seu ser. A assistente que o observava pegou seus dados pessoais e 
saiu.
Numa cama ao lado, uma moa de cabelos encaracolados, louros, na altura dos ombros, tez clara, olhos amendoados se mexia inquieta. Flvio vislumbrou seu semblante 
meio revoltado e pensou: "Que mulher linda! Quem dera uma aproximao". Ele no se lembrava de quase nada que ouviu na colnia espiritual, apenas a ltima frase 
ecoava em seu crebro: "Nunca deixe de procurar o auxlio espiritual". Meio atordoado ele virou-se para a moa e disse:
- No d nem para saber que horas so, no  mesmo?
Ela irritada respondeu:
- Essa droga de hospital nem relgio tem. Se eu no estivesse com a perna e o brao quebrados j teria fugido daqui. S queria saber quem foi o bobo que atravessou 
na minha frente.
Flvio suspirou:
- Voc tambm foi acidentada num automvel?
Ela, meio sarcstica, disse:
- D para perceber! E voc teve sorte, pois no est muito mal.  sempre assim, at nesses casos a vida sempre privilegia os homens em detrimento das mulheres.
- Oh! No diga isso, talvez tenha sido a sorte sei l, mas logo voc tambm vai se recuperar. O conversvel no qual bati teve menos sorte que eu, acredito que quem 
o dirigia deve estar bem mal, mas eu no guardo culpa, pois foi a outra pessoa quem vinha na contramo.
Ela empalideceu:
- No me diga que seu acidente foi na Paulista!
- Isso mesmo, por qu?
Ela fez um ar de raiva e bradou:
- Seu irresponsvel, foi voc que bateu no meu conversvel. Quando o meu pai chegar darei um jeito de lhe processar e voc vai pagar caro, afinal eu vinha distrada 
isso sei, mas a minha velocidade era a mnima possvel, voc  que parecia estar fugindo da polcia.
- Mas voc vinha na contramo, por acaso estava bbada?
Nesse instante, a moa enrubesceu, falando com raiva:
- Quem  voc para me chamar de bbada? Olha, que se eu no estivesse imobilizada, me levantava daqui e te dava um tabefe no rosto. E vamos acabar com essa conversa 
mole que no  com qualquer um que eu falo. - E comeou a gritar: - enfermeiraaaa! Incompetentes! Quero meu pai!
Flvio no se ofendeu e achando-a at divertida disse:
- Acalme-se, seno vai acordar toda So Paulo!
Ela continuou a berrar e a atirar os objetos do criado-mudo no cho. Uma enfermeira surgiu e vendo a cena perguntou:
- Mas o que  isso aqui? Tenha modos menina, olhe o que voc fez, contenha-se!        Ela no deu ouvidos:
- Cale a boca sua enfermeirazinha de nada, saiba que meu pai com o dinheiro que tem pode colocar essa espelunca abaixo!
Nessa hora entrou no quarto um casal de meia-idade acompanhado de uma moa. Eles olharam para Camila e o homem disse:
- Camila, o que foi que te aconteceu?
Ela chorando agarrou-se ao pai. Ele percebeu que a filha ainda estava alcoolizada e preferiu no falar sobre o acidente. Camila fitando a me falou rancorosa:
- O que quer aqui? Ver minha derrota, meu corpo estragado s para rir de mim? V embora, no preciso de sua presena aqui.
lida, mulher acostumada ao convvio social, contemporizou:
- Que  isso filhinha, veja como fala, todos ns aqui s queremos o seu bem.
Camila ainda mais alterada vociferou:
- No precisa fingir dona lida Assuno Ferguson, estamos sozinhos aqui, exceto por esse desconhecido a, portanto pode dizer que veio tripudiar sobre mim juntamente 
com essa a. - E olhou para Isabela sua irm. - Eu j avisei que s quero meu pai aqui, vo embora antes que eu perca minha pacincia! lida virou-se para Flvio 
e disse:
- No se assuste garotinho com o que ela diz, sabe como so os jovens, vo em festas com amigos e acabam passando um pouco da conta na bebida, mas depois tudo volta 
ao normal.
Fernando virou-se para a mulher e disse:
- V com Isabela providenciar a cadeira de rodas para Camila.
Elas obedeceram e saram. Outra enfermeira entrou no quarto e avisou:
- Finalmente localizamos seus pais Flvio, eles esto a caminho, porm avisaram que o trnsito pode atras-los, no fique impaciente, logo eles estaro aqui.
Isabela e lida entraram com a cadeira de rodas e auxiliadas pelo mdico e duas enfermeiras colocaram Camila nela para ser levada  outra sala para fazer exames. 
Antes de sair Camila olhou para Flvio c disse:
- Voltaremos a conversar rapaz! 
E saiu. Flvio estava impressionado. Que mulher! Apesar das cenas desagradveis que ela havia aprontado, ele pensou que sbria ela poderia ser uma linda mulher. 
Que olhos! Onde os teria visto? O esprito de Carlota o envolveu dizendo:
- No se deixe levar pelas aparncias. Ela  a Helena de sempre, apenas estacionou um pouco na iluso, porm a luz que tem ainda continua l,  s ter pacincia 
e esperar que ela venha para fora.
Flvio pensou:
- Ela  linda, apenas se esconde na aparncia da revolta e estupidez, no fundo tem uma luz especial que me encantou.
Flvio sentiu que aquele acidente no fora de todo ruim. Apesar dos dissabores, ele havia conhecido uma linda garota que o encantou. Mas que sensao esquisita foi 
aquela? Por que de uma hora para outra ele havia perdido o controle de seu corpo e de sua voz? E por que duas vezes no mesmo dia? Ele estava com vergonha por haver 
agredido o pai, jamais se perdoaria por isso. Por que mesmo fazendo fora para se calar acabou chamando seu pai de ladro? Logo ele um homem to trabalhador e honesto. 
Flvio comeou a chorar. A conexo com Carlota foi rompida pela energia depressiva. Noel que tambm estava a seu lado comentou:
- Ele no consegue compreender por que fez aquilo com o pai. Ele ainda no percebeu que mediunidade tem tudo a ver com personalidade. Quando Flvio ouviu o pai dizer 
que o foraria a trabalhar novamente, ficou com raiva e sentiu vontade de esmurr-lo. No entanto, engoliu a raiva e a calcou dentro de si. Bastou esse pensamento 
para seu padro energtico baixar, o que permitiu a Ester manej-lo como queria.
Carlota considerou:
-  por isso que o portador de mediunidade deve estar alerta com o nvel de seus pensamentos, quando entra no negativo abre a porta para a interferncia dos espritos 
perturbadores.  necessrio fazer a parte que lhe cabe mantendo pensamentos positivos, ficando no seu melhor. Flvio se deixa invadir constantemente por opresses 
e ainda no aprendeu a tomar conta do seu prprio campo vibratrio. Um pouquinho mais de esforo e Ester no teria conseguido o seu intento.
Noel, olhos perdidos no tempo, ponderou:
- O dio que ela sente  muito grande, mas j teria se desfeito se no tivesse se embrenhado com o pessoal do Desterro. Jorge consegue manej-la facilmente explorando 
seu lado vingativo.
Carlota, suspirando profundamente, disse:
- Mas, como nos diz Hilrio, a natureza no d saltos e vai chegar a hora em que ela recolhendo os resultados de suas atitudes acabar mudando e buscando outros 
caminhos.
- Isso mesmo querida, s ela pode fazer isso. Agora como e quando isso vai acontecer, s o tempo dir.
E continuaram ali a velar por Flvio.

3 - O MAL PRODUZINDO SEUS EFEITOS

A sada de Flvio do hospital foi rpida e sua recuperao foi em casa. As famlias envolvidas conversaram bastante e resolveram no dividir as despesas do carro 
de Camila. Os Assuno Ferguson eram bastante orgulhosos para aceitarem a oferta que ngelo lhes props, e aps os formais pedidos de desculpas, ambas as famlias 
levaram seus filhos de volta aos lares. Durante sua recuperao Camila estava mais nervosa que o habitual. Seu caso fora mais grave e exigiria muitos dias de repouso 
absoluto. Sentada em sua cadeira de rodas num quarto ricamente mobiliado ela pensava em tudo que aconteceu em sua vida. Recordou-se do juramento que havia feito: 
que jamais deixaria a me viver em paz. Tudo comeou quando ela completou 15 anos. lida abriu os portes de sua manso no Bairro dos Jardins para uma luxuosa festa 
em comemorao ao seu aniversrio e toda a mais fina sociedade paulistana compareceu. Aps o baile, Vera chamou Camila num canto do jardim e disse:
- Preciso mostrar uns amigos do Cambuci que conheci e tive a liberdade de trazer  sua festa. Dona lida os tratou mal e por isso eles nem chegaram a entrar na casa, 
preferiram o jardim.
Camila, com personalidade forte, respondeu:
- Mame  assim mesmo, para ela s vale a etiqueta do social, do mais rico, do nome melhor, eu j estou acostumada.
Aproximaram-se de um banco onde os jovens estavam reunidos e Vera iniciou:
- Jorge, Maurlio, Rafael, eis aqui nossa aniversariante, agora j podem cumpriment-la sem que a dona lida faa nenhuma cena.
Os trs parabenizaram Camila e continuaram a conversar no ar puro do jardim. A orquestra que tocava no salo iniciou um jazz ao que Jorge falou:
- Que dona lida me perdoe, mas no vou perder esse jazz por nada deste mundo.
Maurlio aquiesceu:
- Tambm vou e quero danar com Vera. D-me a honra?
-  claro querido! Vamos tambm Rafael?
- Eu prefiro continuar aqui com Camila, ao que parece ela prefere as baladas romnticas e no est interessada no jazz!
Camila aquiesceu:
- Isso mesmo, prefiro a brisa aqui de fora. Se aceitar gostaria que ficssemos conversando aqui.
Eles entraram e Rafael falou admirado:
- Puxa, Camila, pelos poucos minutos que conversamos percebi que voc  muito amadurecida para sua idade, discorre facilmente sobre os vrios assuntos.
Ela retorquiu:
- Sou o que sou, gosto de ser eu mesma, sem iluses de grandeza ou de ser melhor. Pelo que percebi voc parece pensar como eu.
- Isso mesmo, o problema  que minha condio no me permite crescer e fazer tudo o que eu quero.
S naquele instante Camila percebeu o bvio: Ele sofria com o preconceito de cor, ele era negro! Talvez por isso sua me os repelira tanto. lida tinha horror aos 
negros. Camila no conseguia entender como uma pessoa to religiosa era assim to arrogante e preconceituosa. Tentou contemporizar:
- No diga isso, hoje em dia o mundo tem mudado, j no se v tanto preconceito contra negros.
Ele abriu terno sorriso e Camila apaixonou-se pelo seu esprito que julgou sincero e nobre.
- Sabe Camila, sonho em ser artista, trabalhar em TV, irado, mas o que vejo  o preconceito terrvel. Os papis dos negros so apenas para serem empregados, humilhados 
em cena, ningum d valor ao nosso trabalho. O mocinho  sempre o branco, e o bandido, o marginal que assalta, mata e rouba  sempre o negro. Infelizmente no terei 
fama com papis como estes.
Triste, mas querendo ajudar, Camila disse:
- E voc pensa que a nica forma de ser feliz  atravs da fama? A vida  muito rica e se nos tira uma oportunidade nos oferece sempre outra equivalente, sempre 
h um novo caminho para encontrarmos a felicidade.
De repente eles se assustaram, Isabela a irm mais velha de Camila estava na frente de ambos. Sarcstica ela disse a Camila:
- O Ricardo Valadares e o Guilherme Brando querem cumprimentar a aniversariante e no a encontra. E eu venho encontr-la conversando aqui sem dar ateno aos verdadeiros 
amigos.
Camila percebeu que ela havia dito isso se referindo  cor de Rafael. No estava a fim de discutir, contemporizou:
- Vim tomar ar e encontrei a companhia maravilhosa de Rafael, a propsito quero convid-lo para entrar comigo agora e danarmos a valsa.
Isabela corou:
- O qu? Mame no vai gostar nada de lhe ver danando com quem no  de nossas relaes, vai lhe passar um sermo quando a festa acabar.
Rafael interrompeu:
- No vim aqui causar confuso, alis, no era nem para ter vindo, a Vera que insistiu. Olha, Camila, se houver algum inconveniente no precisa se expor.
Camila insistiu:
- Nada disso, vou mostrar a todos que quem manda na minha vida sou eu. Dano com quem quiser e achar melhor. Vamos Rafael.
Puxando Rafael pelo brao, Camila sentiu algo se rebelar dentro dela, estava cansada de ver os desmandos de sua me, seus preconceitos, sua arrogncia. Ela ia ver 
quem era melhor.
A valsa comeou e Camila entrou no grande salo majestosamente de mos dadas com Rafael. Iniciaram a dana. Instantes depois os amigos de Camila perguntaram quem 
era o desconhecido que danava com ela. Todos pararam para ver. lida envergonhada desculpava-se com as amigas dizendo que se tratava de coisas da adolescncia, 
que Camila sempre tivera personalidade forte e que ela no estranhava essa atitude. Mesmo assim as matronas teceram comentrios descaridosos a respeito da cor do 
rapaz, bem como sua origem. Passava das quatro horas da manh quando todos os convidados foram embora. lida no conseguia esconder sua indignao; alm de danar 
com o negro mais de uma hora, Camila deixou seus principais amigos de lado para conversar apenas com o intruso. No dia seguinte falaria com ela.
Em sua banheira, Camila no conseguia esquecer Rafael, fora paixo  primeira vista. Encantou-se com seu jeito firme, suas palavras sinceras e encantadoras, seu 
modo de pensar e sua inteligncia. Trocaram telefones e prometeram se ver. Os garotos de sua turma eram por demais exibidos e ostentadores, "Mauricinhos", como se 
costuma dizer e esses no a interessavam nem um pouco. Pela manh depois do caf, lida lhe passou um sermo falando do ridculo que foi sua atuao em plena festa 
de 15 anos, discorreu sobre os valores sociais e exigiu que eles fossem respeitados. Fernando, seu pai, era mdico e no merecia aquela gafe. Mesmo assim Camila 
no a ouviu e continuou se encontrando com Rafael. A cada dia estavam mais unidos. A partir daquela festa um dio surdo brotou em seu peito contra a me, pelo egosmo 
que ela representava e pela falsidade em que vivia. Estava disposta a levar sua relao adiante custasse o que custasse e acabou se entregando a Rafael. Um ano e 
meio aps seu aniversrio e depois de encontros furtivos sem que ningum desconfiasse, Camila engravidou. O casal resolveu esconder a relao de todos temendo que 
lida os atrapalhasse, porm com o passar do tempo no dava mais. Aps uma longa conversa decidiram participar o assunto  famlia dela. Uma bomba teria dado menor 
impacto. lida expulsou Rafael de sua casa dizendo-lhe improprios e bateu trs vezes no rosto da filha. Fernando tentava contemporizar, mas a esposa estava irredutvel: 
esse filho jamais viria ao mundo. Tentando fugir, Camila foi presa pelos seguranas e trancada em um quarto, sem ver ningum, sem nenhum contato com o mundo exterior. 
O dio crescia ainda mais em seu peito e nem Fernando pde ajud-la como gostaria, uma vez que era dominado pela esposa. Uma tarde soube pela empregada que Rafael 
saltou um dos muros da manso e foi ferido pelos cachorros da casa. A me dele l esteve e foi humilhada por lida. Com o tempo Rafael seguindo os conselhos da me 
procurava esquecer Camila, mas a imagem de seu filhinho que estava por nascer vinha forte em seu pensamento e ele comeou a beber. Depois de trs meses com Camila 
presa, lida pediu a Jacira, a empregada, que a deixasse preparar o almoo da filha. Seu plano tinha que dar certo. Colocou alta dose de sonfero no prato e ela 
mesma foi lev-lo  filha. No a via desde que fora presa, pois Camila a xingava e atirava-lhe objetos. Porm, nesse dia, entrou no quarto falando:
- Voc pode me odiar, mas tudo o que fao  para o seu bem, coma.
- Saia daqui, no quero v-la. Jamais a perdoarei!
- Pode me xingar  vontade, entendo que est louca e como tal tenho pena e no dio de voc.
- O que pretende em pleno sculo XX fazer com um neto negro? Afinal, ele tem o seu sangue!
- Jamais o reconhecerei, fique sabendo que no vou deixar voc estragar sua vida inteira por causa de um negro sem eira nem beira. Coma!
Camila sentiu vontade de atirar-lhe o prato no rosto, mas a fome era maior, ela tambm tinha que alimentar seu filhinho que j se mexia e precisava ser nutrido. 
Comeou a comer. Ela no viu, mas pelos olhos de lida passou estranho brilho de vitria. Sua filha cara nas suas garras. Em poucos minutos Camila estava desacordada. 
lida, acompanhada por espritos abismais colocou a filha adormecida dentro do carro dando ordens aos empregados para nada dizer a Fernando. Em sua mente um nico 
pensamento: "Este negrinho no manchar a honra de minha famlia com sua cor nojenta". Um vulto exultou de alegria e soprou-lhe aos ouvidos:
- Est certa amiga, vamos acabar com essa raa infeliz e  hoje.
lida sentia aumentar seu dio e repetia para si mesma: Hoje acabarei atravs de um aborto com essa raa que ousou invadir minha famlia.
Mal sabia que com essa atitude estava criando compromissos terrveis de reajuste que certamente iriam encontr-la no futuro. Ningum pode dispor da vida pois s 
Deus tem esse poder. Pobre do homem ou da mulher que se achando dono da vida pratica semelhante crime, achando que seja a soluo para seus problemas. Numa casa 
malcheirosa num subrbio da Zona Sul o aborto foi realizado. Camila inconsciente no perdeu muito sangue e sua recuperao foi rpida. Ao abrir os olhos e constatar 
a realidade Camila e a me travaram uma luta corporal. No auge da raiva ela jurou:
- Malditas sejam voc e sua alma, enquanto viver farei de tudo para tornar um inferno a sua mesquinha vida. Vou desmoraliz-la perante a sociedade, me tornarei a 
pior das criaturas at que ao v-la destruda eu possa novamente viver em paz.

4 - OBJETIVOS DA VIDA

Camila saiu de casa com muito dio  procura de Rafael. Ainda estava fraca, mesmo assim seguiu para o Cambuci. Quando chegou na rua onde ele residia percebeu um 
movimento inusitado. Ela precisou ter todo o controle quando viu na porta da humilde casa uma coroa de flores. Atnita ela entrou no velrio e viu Rafael no caixo. 
Ele estava morto e ela no teve foras para chorar, sua vida estava acabada. Saiu da casa e sentou-se numa pedra prxima onde podia divisar uma nesga do horizonte. 
Por que tudo teve de ser assim? Fatalidade? Porm, a verdade  que Camila estava muito chocada. Para ela a maldade e o dio eram os sentimentos que dominavam o mundo, 
sua me triunfara atravs do dio e ela, a partir daquele dia usaria o dio e o rancor para destruir tudo o que passasse na sua frente. Daquela hora em diante ela 
jamais teria piedade ou d de ningum. Maurlio e Vera aproximaram-se. Vera alisou-lhe os cabelos e Maurlio comentou:
- No tivemos como avis-la, sua me proibia-nos de entrar em sua casa. Soubemos que est grvida, mas infelizmente ele se foi.
Vera continuou:
- Desde que foram proibidos de se ver, Rafael comeou a beber sem parar, s falava no filho que ia nascer e em voc, o grande amor da vida dele. Ontem  noite pegou 
o carro do Maurcio emprestado e acidentou-se gravemente. Foi morte cerebral instantnea. Infelizmente seu filhinho no conhecer o pai.
Sem conseguir chorar, Camila contou tudo o que a me fizera, explicou o aborto e o seu juramento final. Seus amigos revoltados a ajudariam naquela empreitada. O 
enterro foi pobre e humilde. Camila foi olhada de soslaio pela me de Rafael que intimamente a culpava pela morte de seu nico filho. Na sepultura humilde, Camila 
apanhou um punhado de terra e mais uma vez proferiu outro juramento:
- Hei de vingar sua morte! Pela luz que irradia deste pr-do-sol, hei de me vingar.
Os dias foram passando, Camila no saiu de casa, pois permanecer no lar fazia parte de seu nefasto plano. A partir daquele dia espritos do umbral passaram a segui-la 
constantemente, alimentando seus planos, dando-lhe detalhes para conseguir o intento macabro. Influenciada pelos espritos das trevas ela iniciou uma draconiana 
mudana em seu visual, colocou tatuagens manchando assim o templo sagrado que  o corpo fsico, piercings por todos os lugares possveis, agredindo o templo do esprito 
e entregando-se completamente ao vcio do lcool. Assim, seus escndalos passaram a figurar em todos os jornais da cidade, inclusive nas pginas policiais. lida 
comeou a perder o equilbrio emocional, passou a tomar remdios controlados e h sair muito pouco. A gota d'gua foi ela ter surpreendido a filha e seus amigos 
da "pesada" numa orgia em plena sala de sua casa. A partir daquele dia lida comeou a definhar at que um padre seu amigo a aconselhou a no se desfazer de sua 
vida por uma filha que havia se ligado com o demnio. Ento lida reagiu, foi a cabeleireiros, lugares da moda, enfim, praticamente voltou a levar a vida de antes. 
Porm Camila no mudou, continuava provocando escndalos e mais escndalos. Como exalava uma energia especial, pois era mdium sensitiva, rapidamente atraiu mais 
presenas espirituais inferiores que sugavam toda a sua energia. Ela passou ento a apresentar uma aparncia plida e debilitada. Essas lembranas incomodavam Camila 
e, para distrair a mente, invariavelmente usava o computador navegando por sites pesados da Internet. No panorama espiritual os mentores faziam de tudo para amenizar 
o estado catico daquela famlia, porm eles no tinham liberdade para interferir no livre-arbtrio dos envolvidos. A obsesso que est presente na maioria dos lares 
terrenos, naquela casa se encontrava em estado mais grave. Alm dos espritos sugadores do dia-a-dia, havia uma tenebrosa equipe espiritual treinada e disciplinada 
por Tefilo para pr fim  vida de Camila. Pela forma como ela agia, Tefilo, chefe de uma cidade astral inferior, foi informado que ela  seria uma preciosa sugadora 
e magnetizadora do astral inferior, seria perfeita para a realizao dos planos de vingana que ele e seus sditos tinham em mente e que no podiam ser postergados. 
Tefilo decidiu no tribunal da cidade de Larvosa que Camila deveria desencarnar, uma vez que encarnada de nada valia. O plano foi traado: dezesseis espritos iriam 
afund-la no vcio do lcool, revezando-se continuamente para que ela fosse manipulada 24 horas por dia.
Tefilo designou oito espritos para ficar com ela da meia-noite ao meio-dia e mais oito para continuarem do meio-dia at a prxima meia-noite. Tudo na mais perfeita 
disciplina. Sabendo o que se passava, Carlota marcou urgente reunio com Hilrio para que juntamente com Noel e outros benfeitores do alm pudessem intervir no caso. 
Em sua habitual sala de trabalho no edifcio central da colnia Campo da Redeno, Hilrio, sorridente e amvel os recebeu:
- Sejam bem-vindos. O que desejam?
Carlota iniciou:
- Acreditamos que pela sua experincia j sabe do que se trata. Somos encarregados da evoluo de um grupo espiritual e estamos observando um de seus membros se 
perder no vcio e na degradao. Trata-se de Camila.
Noel e Carlota narraram em detalhes os acontecimentos e Hilrio observou:
- O que me contam no  novidade. Camila necessita de amadurecimento e est escolhendo o caminho da dor para evoluir. Sei do interesse de vocs em auxili-la, mas 
nada ou quase nada h para se fazer, a no ser rezar para que Deus nos conforte e alivie o sofrimento dela.
Carlota indignou-se:
- O qu? Vemos a destruio de um ser querido e no podemos fazer nada? O Tefilo vai conseguir lev-la para Larvosa... Onde est o Criador?
Impvido Hilrio respondeu:
- Est no leme de tudo! Deus sempre est  frente de qualquer acontecimento e no cai uma folha da rvore sem seu consentimento.  medida que crescemos vamos adquirindo 
maior liberdade e se foi Deus quem nos deu certamente Ele no ir interferir no seu uso. Na
Terra as pessoas embrenham-se nos vcios de todas as espcies. Como no tm viso espiritual acham que esto fazendo tudo sozinhas e que vo ficar sempre como esto, 
gozando deles sem limites. Em verdade esto em sua maioria sendo usadas pelos chefes das falanges inferiores. Quando morrem, nem bem termina o desligamento dos laos 
fludicos j esto quais vampiros  espera da presa. Quando finalmente libertos do invlucro carnal os espritos viciados so capturados pelos chefes do umbral e 
passam a viver como prisioneiros destes.
Carlota no se conteve:
- Esse ser o destino de Camila?
Hilrio explicou:
- Tudo pode ser mudado, porm eu diria que no caso dela talvez seja um pouco tarde. Vamos ver se o reencontro com Flvio lhe ser positivo. Em breve a mediunidade 
dela se tornar mais ostensiva e bebendo como est no ser nada fcil. Esse rapaz ter muito que fazer para que ela desperte.
Noel ficou em dvida:
- Em minha inexperincia acho que apenas os espritos equilibrados merecem a mediunidade, pois sabero fazer bom uso dela. At hoje no consigo aceitar que pessoas 
como Camila ganhem essa preciosa ferramenta.
Hilrio sorriu:
- Disse-nos Jesus: "No so os sos que precisam de mdicos e sim os doentes". Sbias palavras do Nazareno. Como a mediunidade  uma bno, um esprito necessitado, 
se bem orientado por pessoas experientes pode vir a equilibrar-se, conhecer outras dimenses do Universo, praticar o bem, aprender, ser feliz. A mediunidade  um 
presente para que o homem viva melhor. No critique, pois se Deus os favoreceu com esse dom  porque em sua misericrdia sabia que era para um bem maior.
Carlota ansiosa perguntou:
- O que efetivamente podemos fazer para salvar Camila?
- Vejo que voc ainda cultiva um grave vcio humano: o de querer salvar as pessoas. Quanta iluso! Ningum salva ningum, ningum ensina nada a ningum. Apenas favorecemos 
para que as pessoas retirem de si mesmas as lies que precisam. Estamos acostumados a subestimar o poder do ser humano e o mimamos excessivamente. Se Deus nos colocou 
num planeta de experincias como a Terra Ele tambm nos deu todos os elementos para sairmos dela vitoriosos. Mas ns, orgulhosos que somos, achamos que estamos "ajudando", 
"salvando" os outros quando estamos apenas exercitando o nosso orgulho.
Ele fez ligeira pausa e vendo que os dois ouviam atentos, continuou:
- Carlota, raros so os que ajudam verdadeiramente. Enquanto mantivermos a iluso de que estamos ajudando algum, evidenciamos apenas nossa vaidade. Devemos ter 
a humildade de perceber que quando a vida coloca algum necessitado em nosso caminho  para treinarmos a doao, o dar de corao e principalmente para termos ocasio 
para fazermos o nosso melhor. Quem ajuda de corao recebe muito mais do que deu. A sabedoria divina aproxima e separa as pessoas para que trocando experincias 
aprendam a viver melhor.
- Ento deixaremos Camila  merc desse grupo monstruoso? - indagou Noel.
- No foi isso que quis dizer. Contamos com vocs para praticarmos a verdadeira ajuda, que s pode ser feita quando a pessoa estiver madura para receb-la. No se 
atiram prolas aos porcos. Nunca se perguntaram por que no umbral e na crosta h tanto sofrimento? Nunca se perguntaram onde est Deus que v tudo isso e aparentemente 
nada faz?
- Quando cheguei aqui h 35 anos tinha esse questionamento - exps Carlota. - Com voc e espritos de regies mais elevadas tenho entendido muita coisa, mas a cruel 
dvida para muitos casos ainda permanece. Sei que h muito sofrimento nessas zonas, o irmo Andr Luiz que reside em Nosso Lar, levou oito anos para ser socorrido 
e retirado do umbral.
Hilrio exultou:
- Belo exemplo. Deus  suprema justia, bondade e sabedoria, nada acontece sem seu consentimento. O exemplo de Andr Luiz ilustra bem o caso em questo. De que adiantaria 
ele ter sido socorrido sem ter aprendido tudo quanto deveria aprender para sair dali? Nem
de Deus ele se lembrava. Porm quando orou, meditou e aprendeu o significado de sua estada l, imediatamente  equipe de Clarncio foi busc-lo. Deus no tem pena 
e nem mima ningum; olhando casos como este do Andr, analisando os hospitais da Terra principalmente os infantis, podemos perceber que o conceito de ajuda para 
Deus  um, mas para ns  outro. E quem ousaria dizer que Deus fez alguma coisa errada? Dizer isso  afirmar que Ele  falvel, o que jamais podemos conceber. Se 
Ele  a causa primeira de tudo, seu objetivo maior  a evoluo. Enquanto ns queremos ser a "muleta" para que os outros se pendurem, Ele deseja ser o professor 
que ensina a andar direito e com as prprias pernas. Quer pai melhor?
Noel e Carlota estavam mudos com a sabedoria de Hilrio. Porm, Carlota insistiu:
- Voc ainda no respondeu  minha pergunta: Camila ficar sem auxlio somente porque com o livre-arbtrio escolheu o vcio?
- Ningum est sozinho porque a vida  misericordiosa. Ela ter no s de vocs, mas de outro grupo espiritual toda a assistncia que por mrito conseguir. No que 
for possvel aliviar aliviaremos, porm se continuar agindo como est atrair experincias que no poderemos evitar, afinal a vida  feita de escolhas. Recebi informao 
de plano mais alto que a convivncia com Flvio ser uma oportunidade de crescimento para ela. Se aproveitar ser feliz, se no sofrer as conseqncias. Vo em 
paz e que Deus e Jesus os acompanhem.
Noel e Carlota saram conformados com as palavras de Hilrio. Eles fariam de tudo para colocar em prtica as coisas que ouviram.

5 - O DRAMA DE FLVIO

A tarde ia em meio quando Flvio resolveu sair da cama. Desde o acidente no havia mais sado de casa e seu pai no conseguira esquecer as palavras acusadoras que 
ouvira dele. Havia uma semana que tudo tinha acontecido, porm ningum na casa comentou mais nada, nem Marina que gostava de dar alfinetadas esboou qualquer gracejo. 
Flvio tentava concatenar as idias sem entender o que acontecia com ele. Lembrava-se claramente do dio que sentira do pai e de t-lo acusado de ladro. Por que 
dissera aquilo? A partir daquele acontecimento o pai estava cada vez mais sisudo com ele, falava apenas o necessrio e no havia lhe pedido desculpas pelo soco. 
Descendo as escadas encontrou rica folheando uma revista de moda, que ao ver o filho falou:
- Ainda bem que resolveu descer, precisamos conversar.
Acomodado no sof, Flvio esperava.
- Seu pai perdeu o emprego, eu no tenho profisso, sua irm estuda, por tanto resta apenas voc. Na prxima segunda-feira voltar ao trabalho quer queira quer no 
queira. Voc precisa auxiliar, pois o dinheiro de seu pai vai durar muito pouco para mantermos o padro de vida ao qual estamos habituados.
Corado pela surpresa Flvio retrucou:
- Isso no poderei fazer, de jeito nenhum! Aquela empresa  para mim o verdadeiro inferno, voc no pode me obrigar.
- Mas obedecer! Seu pai j est muito magoado com suas palavras e caso no colabore ser pior para voc.
- Por que ele no tenta outro emprego? Afinal, no dizem em sociedade que so os pais que devem sustentar os filhos?
- Ele est procurando, mas voc acha que  fcil encontrar emprego depois dos 50 anos? Vocs jovens nada sabem da vida. No estamos em condies de dar importncia 
ao que a sociedade diz ou no.
- Mas h o Cristiano, ele no est l na Inglaterra levando vida boa? Por que no recorrem a ele?
- O seu irmo sempre quis nos ajudar, mas o ngelo  muito orgulhoso e jamais aceitou, muito pior agora.
A porta abriu-se e ngelo com expresso sria entrou. Beijou o rosto da esposa, mas no cumprimentou Flvio. Sentando-se anunciou:
- Temos que viajar. A empresa do Farias, a nica que me restava acaba de me negar emprego, precisamos aceitar a sugesto de Cristiano.
Mudos, Flvio e rica no sabiam o que dizer. Ele continuou:
- Nem a voc rica eu revelei que tenho mantido contato com nosso filho. Como ele est muito bem na Inglaterra e  dono de uma empresa de porte mdio nos chamou 
para residir l com ele, me ofereceu emprego em sua empresa e ainda garantiu-me servios extras. Diz que na Inglaterra as idias so outras e por isso o pas  prspero. 
L tudo que se toca vira ouro.
Assustada, rica perguntou:
- Mas ir embora assim, de repente? E nossa propriedade, nossa filha que falta muito para se formar?
- J pensei em tudo, mas tem um problema: no podemos levar o Flvio.
Um susto fez estremecer todo o corpo de Flvio que, instintivamente, disse:
- Como pode ser isso? Onde eu vou ficar?
ngelo revelou:
- Telefonarei para sua tia Francisca e ela de bom grado o acolher.  solteirona e ficar muito feliz com a companhia de algum mais jovem.
Flvio ficou sem cho. J no tinha amigos, estava com problemas que ele supunha serem mentais e agora perdia o apoio da famlia. Foi tomado de uma tontura e seu 
corpo cobriu-se de suor. Sua fisionomia mudou e uma vontade irresistvel fez com que se levantasse e andasse pela sala, inquieto. Sbito, virou-se para o pai e disse:
- Como sempre egosta, alm de ladro  egosta! Agora por causa de um dio quer abandonar o filho e por que vai levar Marina?
Flvio sentiu-se enlouquecer, num timo foi jogado em esprito a um canto da sala e de l pde observar uma mulher loura tomar conta de seu corpo fsico. Ela estava 
muito prxima dele e o manuseava como um boneco. Malaquias se aproximou do esprito dele que estava encolhido em um canto e apavorado falou com chispas de dio nos 
olhos:
- No tente fazer nada garotinho ou vai se arrepender, fique s observando, na hora certa Ester lhe devolver o corpo.
Flvio estava atordoado, que loucura era aquela? Por que se via longe do corpo? Agoniado, agitado e nervoso, ele perdeu os sentidos. Malaquias e Roque sorriram e 
um disse para o outro:
- Bem que Tefilo nos avisou, esse  presa fcil. A tarefa ser mais rpida do que pensamos.
Enquanto isso, o clima era cada vez pior. Ester atravs do corpo de Flvio dizia:
-  isso mesmo, quem mandou voc fazer o Adolfo assinar aquelas promissrias? Voc sabia que ele no tinha como pagar. S para depois tomar nossas terras e nos deixar 
morrer na misria. Voc pagar caro.
Com os gritos, Marina e Sandra apareceram na sala e a cena era pattica. rica chorava implorando para que parassem e ngelo bradava:
- Voc est louco, no quero um louco me acompanhando a Londres, vou dar autorizao  sua tia para intern-lo num hospcio!
- Faa isso e levar mais um crime na conscincia,  isso que ns queremos! Por hora vou me retirar, mas estou lhe avisando: onde voc for eu o estarei perseguindo, 
como uma sombra e farei justia com as prprias mos.
Flvio desmaiou e seu corpo cobriu-se de suor gelado. Sandra e Marina colocaram-no sobre o sof e ngelo subiu as escadarias revoltado, rica o acompanhou. Sandra 
trmula confessou a Marina:
- Dona Marina se no estou enganada, o que aconteceu com Flvio  coisa de esprito.
- O qu? Era s o que faltava, isso no existe,  coisa de gente ignorante!
- No  no. L no meu bairro o Lus, filho de minha cunhada, era tomado por um esprito vingativo que queria sua morte, e s melhorou quando dona Isaltina foi l, 
conversou com o esprito e o convenceu a ir embora. Falou do perdo, do amor ao prximo e como seria bom ele viver num mundo de paz e refazimento. Depois disso o 
Luizinho nunca mais teve nada, sarou de verdade.
Marina muito impressionada com o que presenciou deu um pouco de crdito quela histria. As horas passavam e Flvio no despertava do desmaio. Seu esprito em estado 
de choque pairava alguns centmetros acima do seu fsico. Ao chegar a hora de deixar o servio, Sandra teve uma idia:
- Quem sabe se a dona Isaltina vier aqui rezar e falar com o esprito ele no desperte?
- Est louca de chamar uma curandeira aqui? Minha religio jamais permitiria! - disse rica a Sandra. - Est na Bblia que no se pode falar com os mortos e eu no 
acredito nessas coisas.
Marina interrompeu:
- Mas  bom comear a pensar no assunto.
Em rpidas palavras Marina contou  sua me a histria de Sandra e por fim disse:
- Mame, vamos traz-la aqui, olhe o estado do Flvio, j so sete horas e ele continua gelado e no acorda. Papai no quer saber dele, precisamos fazer alguma coisa.
- Nessa hora dona Isaltina est em casa, se formos rpido ela poder vir.
- No quero. Essa curandeira aqui no entra jamais - bradou rica.
- Eu no vou deixar voc com seu preconceito acabar com a sade do Flvio, ele  meu irmo e no estou gostando de v-lo nesse estado.
Marina e Sandra saram e rica a se ver sozinha com o filho estendido no sof da sala sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Ela no podia ver, porm Malaquias estava 
ali atento e com medo de que alguma coisa desse errado com a presena de Isaltina, aproximou-se de rica. rica sentia as energias de medo de Malaquias e achava 
que eram suas, arrepios de quando em vez percorriam seu corpo.  claro que como me ela tambm temia, mas boa parte do que sentia vinha de Malaquias. Roque surgiu 
na sala assustado, chamando Malaquias a um canto:
- O clima aqui no ser bom para ns. Tefilo mandou que retornssemos urgentemente, pois cidados da luz vo invadir esta casa. Eles podem at nos prender e levar 
para lugares de onde no mais retornaremos.
Apavorados, seus vultos negros desapareceram da sala. No mesmo instante uma senhora de meia-idade adentrava o recinto com Marina e Sandra. Com simpatia ela falou:
- Boa noite, suponho que o rapaz seja este.
-  sim, e seu estado se mantm desde as cinco da tarde, no acha que ele precisa de um mdico? - perguntou Marina.
- Olha filha - tornou Isaltina. - O mdico que ele realmente precisa  Jesus. Vamos dar as mos, fechar os olhos e fazer uma prece pedindo auxlio aos amigos espirituais: 
"Senhor Deus Criador do Universo, sua fora  sublime e sua misericrdia  infinita, concede-nos a presena de amigos espirituais benfeitores para ajudarmos esse 
irmo necessitado. Que sua luz possa brilhar por entre as trevas da ignorncia e que sua bondade permita que este esprito possa novamente encontrar a paz. Que assim 
seja!".
Flvio estremeceu e sua testa se cobriu de fino suor. Dona Isaltina colocou a mo sobre sua testa e falou com convico:
- Volte ao corpo Flvio, assuma o comando de sua vida,  hora de comear a tarefa que Deus lhe confiou.
Todos estavam impressionados. Flvio abriu os olhos e deu-se conta do que se passara. Inspirada por Carlota, Isaltina dizia:
- Voc foi afastado temporariamente do corpo, mas tudo voltou ao normal. Voc precisa dedicar-se  espiritualidade o quanto antes. Alguns fatos vo acontecer na 
sua vida e s poder contar com o conforto espiritual. Um amigo espiritual est dizendo que chegou  hora de assumir sua tarefa e que contar com o auxlio da mediunidade. 
Por isso precisa estudar o assunto e aprender a lidar com sua sensibilidade.
Flvio j completamente acordado perguntou:
- Quem  esse amigo espiritual que est me mandando este recado?
- Um homem de cabelos grisalhos, estatura mediana, com culos quadrados e se diz chamar Hilrio. Diz que  seu amigo h muito tempo, mas que voc agora no se recorda 
dele. Deixa-lhe a mensagem para que use sua mediunidade para o bem, com amor e dedicao. H aqui mesmo em So Paulo um grupo que est esperando sua chegada e em 
breve estar com eles, sentir sua sensibilidade aumentar, sair do corpo e conversar conscientemente com os espritos desencarnados.
- Posso saber o que vai acontecer em minha vida?
- Ele diz que  cedo para falar nisso. Admite, porm que voc ter toda assistncia necessria. Agora ele precisa ir, pede que se ligue com a espiritualidade atravs 
da prece e mantenha pensamentos positivos que o ajudaro a viver melhor.
O ambiente da casa havia se transformado. O tumulto desaparecera e em seu lugar havia uma atmosfera agradvel de paz. Isaltina deu um beijo em Flvio e disse:
- Voc  muito bonito. A beleza pode ser a perdio ou a salvao de uma pessoa, utilizando-a para o caminho do bem s ter a ganhar. Adeus filho, se precisar, me 
procure neste endereo.
rica impressionada com tudo o que vira no conseguia articular palavra, apenas agradeceu a benfeitora com admirao. Nunca vira um padre da sua igreja fazer semelhante 
coisa.
Marina foi  sacada de seu quarto e olhou o cu cheio de nuvens. Ser que realmente existia um ser que a tudo comandava? Em sua vida mundana nunca havia pensado 
em Deus. Passara a vida inteira vestindo-se  ltima moda, valorizando o status, mas no se sentia importante nem feliz. Por causa disso todos a achavam esnobe, 
metida. Ela porm sabia que no era nada disso. Tudo quanto fazia era para encobrir seu complexo de inferioridade. Ela no gostava de si mesma. Como seria Deus? 
Se Ele existisse mesmo, gostaria dela? O que presenciara naquele dia a fizera compreender que havia muitas coisas alm do mundo material. O que seria tudo aquilo? 
Ela no percebeu, mas uma luz muito forte a abraou e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Deus tambm ama muito voc!

6 - A TRAGDIA

Sentado na sala de estar Flvio no conseguia esquecer os ltimos acontecimentos. Certa vez ouvira falar em centro esprita, mediunidade e contato com os mortos, 
mas nunca parou para pensar na veracidade do fato. Agora estava acontecendo com ele, por qu? Logo aps a sada de dona Isaltina, sua me e Marina foram para os 
quartos e praticamente ignoraram sua presena. O que seria de sua vida dali em diante? rica entrou na sute e percebeu que ngelo dormia profundamente. Graas  
Virgem ele no presenciou aquela cena desagradvel da curandeira conversando coisas estranhas em plena sala, onde os maiores figures de So Paulo j transitaram. 
Deitou e tentou dormir, mas o sono no vinha. Era-lhe penoso deixar o Brasil, havia suas amigas, a igreja que ela tanto amava e se dedicava, e o pior: deixar Flvio 
com a insuportvel da Francisca. Ela tinha certeza de que ngelo sempre duro e rigoroso tomou partido contra o filho e s no o levaria junto por capricho. Ela nada 
poderia fazer. Estava habituada a aceitar todas as ordens do marido sem contradio e se ficasse a favor do filho era capaz de ele a deixar tambm no Brasil. Rolou 
mais meia hora na cama e caiu em sono profundo. Naquela noite todos dormiram muito bem. Noel e Carlota trouxeram amigos espirituais para velar por aquele lar to 
conturbado e por isso Tefilo no conseguiu entrar l com Ester. Pela manh, na hora do caf, ngelo comentou:
- Escuta Flvio, estou disposto a perdo-lo em considerao  sua loucura, pois voc est muito doente. Deixarei ordens a Francisca para que ela procure o melhor 
psiquiatra de So Paulo para ver o que ele far com voc.
- Pai, eu posso garantir que no estou doente, ontem dona Isaltina conversou comigo e quando ela me partiu voltei ao normal. Tenho quase certeza de que meu caso 
 interferncia de espritos.
rica corou e ngelo no acreditou no que estava ouvindo.
- O qu? Coisas estranhas se passam dentro de meu lar e no fico sabendo? O que ocorreu aqui ontem rica? Que histria  essa de espritos?
- A Marina e a Sandra trouxeram aqui uma senhora que rezou e o Flvio voltou ao normal. Coincidncia ou no tudo melhorou e nosso filho ficou bem, por favor, vamos 
acabar com esse clima, eu no agento mais.
Marina explicou:
- Isso mesmo pai. Tambm no acredito nessas besteiras de espiritismo, mas o Flvio saiu do estado em que estava,  isso que importa.
- Mais uma razo para deix-lo no Brasil. No desejo que me acompanhe com essas histrias da Carochinha. Depois do caf conversaremos no escritrio. No se atrase.
Flvio tremeu. O que o pai queria com ele? No conseguiu mais se alimentar, demorou alguns instantes e foi procurar o pai. Entrou no escritrio bem mobiliado e arrumado 
modernamente e percebeu seu pai com olhar grave soltando baforadas de cigarro.
- Entre Flvio e sente-se, pois nossa conversa vai ser longa. J adiei muito esse momento devido ao seu acidente, porm no d mais. Ontem voc repetiu o mesmo erro 
e hoje voc ir me confessar: por que me chamou de ladro? Quem lhe passou calnias to injuriosas a respeito do seu prprio pai?
Naquele instante Flvio admirou-se. Em vez de sentir medo e receio, uma fora grande surgiu de dentro dele. Afinal, ele tinha dignidade e no queria ofender o pai.
- Desculpe-me pai, eu no tinha e nem tenho motivos para lhe chamar de ladro, pois voc para mim sempre foi o orientador que dizia que s o trabalho duro e honesto 
tinha valor.
ngelo remexeu-se na cadeira. Na realidade ele sempre tinha dito isso  famlia, mas de alguns anos para c tinha mudado um pouco de idia. S conseguiria enriquecer 
se tirasse dinheiro na empresa onde trabalhava. E foi isso o que ele fez, criou contas no exterior onde tinha razovel quantia. Um comprovante esquecido no seu escritrio 
foi o passaporte para a descoberta. Ele nunca havia passado tanta vergonha, porm procurou esquecer.
- No minta filho, se algum lhe disse alguma coisa, cabe a voc como filho me defender e me contar e no acobertar caluniadores.
- Falo a verdade pai, no sei o que ocorre comigo, de repente sinto uma tontura, um calor insuportvel, vontade de andar sem parar e de falar muito, quando vejo 
j estou dizendo coisas que no desejo e que no vm de mim.
- No venha com essas histrias que a igreja condena, os mortos no voltam e nem falam com os vivos. Sei que est querendo me enganar, porm vou perdo-lo se prometer 
jamais lanar injrias a quem te deu a vida.
Flvio ia protestar, mas de que adiantaria?
- Sim, prometo. Mas... Por que no me leva junto para Londres? At a Marina vai, menos eu que ficarei aqui com tia Francisca com a qual no tenho afinidade nenhuma.
ngelo no podia contar o verdadeiro motivo que o fazia no o levar a Londres. Ele temia e estava certo de que Flvio sabia a realidade da Limbol. L com esses surtos 
de loucura certamente ele abriria o jogo com Cristiano e o pior: na frente das pessoas importantes que passavam na casa do filho. Com certeza ele seria desmascarado 
e mais uma vez perderia o emprego. Tinha absoluta certeza de que Flvio estava enlouquecendo e durante os surtos falava o que no devia. S no conseguia entender 
como o filho descobriu tudo. Hermes, o acionista majoritrio, num ato caridoso resolveu mascarar o fato e poucas pessoas sabiam da verdade. Resolveu contemporizar:
- Flvio, aqui voc tem um emprego e l alm de ser mais uma pessoa tomando o tempo do seu irmo, talvez no encontre tarefas fceis j que no gosta de estudar. 
Aqui com tia Francisca ns poderemos mant-lo e at custear um tratamento psiquitrico mais em conta.
Flvio corou:
- Quantas vezes quero dizer que no estou louco? E por acaso a mame lhe disse que vou deixar o emprego? Que no vou voltar mais l?
Desta vez ngelo levantou-se da cadeira:
-  claro que j sei dessa loucura, porm pensei que seria mais uma das suas alucinaes. Quer dizer que vai sair mesmo, vai cometer essa insanidade?
Flvio encarou-o nos olhos, respondendo com firmeza:
- Irei, pois no gosto de trabalhar s pelo dinheiro. Se o senhor quiser continuar me ajudando at eu encontrar algo que me d prazer, tudo bem. Se no, posso pedir 
que tia Francisca me sustente at conseguir. Sei que  rica e far isso por mim sem queixas.
ngelo ficou mudo com tanta determinao:
-  assim que diz? Ento assim ser. Hoje mesmo voc vai partir para a casa de sua tia e no vai levar nem um centavo meu. Partiremos daqui a duas semanas e  melhor 
que voc j fique adaptado  sua nova realidade. Suba e faa suas malas.
Com n na garganta Flvio subiu e arrumou tudo numa mochila de viagem. Com o tempo ele buscaria o resto das coisas. Despediu-se de seu quarto e da janela onde costumava 
ver o cu estrelado e se perguntar o que existiria naqueles astros bonitos e misteriosos. A despedida foi de emoo. rica chorou bastante e naquele Instante ela 
sentiu que jamais voltaria ao Brasil. Era ilgico esse pensamento, mas uma fora estranha a avisava que jamais voltaria para aquele que durante 26 anos fora seu 
lar.
- Venha visitar sua me, afinal s iremos daqui a 15 dias.
-  claro que venho mame, pode esperar.
Marina quase no o abraou, pois no gostava de demonstrar o que sentia. Todas as vezes que tinha um sentimento de amor, gratido, amizade por algum, ela no conseguia 
demonstrar por medo de parecer ridcula. Apenas desejou sorte ao irmo que tambm desejou que Deus a amparasse na continuao de seus estudos fora do pas. Noel 
e Carlota em espritos estavam l observando tudo.
- Infelizmente tem que ser assim - comentou Carlota.
- Tudo poderia ser diferente, mas j no h mais tempo, os elementos astrais esto em ebulio e criaram o destino dessa famlia - respondeu Noel.
- O que me conforta  saber que tudo est sempre certo e que a sabedoria divina a tudo comanda, trabalhando na evoluo de todos.
- Isso mesmo Carlota, vejo que tem crescido muito, mas  hora de irmos, pois na operosa cidade astral que vivemos tem sempre muito trabalho a fazer e Hilrio conta 
conosco.
Seus espritos radiosos saram da sala. Poucos minutos depois Flvio chegou na casa da tia. Era uma casa grande e antiga circundada por lindo jardim. No hall havia 
cadeiras, plantas ornamentais, esttuas e  frente da casa uma fonte luminosa dava um ar agradvel ao ambiente. Flvio poucas vezes tinha ido l. Sua tia era considerada 
excntrica por sua famlia, pois s fazia o que queria e dizia somente o que pensava. No freqentava a igreja e at mesmo discutia com rica por conta de assuntos 
religiosos. Ambas viam Deus de forma muito diferente. Tocou a campainha e uma criada atendeu. Logo, uma senhora gorda, risonha e simptica, veio receb-lo abraando-o 
com ar de muita felicidade:
- Seja bem-vindo meu filho. Seu pai j me deixou a par de tudo, at j arrumei seu quarto, espero que esteja de seu gosto.
Flvio era moo simples e estava encantado com aquela casa imensa, cheia de janelas por todos os lados, o que dava uma ventilao agradvel ao ambiente. Quando entrou 
em seu quarto gostou do que viu: alm de tudo muito simples e arrumado havia uma televiso, um som e um videocassete. Abanando-se com colorido leque, Francisca veio 
em seguida.
- Gostou do quarto?
- Ora, tia, est bom demais, aqui posso fazer meu mundinho,  muito arejado e claro.
- Ah, eu sou assim, s gosto de tudo muito bonito, colorido, claro. A vida s tem valor se for vivida em plenitude e com alegria do interno ao externo.
Flvio comeou a gostar daquela senhora alegre e elegante, com cativante sorriso. Ela no parecia ser nada do que sua me costumava dizer.
- Venha filho, vou lhe apresentar aos criados e aos outros moradores da casa.
Flvio comeou a perguntar-se:
- Sua tia no era solteirona? No morava sozinha com os criados? Havia mais algum ali que ele desconhecia?
Foram andando por longo corredor que os levavam  cozinha. L ela apresentou Clara, Gaudncio e Joo, o jardineiro.
- Agora filho vou lhe mostrar os outros moradores deste lar.
Eles seguiram por outro pequeno corredor e se depararam com pequena porta. Ao abrir Flvio sorriu: trs gatos siameses gordos e grandes dormiam confortavelmente 
numa cama. Francisca explicou:
- Esses so os trs moradores deste lar, so minha vida, eu os amo.
Comeou a pegar um por um que acordaram ronronando.
- Estes so o Titi, o Incio e o Cadu, razo do meu viver. - E como que esquecida de tudo comeou a falar com eles:
- Filhinhos lindos, querem a merendinha das quatro no  isso? Mame vai buscar.
Flvio sorriu e percebeu o quo simples era aquela mulher que transferiu sua energia afetiva para trs animaizinhos. Sua adaptao quele lar foi muito fcil. O 
clima era gostoso, principalmente pela pontualidade que reinava absoluta. Sua tia havia morado durante 16 anos na Inglaterra e trouxe de l muitos costumes gostosos, 
principalmente o ch das cinco. Flvio ia todos os dias visitar a famlia, mas o pai no o tratava bem. Acabou concluindo que ele o mandara para a casa da tia antes 
para no ver mais seu rosto e lembrar-se das acusaes. No dia da viagem as despedidas foram poucas, s havia muita tristeza nos olhos da me.
- Se eu pudesse no viajaria, juro. Sinto que nunca mais verei o Brasil.
- O que  isso mame, o papai disse que na primeira oportunidade voltaremos aqui para uma visita. At disse que se as coisas por l se ajeitarem bem, poder mandar 
buscar o Flvio. O Cristiano no se conforma por que ele no vai conosco, no  papai? - perguntou Marina.
- Isso mesmo, no h motivos para choros. Breve estaremos de volta.Vamos logo que o vo 140 nos espera.
E foram para o aeroporto, Flvio no os acompanhou. Chegando a casa da tia a encontrou assistindo TV e comendo deliciosa pipoca de forno com guaran.
- Sente aqui meu filho, est passando um maravilhoso filme de Carlitos que nos d preciosa lio de vida.
Ele concordou e em meio ao ronronar dos gatos comeou a prestar ateno no filme. Uma hora depois o programa foi interrompido pelo planto da emissora para avisar 
que uma tragdia ocorrera com o avio do vo 140 de famosa companhia. Infelizmente ningum sobreviveu. Flvio imediatamente perdeu os sentidos.

7 - OS RESULTADOS DO ORGULHO

Logo aps o acidente de avio, o esprito de cada membro da famlia de Flvio foi para seu lugar de afinidade. Eles no permaneceram juntos depois da morte. ngelo 
acordou num charco onde vrios espritos como ele gemiam e gritavam. Aos poucos foi recuperando os sentidos e a cada minuto se horrorizava com o que via. Aqueles 
seres no pareciam pessoas e sim retalhos humanos. Como fora parar ali? Nunca havia visto semelhante lugar. Quem o salvou na hora da queda do avio? Onde estavam 
Marina e rica? Essas perguntas fervilhavam a sua mente quando de repente uma horda gritando e correndo se aproximou. Uma mulher com a perna direita ulcerada disse 
olhando para ele:
- Voc ter coragem de ficar aqui? Olhe s o estado de minha perna.
ngelo observou e viu uma grande ferida abaixo do joelho sangrando e expelindo uma espcie de lquido branco; estava muito profunda tambm.
- Por que voc no procura um mdico? Isso pode ser cncer.
A mulher desesperada gritou:
- No v que estou querendo salvar sua pele? Eles, os terrveis pssaros das furnas esto chegando. No ouve seus gritos?
De repente, gritos como de abutres selvagens cruzaram o cu. Quanto mais alto ficavam mais as hordas tentavam correr. ngelo olhou para frente e a mulher havia desaparecido, 
talvez tivesse seguido o bando. Algumas pessoas feridas mais gravemente caam no meio do caminho e gemiam desesperadas. Foi a que o pior aconteceu. Um grupo de 
12 aves trs vezes maior que os urubus terrenos e muito mais negro surgiu. Seus bicos eram finos como a ponta de um alicate, seus gritos eram ensurdecedores e logo 
comearam a beliscar as feridas dos perispritos dilacerados. ngelo ficou desesperado quando viu uma delas faminta aproximar-se dele. Seus olhos pareciam ser iluminados 
com uma lmpada vermelha, pois faiscavam tenazmente. Ele caiu e ficou imvel, sua respirao ofegante paralisava todo o seu corpo. De repente, a estranha ave que 
mais parecia uma mistura do abutre com o urubu, comeou a bicar as mos de ngelo. Ele tentava se livrar, mas seu corpo parecia estar irremediavelmente preso ao 
cho. Uma dor aguda o acometeu. A ave bicava sem parar e ele comeou a gemer fortemente. O sangue jorrou e a ave bebia com prazer. Perdeu um dos dedos, cada vez 
mais a respirao aumentava e o corao acelerava. Ele perdeu os sentidos. Horas mais tarde quando acordou, havia um silncio macabro no ar. Desesperado ele percebeu 
que estava sem as duas mos. Levantou e comeou a andar, mas escorregava no prprio sangue. Num lago da colnia Campo da Redeno que servia de tela, Hilrio, Carlota 
e Noel observavam toda a cena. Carlota disse:
- Fico penalizada com um caso como este!
Noel aquiesceu:
- Isso mesmo! Apesar de saber que  necessrio que o escndalo venha, ainda perco o equilbrio com cenas deste tipo.
Hilrio muito sereno explicou:
- A morte  simples mudana de faixa energtica e depois dela cada um encontra a sua realidade. O inferno e o cu encontram-se dentro de cada um.  preciso entender 
que a desonestidade tem um retorno doloroso para quem a pratica. Se quem faz essa espcie de mal soubesse o que vai receber como conseqncia, acredito que jamais 
o faria.
- Ele est pagando o que fez, por isso perdeu as mos?
Sorrindo, Hilrio disse ternamente:
- A vida no cobra nem castiga ningum. Ele est apenas colhendo o resultado de suas atitudes.  assim que ele vai amadurecer. Deus  infinitamente superior e est 
acima de castigos e punies. Porm ele criou leis perfeitas que levam o indivduo a experimentar as conseqncias das suas escolhas. No existe punio, apenas 
aprendizagem.
- Difcil acreditar que ele no est sendo punido. Ao ver uma cena como esta, acredito sim que este  o preo de seus erros  tornou Noel.
Hilrio amvel replicou:
-  que sua viso ainda no saiu dos acanhados limites da percepo terrena, l eles inventaram um Deus que pune e um Deus que premia. Aqui descobrimos que cada 
um apenas passa pelo que lhe  necessrio para aprender a viver melhor. Creia Noel,  o homem que escolhe ir pela lei do "faz e paga". Ele  um ser inteligente que 
precisa aprender a fazer o melhor. Deus jamais se compraz com o sofrimento humano. Porm  a dor que desperta, ensina o homem a compreender que s a prtica do amor 
o levar  conquista da
felicidade.
Eles continuaram discorrendo sobre os vrios aspectos da evoluo espiritual quando o entardecer os surpreendeu com o convite para a hora da prece. Reunidos, se 
dirigiram para o grande salo. Longe dali rica sofria muito e no percebeu que havia deixado a vida na Terra. Atordoada comeou a andar sem rumo, mas no encontrava 
ningum. Imaginou que se salvara do acidente de avio e estava perdida em uma espcie de mata sem fim. Sentia muita fome, sede e calor, porm o que mais a machucava 
era saber qual o destino do marido e da filha. Chorava de tristeza, saudade e preocupao, se perguntando se eles teriam se salvado. Tentando descobrir onde estavam, 
ela andava sem parar. Estava numa espcie de caatinga e nem mesmo poderia saber se era dia ou noite. Olhava para o cu, mas relutava em acreditar que aquele disco 
alaranjado e quase sem luz fosse o sol. Descala, os ps ficaram em chagas. "Se ao menos encontrasse algum por aqui, alguma casa..." - pensava aflita. Mas isso 
no acontecia. Pela sua deduo estava h mais de um ms andando sem rumo. Por vrias vezes desmaiara de fome e seu corpo magro e ossudo j nem lembravam a rica 
de antes. Foi de repente que comeou a ouvir o choro de uma criana que cada vez mais forte pressionava seus ouvidos. Ela procurou o beb por entre os galhos retorcidos 
das rvores, mas no o encontrou. O choro estava cada vez mais alto e ensurdecedor. To incomodada se sentiu que passou a correr para evitar ouvi-lo, mas o choro 
a perseguia implacvel.
- Meu Deus, estou ficando louca? Tanto tempo sem comer e ainda no morri? O que acontece comigo? E esse choro que tanto me angustia?
Durante dois meses ela continuou assim at que ao fim de uma estrada poeirenta encontrou uma mulher loura, cabelos  altura dos ombros, vestido preto, com um basto 
de mais ou menos meio metro nas mos. Vinha acompanhada de uma moa de uns 20 anos. Ao v-la esboou um sorriso de satisfao:
- Ainda bem que te encontrei. Voc estava certa Mina,  aqui mesmo que ela estava. rica olhe para mim, est lembrada? Sou Ester!
rica, que ficou feliz por ter finalmente encontrado um ser vivente, ao mesmo tempo sentiu medo, pois aquela expresso maquiavlica lhe dava uma desagradvel sensao 
de mal-estar.
- Quem  voc? Pode me ajudar a sair daqui? H meses que ando sem rumo, sem saber o que fazer, veja como estou magra.
A outra pareceu no se importar:
- Como sempre se fingindo de vtima, mas aqui no existe isso no. Se no se lembra de mim ser forada a lembrar-se mais tarde. Venha, me acompanhe!
Suas palavras soavam como uma terrvel sentena. rica no viu outra soluo a no ser obedecer. Estava perdida mesmo, depois tentaria saber onde estava e pensaria 
numa forma de voltar para casa.
Com o basto, Ester lanou uma energia alaranjada que comeou a circular pelos pulsos de rica. A energia foi se condensando e uma espcie de algema apareceu. Ela 
estava prisioneira, comeou a chorar desesperada:
- O que est fazendo comigo? Preciso voltar para casa, rever meus filhos, meu marido e voc me prende, seja bondosa, me solte!
- Cale-se - bradou Ester. - Aqui quem d as ordens  Jorge. Voc aprontou demais, fez muita besteira desde a ltima encarnao, agora chegou a hora de pagar o que 
nos deve.
rica no acreditou no que ouviu, certamente Ester era uma desequilibrada que trabalhava para um grupo de seqestradores. Tentou argumentar:
- Se  dinheiro que quer, tenho um filho que mora na Inglaterra que  muito rico. Tenho o telefone dele e posso passar-lhe para conversarem.
Ester sorriu sarcasticamente:
- Bem se v que chegou agora. Ter muito que sofrer e aprender. S Jorge poder saber o seu destino, enquanto isso me siga sem falatrios ou no responderei por 
mim.
Elas caminharam por uma trilha cheia de pedregulhos e vegetao rasteira. Depois de alguns minutos chegaram em frente a um sobrado antigo e mal conservado. Pararam. 
Dois cachorros negros da raa pastor alemo vieram festejar a chegada. De seus olhos saam chispas vermelhas. Ester deu um sinal e a porta central se abriu. Passaram 
por um corredor com inmeras portas at que entraram em uma sala enorme onde um homem de rosto fino e cavanhaque os aguardava. Vestia uma capa preta e tinha olhar 
penetrante e amedrontador. Olhou enigmaticamente para Ester e falou:
- Finalmente frente a frente. A partir de agora ser minha escrava. Ester lhe providenciar a roupa especfica. Porm  necessrio voc saber do seu real estado 
antes de qualquer coisa.
- Quem  o senhor? Em que lugar estou? Onde est minha famlia? E tudo o que quero saber.
- Sente-se.
Ela sentou numa cadeira estilo sculo XVIII preta e esperou ansiosa.
- Calma! Aqui quem pergunta sou eu. Cada resposta vir a seu tempo. Primeiro lugar: seu marido e sua filha morreram instantaneamente na hora em que o avio caiu. 
Assim como voc, todos esto mortos.
Pelo semblante de rica passou um misto de susto e zombaria.
- Ora, que brincadeira  essa? No lhe conheo, mas me deve respeito. Sou uma mulher bem casada e quando sair daqui meu marido vir pedir-lhe contas do que est 
fazendo comigo.
Um brilho de dio surgiu nos olhos de Jorge:
- Estou perdendo a pacincia com voc. Quanto mais for resistente  verdade mais sofrer. Trabalhar para mim de qualquer jeito, acreditando ou no que est morta.
Um arrepio passou pelo corpo de rica, e se fosse verdade? Mas no, ela estava muito viva, afinal seu corao batia, podia sentir sua pele e seus ossos, s poderia 
ser mentira. Tentou contemporizar:
- Quando sairei daqui?
- Depende muito de voc. Se for boazinha poderei permitir que v ver o seu filho, ele  o nico sobrevivente da famlia.
rica concluiu que estava lidando com loucos e o melhor era aceitar tudo quanto eles diziam. Certamente iria fugir dali e encontraria sua casa.
- No adianta pensar que somos loucos - falou Jorge, lendo seus pensamentos. - Sei muito bem que pensa em fugir, mas saiba que temos condies de encontr-la seja 
onde for e se a pegarmos de volta o castigo ser maior. Voc se comprometeu muito quando fez aquele aborto, por isso ganhei sua alma, ficar aqui at quando eu desejar.
rica sentiu que iria desmaiar, aquele homem amedrontador sabia muito sobre a sua vida. O que mais poderia saber sobre sua famlia? Resolveu arriscar:
- O Flvio j sabe que aconteceu a tragdia com o avio?
- Sabe e j est melhorando. Cristiano, seu filho mais velho, veio ao Brasil ampar-lo. Quanto ao seu marido foi levado s furnas e assim como voc nem suspeita 
ainda que desencarnou. Marina, a melhorzinha, foi socorrida num pronto-socorro ligado ao Campo da Redeno e recupera-se lentamente. rica sentiu uma tontura e desmaiou.
- O susto foi demais para ela. Seu esprito sentiu que era verdade o que falvamos e no resistiu, preferiu fugir. Leve-a para a cela 356 e a mantenha vigiada, no 
quero perder mais ningum.
Ester apertou um boto vermelho que havia na parede e rapidamente Malaquias surgiu com Roque trazendo uma maca. Partiram com Ester. Sozinho na sala Jorge estava 
feliz. Conseguiria atravs da imposio e do medo conquistar mais uma trabalhadora do mal. Orgulhosa como era seria de fcil manejo. Durante suas cinco dcadas no 
comando do Desterro, uma regio do umbral localizada acima da cidade de So Paulo j havia conseguido um grande nmero de servidores, que por cultivarem o orgulho 
e o egosmo, eram mandados para zonas inferiores. Satisfeito ele percebeu que esses vermes estavam grassando no planeta, e sabia que o processo de regenerao do 
orbe estava lento, principalmente por causa desses sentimentos. Satisfeito, ele saiu para dar uma palestra sobre a obsesso e os pontos fracos dos seres humanos. 
No poderia se atrasar, pois Tefilo, seu ajudante na palestra, j havia chegado. 

8 - O REENCONTRO

Voltando a Terra, retomamos a histria do ponto em que Flvio viu pela TV a notcia da morte de sua famlia. Francisca chamou os empregados que rapidamente levaram 
Flvio desmaiado para o quarto. Providenciou atendimento mdico e o acordou com sais. Enquanto o mdico no chegava todos estavam desolados com o estado do garoto. 
Chorando sem parar, ele se mostrava inconsolvel. Francisca tambm muito abalada pelo trgico acontecimento tentava se manter firme, mas estava em seu limite. Finalmente 
o Dr. Roberto Cavalcanti chegou e medicou Flvio com fortes calmantes. Ela no sabia o que fazer. A casa onde a famlia residia estava fechada e ningum tinha a 
chave. No tinha como se comunicar com Cristiano, o jeito era esperar de uma forma ou de outra ele saber do ocorrido, que aconteceu rapidamente. Em Londres os telejornais 
divulgaram a notcia de que o vo 140 com destino ao pas havia tido destino trgico. Chocado, Cristiano providenciou imediata viagem ao Brasil, pois s restara 
Flvio de sua famlia e ele deveria saber como ficariam as coisas. O reconhecimento dos corpos foi feito por Francisca. No IML, ao vislumbrar o corpo de Marina to 
jovem no conseguiu entender por que aquilo tinha acontecido. Afinal, eles eram uma boa famlia e Marina uma jovem com tudo pela frente. Por que Deus no havia impedido 
essa tragdia? Ela sempre foi avessa a qualquer tipo de religio porque elas no respondiam s suas indagaes a contento e confundiam-se umas com as outras. Na 
religio o que ela via era apenas abuso de poder. Algumas amigas evanglicas diziam:
- Como voc pode viver assim sem freios? Sem nenhum tipo de suporte religioso? Voc  uma pessoa do mundo!
Ao que ela respondia:
- Do mundo todas ns somos queridas, afinal ningum aqui nasceu no outro planeta. Quanto aos freios? O que vejo so pessoas hipcritas criando regras fora da realidade 
que no fundo ningum cumpre porque esto fora da natureza. Ademais nunca precisei de religio para saber o que  tico. Pauto minha vida pela tica e no me importo 
com o que os outros pensam ou deixam de pensar. No as vejo sendo mais felizes do que eu!
Elas retrucavam dizendo que o fim do mundo estava prximo e s quem fosse de determinada igreja iria se salvar. Mas Francisca, dotada de uma intuio fortssima, 
no discutia e logo depois elas estavam falando de outros assuntos. Na hora do reconhecimento dos corpos ela chegou a duvidar de Deus, porm algo lhe dizia que tudo 
tinha sua razo de ser. Um dia ela ainda desvendaria os mistrios daqueles acontecimentos. O velrio foi no Ara. Cristiano chegou algumas horas antes, abraou 
o irmo, a tia e cumprimentou os conhecidos. Era um jovem de rara beleza e porte atltico, muito diferente de Flvio, que apesar de no ser feio no cultuava o corpo 
como o irmo fazia. Um padre conhecido falou sobre a morte e que era preciso aceitar o que Deus fez. Chamou as pessoas ao perdo,  vida regrada, para que num instante 
como aquele no se vissem em maus lenis com o Criador. Os corpos foram entregues  me-terra e os irmos abraados seguiram para a casa de tia Francisca. L chegando 
tomaram banho e lancharam os deliciosos bolinhos de milho que Clara havia feito para o ch.
- Apesar da tristeza,  reconfortante chegar ao Brasil e ver esse costume maravilhoso reproduzido aqui - disse Cristiano.
- Tem razo.Todas as vezes que participo dele com a tia sinto uma sensao deliciosa de paz!
Cristiano com olhar profundo disse:
- Esta casa tem muitas energias boas, muitos espritos bons vm visit-la. J percebeu a presena de um deles, tia?
Surpreendida, Francisca respondeu:
- Sinto-me em profunda paz neste recanto simples que  minha casa, mas... Voc fala de espritos, eles existem realmente?
Cristiano esclareceu:
- Claro que sim! Nunca parou para imaginar onde esto as pessoas que morreram? Se analisar a vida, ver que Deus jamais nos criaria dando sabedoria, amor, liberdade, 
inteligncia s para morrermos um dia e deixarmos tudo para trs. Alm de ilgico, concluiramos que a vida na Terra no teria nenhum sentido. Quem morre passa a 
viver em outras dimenses do Universo, levando apenas seu mundo interior, seus medos, suas iluses e suas crenas. Se progredir levar consigo tudo de bom para ser 
usado numa prxima encarnao.
Nessa hora Flvio no agentou e perguntou:
- O que  ser mdium?
- Um mdium  uma pessoa capaz de perceber alm dos cinco sentidos fsicos. Enquanto as pessoas comuns s percebem o lado material da vida, os mdiuns vo alm. 
Onde a viso de um homem comum pra, a do mdium continua decifrando o que para ns  apenas Considerado sobrenatural.
- Todos podem ser mdiuns?
- A resposta certa : todos ns somos espritos e o sexto sentido faz parte da nossa natureza. Alguns so mais ostensivos do que outros, mais a mediunidade  um 
fenmeno natural do ser humano.
Francisca quis saber:
- Voc  esprita?
Cristiano esclareceu:
- Se voc chama de esprita a pessoa que acredita na reencarnao, na comunicao dos espritos e na diversidade dos mundos habitados ento sou sim um esprita. 
Porm, fui orientado pelo meu mentor espiritual a utilizar o termo espiritualista independentemente, pois ele alm de no me pr rtulos permite que eu trabalhe 
em um campo mais livre e tenha uma ao mais proveitosa no mbito espiritual. Sou em realidade um universalista.
Todos gostaram dos conceitos de Cristiano, porm Flvio por medo de ouvir algumas verdades que julgava no estar preparado omitiu suas manifestaes medinicas. 
Depois do jantar, com ar grave Cristiano chamou Francisca e Flvio para uma reunio. Ele comeou:
- Eu sei que no  hora de conversarmos sobre certos assuntos, porm no tenho muito tempo no Brasil e antes de partir gostaria de esclarecer alguns pontos.
Nessa hora a campainha tocou e Clara foi atender. Com surpresa, Francisca percebeu que a famlia Assuno Ferguson estava em sua casa. Delicadamente perguntou:
- O que desejam?
Fernando tomou  dianteira:
- Boa-noite. Por gosto de minha mulher viemos prestar solidariedade  famlia to enlutada.
Era mentira. lida ficou sabendo pelos jornais que o filho rico e mais velho de rica e ngelo estava de volta por conta da morte dos pais e pretendia apresent-lo 
a Isabela sua filha, na esperana de um rico casamento. Porm Camila decidiu ir junto, o que frustrou os planos de lida. Camila acompanhava os pais de vez em quando 
na tentativa de envergonh-los com seus modos e suas roupas. Antes de sair, me e filha haviam travado violenta discusso, porm Fernando acabou convencendo lida 
a lev-la para evitar problemas. Francisca, como boa anfitri, convidou-os a sentar e pediu que Clara servisse ch a todos. No era bem a merenda que lida estava 
habituada, porm aceitou de bom grado. Os olhos de Flvio e Camila no paravam de se cruzar. Ela imediatamente o reconheceu. Sonhou todos os dias em reencontr-lo, 
mas no via como. Por isso quando soube da visita  famlia Menezes insistiu para ir. Agora com a troca de olhares ela tinha certeza de que ele a havia reconhecido. 
lida, demonstrando preocupao, dirigiu-se a Flvio:
- Sei que no  hora nem dia de visitas deste tipo, porm soubemos que o Cristiano em breve voltar a Londres e no podamos deixar de cumpriment-lo, j que tarefas 
inadiveis nos impediram de ir ao enterro. Esse aqui eu j conheo,  o Flvio. Est melhor?
Flvio no conseguiu conter o pranto e foi correndo para o seu quarto. Todos na sala ficaram constrangidos e Cristiano apaziguou o clima:
- So coisas comuns para quem perde uma famlia inteira, por favor, entendam e desculpem.
lida continuou:
- Entendemos perfeitamente, a propsito, j conhece minha filha Isabela?
Quando Cristiano a encarou, sentiu terrvel mal-estar. Ele viu trs vultos de mulheres deformadas prximos a Isabela. Pediu proteo a Cndido, seu mentor espiritual, 
ao estender a mo para cumpriment-la.
- Muito prazer.
Depois de algum tempo conversando banalidades, Camila fingiu que ia ao banheiro, mas p-ante-p entrou no quarto de Flvio. O encontrou banhando seu travesseiro 
em lgrimas. Ela o surpreendeu:
- No disse que ainda conversaramos? Aqui estou eu, vamos aproveitar e falar sobre outros assuntos que no seja a morte?
Ele profundamente tocado pela atitude dela naquele instante de fragilidade sentiu-se confortado e atrado por ela. Perfumada, loura, bem maquiada, teve o condo 
de mexer profundamente com seu lado afetivo.
- Vamos sim, em meu egosmo no agradeci por ter vindo nos visitar.
- Voc  sempre assim to sensvel? Ele retrucou:
- E voc  sempre assim to ousada?
- Sou sim, a vida obrigou-me a ser assim. O mundo em que vivemos onde s os maus sobrevivem nesta selva chamada Terra,  cruel e duro. Enfrento tudo isso a meu modo.
- No diga isso. Veja meu estado, no tenho mais nem pai nem me, mas mesmo assim consigo olhar as belezas do mundo. No quer aprender a olhar junto comigo?
Um calor forte cobriu o corpo de ambos. A forte atrao que um sentia pelo outro os aproximou e eles se beijaram nos lbios, repetidas vezes, Flvio disse:
- Voc salvou minha vida com esses beijos.
- E voc a minha.
Meia hora depois, quando eles chegaram na sala de mos dadas, todos ficaram estupefatos.
lida corou de vergonha:
- Mas o que significa isso?
- Desde o nosso acidente nos sentimos atrados um pelo outro. Hoje conversamos e comeamos a namorar.
Todos ficaram mudos. Isabela, com receio que Cristiano a julgasse uma leviana como a irm, disse:
- Isso s pode ser brincadeira da Camila com a mame. Papai, faa alguma coisa!
Fernando separou as mos dos dois e disse:
- Camila, que brincadeira  essa? Quer mais uma vez nos importunar?
Ela se defendeu:
- Por qu? Em sua poca no existia amor  primeira vista? Pois foi o que aconteceu comigo e Flvio. Somos almas destinadas a viverem juntas.
Fernando corou:
- Mas isso s pode se tratar de mais uma das suas. Eu a conheo muito bem, porm agora foi longe demais, usar esse rapaz no estado em que est  um pecado.
- Mas por que ningum acredita em mim? Flvio diga a eles.
Flvio assentiu:
- Desculpe tia Francisca, mas foi isso mesmo que aconteceu, tudo foi inesperado, mas aconteceu. Camila foi me consolar e l conversamos, nos entendemos.
lida exultou. Ela havia pensado em Isabela, mas aconteceu algo melhor. Certamente Flvio no era to rico quanto o irmo, mas se casasse com Camila seria uma ddiva. 
Alm de ficar livre da filha doidivanas, sua famlia voltaria a ter o status que tinha antes. Tentou contornar:
- Devemos entender que so coisas de jovens, perfeitamente compreensveis. Porm a hora j  adiantada. Precisamos ir.
A visita terminou no clima do namoro entre Flvio e Camila, quando iam se recolher, Cristiano avisou:
- Por conta desta visita no pudemos conversar um assunto srio e que no pode mais ser postergado. Amanh cedo aps o caf conversaremos. Sigo agora para o hotel, 
este  o nmero. Se precisarem de mim  s ligar.
- Pensei que quisesse ficar aqui. Preparei seu quarto e ficaria muito feliz se acompanhasse seu irmo no estado em que est - falou Francisca.
- Tia, agradeo sua hospitalidade, mas j me instalei no hotel no desejo sair de l. Flvio est melhor do que eu. Basta olhar seu rosto. A visita de Camila lhe 
fez bem.
Era verdade, aquela noite para Flvio tinha sido mgica, apesar do enterro de seus pais o encontro com Camila o fazia prever dias melhores. Desde que vira Camila 
no hospital pela primeira vez se sentiu profundamente tocado. Notando os olhares interrogativos da tia e do irmo considerou:
- Tambm no exagerem, estou sim muito interessado nela, mas neste momento no posso me envolver profundamente com Camila, porque no sei como ser minha vida daqui 
para frente sem meus pais.
Cristiano respondeu:
- A vida ensina independncia, auto-suficincia, liberdade e embora no parea a nossos olhos, sempre faz o melhor. Se levar nossos pais foi porque o tempo que tinham 
para viver havia terminado. Certamente eles foram chamados no s para rever suas atitudes de at ento, como para em novas experincias continuar aprendendo os 
valores eternos do esprito. Acredite, o que aconteceu, embora nos cause sofrimento, foi o melhor para todos. A morte nos convida a refletir sobre os objetivos da 
vida, a reciclar valores, crescer, progredir. Depois,  bom lembrar que ela no  o fim, pois quem morre passa a viver em outras dimenses deste Universo infinito.
- Onde esto nossos pais agora? E Marina?
- S Deus sabe! Entretanto, penso que se foram atendidos pelos espritos superiores devem estar adormecidos em algum lugar. Pessoas relativamente jovens arrancadas 
assim de forma brutal do corpo fsico podem levar mais tempo para desprenderem-se dos laos fludicos que os ligam ao corpo. Quando tm mrito esse desligamento 
ocorre no prprio velrio ou no prprio tmulo, dependendo de quanto aquele esprito est ligado ao materialismo. Ele s se libera espiritualmente quando absorver 
em seu corpo astral todos os elementos de ligao com a matria. Durante esse tempo  assessorado pelos espritos superiores que o protegem atravs de um sono reparador. 
Os amigos espirituais esclarecem que os espritos sofrem muito mais pela doena do que pela hora da morte, porque a vida  muito misericordiosa.
Flvio inquietou-se:
- O que ocorrer a quem no tem mrito?
- Todo esprito aps a morte ao acordar no astral recebe a orientao dos espritos de luz. Os que afundaram nos vcios, no sexo desenfreado, na maldade e na corrupo, 
no se arrependem nem desejam aceitar o caminho da regenerao que lhes  oferecido. Envolvidos com os espritos perturbados com os quais se ligaram, so deixados 
 merc de suas escolhas. Ento so atrados a lugares de sofrimento que lhes so afins. L, atravs do choque com sua realidade, encontraro o arrependimento e 
a necessidade de buscar a ajuda espiritual. Aceitaro as normas e disciplinas necessrias, sero recolhidos e auxiliados. Francisca estava enlevada com as lies, 
havia ido a alguns centros espritas, mas por no ter encontrado afinidade acabou deixando de freqent-los. Hoje aps essa conversa voltaria a estudar o assunto. 
Precisava aprender mais sobre as lies que a espiritualidade ofertava. Cansados pelo dia estafante que tiveram, cada um foi para seus aposentos e mergulharam num 
sono reparador.

9 - REVELAES

Pela manh aps o caf, Cristiano chamou todos  sala contgua.
- Nossa conversa foi interrompida ontem, porm hoje no a poder ser adiada.
Francisca preocupou-se:
-  necessrio mesmo que eu fique? Se for um assunto muito particular posso sair e deix-los  vontade.
- No tia - disse Cristiano. - Prefiro que fique. O que vou falar tambm vai lhe interessar.
Flvio inquieto persistiu:
- Comece logo, j estou ficando nervoso.
Com ar grave, Cristiano comeou:
- Talvez no seja do seu conhecimento irmo, mas nosso pai mantinha contas milionrias no exterior. Quando ele perdeu o emprego aqui no Brasil e falou que tinha 
poucos recursos, estava mentindo. Na realidade h muito dinheiro dele nos Estados Unidos e... - pensou um pouco. - Ele agora  nosso!
Flvio admirou-se:
- Mas como o papai pde ter assim tanto dinheiro? Com o trabalho que tinha no dava para tudo isso.
- No pode ser desvio de dinheiro da empresa onde trabalhava? - arriscou Francisca.
Cristiano atalhou:
- No apenas de uma empresa, mas de todas as outras a quem ele prestava servio e trabalhou anteriormente. Papai tambm mantinha negcios ilcitos, os quais no 
desejo nem mencionar. No entanto, se foi realmente roubo, ele o fez muito bem-feito, pois no h como provar. Apenas as ltimas receitas da empresa Limbol foram 
comprovadas. Quanto a essas j as devolvi e est tudo regularizado. Flvio demonstrou curiosidade:
- Qual o valor dessas contas?
- Algo em torno de sete milhes de dlares.
Francisca no conteve o grito de horror e Flvio aumentou o nervosismo:
- De onde veio tanto dinheiro?
- No sabemos e acho que jamais saberemos a fonte, porm garanto que nosso pai no estava indo a Londres para nada. Pretendia montar empresa prpria com esse dinheiro 
e eu j tinha aberto firma em meu nome.
- Por que no seu nome?
- Acredito que por questo de precauo. Quem move negcios escusos como os dele sempre tem medo de que algo venha  tona, ento o melhor  encontrar um bom testa-de-ferro.
Flvio interrogou:
- Por que voc aceitou uma coisa dessas?
- Se eu no o aceitasse teria feito com outro. Essa foi  maneira que encontrei para influenci-lo e evitar um mal maior. Proteg-lo de alguma forma.
Flvio no se conteve:
- E o que vamos fazer com tanto dinheiro? Por que papai no nos proporcionou uma vida melhor? Vivamos como classe mdia.
- Certamente ele no queria ostentar para no dar na vista. Nem nossa prpria me sabia desses negcios, apenas eu estava  par de tudo.
- Por que voc? Era cmplice dele? - perguntou Francisca j se abanando com enorme leque.
Cristiano remexeu-se no sof inquieto:
- Essa pra mim  a pior parte da histria, mas que no devo omitir. A princpio eu participava dos negcios escusos de meu pai. Sabia que ele transferia dinheiro 
ilcito para contas no exterior e o incentivava. A primeira conta foi aberta em meu nome e ns dividamos o dinheiro. Porm, quando conheci a espiritualidade desisti 
de tudo. Fechei essa conta que tinha em Nova York e nunca mais me deixei levar por esse tipo de coisa.
- Qual foi  atitude do papai ao perder seu aliado?
- Tentou me arrastar a todo custo com ele novamente. Porm fui firme, falei do meu encontro com uma mdium e de um lugar que eu freqentei na Inglaterra. Ele me 
chamou de louco e irresponsvel, disse que eu estava jogando fora toda a minha chance de enriquecer e passou a me evitar, certamente pelos sermes que lhe passava.
Francisca, curiosa que estava sobre temas ligados ao espiritismo, perguntou:
- Que histria de mdium  essa?
- Ah, essa histria foi  mudana radical que aconteceu em minha vida. O Cristiano de antes morreu no dia chuvoso em que encontrei dona Margareth. Eu estava acabando 
de sair do meu trabalho quando vagando sem rumo vi uma porta aberta. Um desejo muito forte de penetrar naquele recinto me invadiu e quando dei por mim j estava 
l. Uma senhora de meia-idade me atendeu e disse chamar-se Margareth. Convidou-me a sentar e percebi que se tratava de uma espcie de lugar de oraes. Mais tarde 
ela me explicou ser um lugar de orientao espiritual. Continuei participando da mentalizao e no final ela aproximou-se de mim dizendo:
- H uma senhorita ao seu lado e quer lhe passar uma mensagem.
Assustado perguntei:
- Trata-se de um esprito?
- Sim. Mas no precisa se assustar, os espritos so seres iguais a ns, apenas no esto revestidos de um corpo de carne. Ela diz se chamar Carlota e gostaria de 
dizer-lhe para no recair em erros antigos. Fiquei surpreso, mas arrisquei:
- No que posso estar errado?
- Provavelmente voc chegou em determinado momento de sua evoluo que no permite mais que aja com irresponsabilidade. Pessoas que agem assim sofrem srias conseqncias. 
Carlota diz que voc  uma pessoa que renasceu trazendo no esprito uma grave tendncia de repetir erros passados. Em sua ltima encarnao utilizou prticas ilcitas 
para conseguir dinheiro, jias e ainda hoje continua a faz-lo. Porm seu esprito j possui conhecimento espiritual para agir de outra forma. Em seu nvel de evoluo 
se voc cometer o mesmo erro de antes, sofrer todas as conseqncias.
- Nessa hora gelei e fino suor cobriu minha testa. S podia ser verdade o que aquela simptica senhora me dizia. Ela no me conhecia, no sabia nada da minha vida, 
como adivinhou que eu estava cometendo atos ilcitos junto com meu pai? Para me deixar ainda mais crdulo ela disse:
- Carlota manda lhe dizer que seu pai est na prorrogao, afirma que para ele no haver mudana, to imbudo est nas crenas do que faz. Mesmo assim ela pede 
que voc o alerte, que faa a sua parte.
Respondi amvel:
- Senhora, muito obrigado, no sabe o quanto me ajudou!
Ao que ela humildemente respondeu:
- No me iludo, no  a mim que deve agradecer, mas a Deus. Todo o bem que ocorre na Terra provm dele, pai amoroso e justo que . Eu sou simplesmente um instrumento.
Sorrimos e me despedi agradecendo a Deus todo o bem que adquiri naquele fim de tarde chuvoso e melanclico. Aquele instante serviu para modificar o meu destino. 
Aprendi a lio que a vida me mandou e passei a agir diferente. Voltei a procurar dona Margareth que me levou a um grupo de iniciao espiritual, estudei todas as 
obras do professor Rivail e agora me encontro  disposio do servio divino. Ento minha sensibilidade se abriu e comecei a ver alguns espritos e perceber alm 
das aparncias.
- Nossa, que histria! Agora percebo porque essa religio tem crescido tanto aqui no Brasil e em boa parte do mundo  comentou Francisca.
Flvio, surpreso tambm com a histria, estava mudo, mas o dinheiro do pai em contas no exterior ainda fervilhava em sua mente.
- Para onde ir esse dinheiro?
Cristiano hesitou um pouco e respondeu:
- Ns  que decidiremos! Hoje no d mais para devolv-lo ao lugar de origem, minha idia  fazermos algo de til com ele.
- O qu, por exemplo?
Cristiano mediu o que ia dizer, nessa hora viu o vulto de seu mentor espiritual e comeou a repetir o que ele dizia-lhe ao ouvido:
- Flvio, voc tem um compromisso com o seu grupo de evoluo neste planeta. Reencarnou pra ajud-lo na transio para um mundo melhor e deve imbuir-se desse objetivo 
o quanto antes. O tempo corre clere e voc no pode mais esperar. Venha comigo a Inglaterra para iniciarmos seu curso de aprimoramento espiritual, seu destino  
ser professor de auto-ajuda.
Flvio soltou uma gargalhada sonora:
- Mano, voc enlouqueceu, logo eu professor? De auto-ajuda? No sei ajudar nem a mim mesmo!
- No subestime seu poder, no entre no turbilho do mundo. L na Inglaterra ter tudo o que precisa para desenvolver e equilibrar sua mediunidade. Quando estiver 
pronto regressar ao Brasil para fundar um espao onde as pessoas recebam auxlio espiritual, conheam as leis csmicas que regem a vida, aprendam a lidar com suas 
emoes e possam viver melhor.
Flvio surpreendeu-se. Como o irmo sabia dos seus problemas com mediunidade?
Cristiano continuou:
- Como professor dever cobrar pelo seu trabalho e esse ser o seu sustento.
- Cris, deixe de brincar comigo. Nunca farei essas coisas.
- O mundo d muitas voltas e a vida  surpreendente, ver que o que digo ocorrer exatamente assim!
Afastando-se de Cristiano, Cndido deu por encerrada sua misso ali e partiu deixando o resto por conta de seu tutelado.
- Flvio, sei que voc est um pouco chocado com as revelaes, mas  assim que tinha que se dar.
Francisca observou:
- Nossa, enquanto voc falava tive a impresso que era outra pessoa, sua voz estava mais grave, seu semblante mudou.
- Tambm senti. Houve interferncia espiritual?
- Sim. Cndido meu mentor estava comigo. Sei que dever pensar em tudo quanto ouviu. No acho justo gastar um dinheiro que no nos pertence e que veio por meios 
ilcitos. Aplicando num espao para ajudar as pessoas, ele ser muito til. Quanto ao restante, podemos aplic-lo em obras sociais de reconhecido mrito que aliviam 
o sofrimento humano. Em Londres, os necessitados quase so ignorados, os viciados em drogas, os maltrapilhos precisam de atendimento em suas urgncias. Acredito 
que l poderemos desenvolver muitos trabalhos como esse.
Flvio sentia intimamente que tudo o que estava sendo falado iria realizar-se. Ele no poderia fugir a esse destino. Aproveitando o tempo, ele narrou seus processos 
medinicos ao irmo, que logo os identificou:
- Voc  um mdium de desobsesso. O que isto significa?  um tipo de mediunidade muito especfica, que quando bem orientada  de grande valia nos trabalhos de captao 
e cura de pessoas perturbadas, podendo s vezes libert-las numa s sesso.
- Em unio com os espritos superiores voc  capaz de desmagnetizar a aura dos assistidos, sair do corpo para buscar os espritos que esto atacando as pessoas 
ou atra-los, prendendo-os em seu magnetismo. Isso faz com que eles tomem conscincia dos seus atos. Caso isto no acontea, voc poder segur-los at que concordem 
em desistir de seus intentos, eliminando depois as energias negativas acumuladas.
-  medida que ela vai se tornando mais ostensiva voc passar a ver os espritos e se tornar muito sensvel s energias, identificando-as prontamente. Quando voc 
olhar uma pessoa saber imediatamente se ela est sendo manipulada por um esprito perturbador.
Flvio estava estupefato. Nunca poderia imaginar uma coisa desse tipo. Resolveu perguntar:
- E se eu me recusar a aceitar tudo isso? O que poder acontecer comigo?
Cristiano impvido explicou:
- Esse tipo de mdium capta energias com muita facilidade e quando no conhece o processo ou foge dele, sua vida acaba se tornando desequilibrada e confusa. Infelizmente, 
esse tipo de mediunidade ainda  pouco conhecida pela maioria dos estudiosos nos Centros Espritas e geralmente eles no gostam de trabalhar com esses mdiuns.
Foi  vez de Francisca indagar:
- Por qu? O Centro Esprita no existe justamente para isso? Para apoiar os mdiuns?
Cristiano, auxiliado por esprito de elevada hierarquia, falava com segurana:
-  que as sesses de desobsesso so ruidosas e cheias de ao. Quem no conhece se impressiona, pois os espritos perturbados que so atrados para esclarecimento 
gritam e fazem de tudo para impressionar pelo pavor, tentando desviar a ateno das pessoas que esto presentes, na esperana de ludibri-las.
- Todavia, os espritos superiores tm ao irresistvel sobre os perturbadores e os contm com muita facilidade. Se permitirem que se expressem  porque preferem 
que eles prprios percebam que atacando os outros esto prejudicando a eles mesmos.
Flvio perguntou um pouco assustado com tudo:
- Qual a necessidade de um mdium para que esses espritos tomem conscincia de seus erros?
- So espritos muito ligados ao materialismo. O contato com as energias fsicas do mdium favorece a tomada de conscincia, facilitando que percebam melhor seus 
enganos e possam mudar suas atitudes. A ajuda espiritual  utilizada sempre visando o bem de todos os envolvidos. Conseguir que espritos deixem de atacarem-se mutuamente 
 a melhor forma de ajudar a ambos.
Flvio e Francisca, impressionados com o que ouviram, deixaram escapar longo suspiro. A espiritualidade est sempre presente em nosso dia-a-dia. Quem deseja progredir 
precisa estar atento com os sinais que ela nos manda com a finalidade de nos ajudar. Infelizmente, no cotidiano muitos se deixam envolver pela maledicncia, pelas 
tentaes do mundo, de tal forma que nem percebem o que a vida lhes deseja ensinar. Raros fazem como Francisca e Flvio, que atentos s orientaes recebidas, comearam 
a perceber os verdadeiros valores espirituais.

10  O INCIO DOS PLANOS

Na cela 356, rica continuava presa. Uma forte tristeza a invadia e ela chorava sem parar. O que foi feito da sua vida? Tudo estava caminhando bem at aquele maldito 
dia em que Flvio chegara em casa revelando que ia deixar o emprego. Por que tudo teve que ser assim? Por que ela morrera naquele acidente? Essas perguntas desfilavam 
na sua mente quando, de repente, viu Ester:
- Coma! Acho melhor obedecer e se alimentar, pois hoje o Jorge quer v-la. Tem uma misso especial para voc.
- Alm de querer que eu coma este po imundo, ainda quer me obrigar a fazer coisas para ele? Isso  que no!
Ester sorriu:
- Pela minha experincia sugiro-lhe que no contrarie o Jorge, ele  instvel e quando contrariado se torna perigoso. Apesar de tudo no quero que voc sofra, foi 
quem menos teve culpa da minha desgraa.
Segurando o po que foi colocado por debaixo da cela, ela afirmou:
- Voc sempre culpa meu marido e minha famlia pela sua infelicidade, no entanto nunca me contou o que fizemos, se bem que nunca a vi antes.
-  que o Jorge disse que no  hora ainda de voc lembrar-se do passado. Aqui na Cidade do Desterro no temos aquelas mquinas que fazem o retorno ao passado, por 
isso as reminiscncias devem ser espontneas. rica comeou a comer um po mofado e sem gosto, porm sua fome era maior que seu refinado paladar.
- s vezes penso que no estou morta e que tudo no passa de uma iluso. Acho que vocs so um grupo de loucos seqestradores e que a qualquer hora fugirei para 
minha casa.
Ester retorquiu:
- Voc j sabe que est morta, no precisa se enganar. Quanto a fugir, jamais conseguir. Sua forma de ser e aquele aborto que praticou a conduziram at aqui. Jorge 
tem o seu comando porque sabe que voc no  protegida dos filhos do Cordeiro.
- Gostaria de saber que misso  esta a que o Jorge se referiu.
- S na hora ele dir. Alis, a reunio hoje ser longa, ele mandou convocar todos os chefes dos magnetizadores e todos os diretores dos ncleos da cidade. Se mandar 
chamar voc  porque tem algo de muito importante a fazer.
As horas passaram rpidas e logo Ester apareceu toda maquiada e vestida com roupas de cores berrantes. Abriu o cadeado e saiu com rica em direo ao pavilho. Desceram 
por uma rua poeirenta e malcheirosa, pouco se via o sol e o dia estava nublado. Prximo ao pavilho se encontrava enorme fila. Ester lhe entregou uma ficha e pediu 
que ficasse atrs dela. Pouco a pouco a fila bem organizada foi acabando e elas entraram no recinto. Nele havia muitas cadeiras enfileiradas, cada uma com um nmero. 
O de rica era 278. Havia mais de 300 espritos naquele lugar. Os semblantes e as vestes eram os mais variados: pessoas de preto, vermelho-fogo, azul-escuro cintilante 
eram as que mais se destacavam. rica estava surpresa, pois nunca vira contar na Bblia que alm do tmulo existisse um local como aquele.
- Est curiosa? Pois voc ainda no viu nada. Veja como os piercigns to em moda na Terra esto por aqui, mais sofisticados e em lugares que os humanos nunca usaram 
- explicou Ester.
rica percebeu que alm dos piercigns que alguns colocavam at na garganta, havia muitas pessoas tatuadas.
- Aqui existem tatuadores?
- No. Esses espritos que voc v vm do Vale dos Tatuados. L existem muitos tatuadores que usam os recursos daqui para fazerem desenhos mais irados. - Ester sorriu 
de forma macabra.
De repente um silncio total invadiu o recinto, todos prestaram ateno ao palco que tinha uma cortina carmim. A cortina se abriu e a figura plida de Jorge apareceu. 
Trajava um terno preto e tinha na cabea uma espcie de cartola. Seus olhos metlicos paralisavam qualquer ser humano. Num timo ele comeou o discurso:
- Estamos aqui hoje mais uma vez para reforarmos nossos planos. Sinto que a cada dia a Terra torna-se mais nossa escrava. Quero falar aos chefes de cada uma das 
nossas zonas exclusivas e com algumas pessoas em particular que logo sabero de quem se trata. Primeiro para os magnetizadores da Zona do Sexo, vocs precisam explorar 
mais a sensualidade perversa, precisamos fazer acontecer mais e mais estupros. Colem-se em quem tem a tendncia ao descontrole sexual e levem-nos a cometerem crimes 
neste setor.  necessrio tambm aumentar o ndice de pedofilia, vocs no podem desistir de invadir os templos religiosos que s tm fachada, pois  l que mais 
se encontra tendncia ao desvario da pedofilia. Os religiosos terrenos ignoram que proibir rigorosamente o sexo  a porta aberta para srias obsesses. O homem vulgar 
se v pressionado e essa presso explode no que ns gostamos: a obsesso.
- Agora falo aos servidores da Zona da Violncia da qual a droga  nossa maior aliada. Larcio, Vitor e Mathias devem se colar mais quelas pessoas que esto descobrindo 
as drogas novas e faz-las explodir, principalmente na nossa cidade de ao, a metrpole So Paulo. Estamos certos de que a violncia jamais ser vencida, pois os 
prprios policiais movidos pelas nossas sugestes esto no mundo do crime. Continuem assediando-os. Quanto aos crimes particulares ns conversaremos depois. No 
sei se Deus castiga ou no, no sei se o Cordeiro castiga ou no, mas eu, Jorge, estou aqui para punir severamente todos aqueles que esto prejudicando nossos planos.
- Quero a ateno dos produtores das doenas. O egosmo e o orgulho que ns tanto veneramos esto dominando o orbe. Tefilo conseguiu permisso para irmos ao abismo 
buscar as formas degeneradas e coloc-las prximas dos encarnados. Sabemos de antemo que se uma dessas formas ficar prxima de um encarnado, ele fatalmente enlouquecer. 
Tomar fortes remdios, mas no conseguir curar-se. Mais tarde chamarei em particular essas pessoas.
Jorge continuou a palestra falando sobre os frutos das paixes e dos vcios, depois falou dos trabalhos de magia negra e de outros aspectos mrbidos que no convm 
relatar aqui.
Quando tudo o terminou avisou que gostaria de falar em especial com algumas pessoas, esclareceu que no seria necessrio falar seus nomes, pois as prprias pessoas 
saberiam quem eram. Ester disse a rica que ela era uma dessas pessoas. O recinto ia ficando vazio, mas algumas pessoas aterrorizadas perceberam que no conseguiam 
se levantar das cadeiras. Elas estavam presas por uma fora estranha. rica concluiu que as pessoas agarradas a elas eram as mesmas que Jorge queria falar. Aps 
entabular conversa com algumas pessoas chegou  vez de rica. Para essas conversaes Jorge utilizava uma espcie de confessionrio instalado em um dos recintos 
daquele pavoroso pavilho. Tmida, rica se dirigiu a ele:
- O que deseja de mim? Antes de qualquer coisa quero ver minha famlia, nada fao se no ver o estado em que ela se encontra.
Ele foi rspido como de costume:
- J no lhe avisaram que aqui quem d as ordens sou eu? Cale-se e oua o que tenho a dizer ou ento ser pior pra voc. Sei que voc no engravidou apenas trs 
vezes. Sua ltima gestao foi interrompida por voc, que utilizou um draconiano aborto naquela clnica da periferia. Ningum ficou sabendo, nem o seu marido. Voc 
no queria mais criar outro filho, ento resolveu dispor da vida como se fosse a dona dela. Dava seu dia na igreja, estudando a Bblia, mas no ntimo no havia se 
modificado. Se engravidasse novamente no titubearia em fazer outro aborto. Onde est sua religiosidade?
rica ficou plida feito cera, tudo o que ele dizia era verdade. Jorge continuou:
- Quando voc morreu e foi levada ao lugar ideal ao seu padro mental, esse esprito que foi abortado comeou a persegui-la, ele est deformado: da cintura pra cima 
 criana e da cintura pra baixo  adulto. Eu estava interessado em seu esprito e consegui afastar aquele ser de voc. Foi a que Ester e Mina a encontraram. Aqui 
tudo  feito  base da troca, se quiser ver sua famlia ter que trabalhar duro.
- Fao o que for preciso para conseguir isso, diga logo.
Jorge esboou um sorriso de satisfao:
- H uma amiga sua na Terra que fez muita coisa errada e existe aqui no Desterro um esprito interessado em vingar-se dela. Essa amiga chama-se lida Assuno Ferguson. 
Agiu com preconceito, fez um aborto ignominioso na filha, separou-a de Rafael, que acabou desencarnando. Ele no aceitou a morte, rebelou-se contra os assistentes 
espirituais e assim saiu da colnia na qual foi abrigado. Aps andar durante dias encontrou nossa cidade e achou guarida aqui. Desde que chegou demonstrou um desejo 
intenso de ajudar e j nos prestou grande servio, agora  a hora de retribuirmos.
rica replicou:
- No sou to amiga assim da lida, nossos filhos se encontraram num acidente de carro, e a partir da nos visitvamos regularmente. s vezes tambm a via na igreja, 
mas s. O que devo fazer contra ela?
Jorge explicou:
- Tefilo conseguiu permisso para descer ao abismo e buscar ele l uma forma degenerada.
- O que vem a ser isto?
- Damos esse nome aos seres que perderam a forma perispiritual humana e encontram-se em formas de animais. Muitos se dividem: metade do corpo  humano e metade  
animal. Suas paixes, seus dios e rancores os conduzem a perder a forma do perisprito pouco a pouco. Esses seres degenerados trazem consigo uma energia negativa 
muito grande. No  sempre que vo  crosta, s em casos especiais como esse que faremos agora.
- Estou assustada, nunca pensei que poderia existir isso por aqui.
- Mas existe e voc descer ao abismo para buscar uma dessas formas.
- Com qual objetivo?
- Estamos sabendo que a famlia de lida em breve sofrer penoso golpe do destino. Ela vai se desequilibrar e nessa hora de fraqueza colocaremos prximo ao seu perisprito 
um ser do abismo. Se uma dessas formas abismais permanecer prxima a um encarnado certamente ele enlouquecer. O objetivo de Rafael  lev-la  loucura, para que 
no hospcio ela acabe dando fim  prpria vida, deu para entender?
rica estava horrorizada, nunca pensava que existia no mundo tanta maldade. De repente sentiu louca vontade de fugir dali, de no praticar nada do que aquele homem 
horrendo estava falando, mas o que ela podia fazer?
- Vejo que ainda pensa em fugir, no faa isso. Em nossa cidade temos prises tenebrosas das quais ningum sai. Se quiser rever a famlia e ficar como est dever 
obedecer.
Calada, ela curvou-se ao peso de sua dor e seguiu o caminho de volta  priso e acompanhada por um guarda ela era vigiada a todo instante. Tinha que descer ao abismo 
no dia seguinte. Ester a acompanharia. Na Terra o clima estava agradvel. Cristiano continuava no Brasil e sua presena enchia de mais alegria o lar de tia Francisca. 
Ele avisara que necessitava rever alguns scios e ainda demoraria um ms para retornar levando Flvio consigo. O namoro de Flvio e Camila estava indo muito bem 
no fosse o cime doentio que ela tinha dele. Eles passavam o dia juntos, iam a festas, barzinhos e clubes, porm sempre Camila exagerava na bebida. Ele sempre compreensivo 
acreditava que essa fase era passageira e que com a chegada dele ela mudaria, porm isso no aconteceu. Camila bebia mais a cada dia e qualquer olhar de uma garota 
para Flvio era motivo para escndalos. Ele no interferiu em sua forma gtica de se vestir, mas j andava chateado com a cor negra das suas vestes. Flvio a amava 
mais e mais e desejava ficar com ela. Pretendia lev-la a Inglaterra com ele para sua iniciao, porm isso dependeria muito do dinheiro dos pais dela. lida no 
facilitava a vida da filha, passou a criticar Flvio e com isso as discusses no lar aumentaram. Isabela, com inveja do namoro, criava calnias e inventava pretextos 
para estar com Camila na casa de tia Francisca s para ver Cristiano. O cime de Camila estendia-se para todos. Estava apaixonada pela segunda vez e talvez por isso 
estivesse agindo de forma to infantil. Para ela, Flvio deveria ser exclusivo, s pensar nela, s olhar para ela, viver para ela. Influenciada por entidade das 
trevas ela dizia:
- No v fazer esse curso. De que adiantar? As pessoas so preconceituosas com relao ao espiritismo e esse seu trabalho fracassar.
Ao que ele dizia:
- Confio muito no meu irmo e sei que ele falou a verdade. H muito tempo no conseguia me encontrar, no sabia qual era minha vocao, agora acredito que com esse 
trabalho estarei realizado.
Camila, influenciada, falava sobre os preconceitos que os espritas passavam e que certamente esse trabalho iria fracassar. Flvio no se deixava envolver e continuava 
em seu irredutvel intento de trabalhar para a espiritualidade. Assim  que deve ser, os trabalhadores do bem devem vencer acima de qualquer coisa o desnimo, a 
falta de empreendimento e o negativismo, pois agindo dessa forma, com certeza estaro sempre ligados com os amigos espirituais da luz.

11 - O DESTINO TEM SUAS LEIS

A casa de Francisca se transformou no local onde os namorados Flvio e Camila gostavam de ficar quando queriam paz e sossego. A viagem de Cristiano que se daria 
logo, teve que ser adiada, pois os compromissos com os scios do Brasil no foram rapidamente resolvidos. Havia trs meses que ele estava no pas e esse era o tempo 
do namoro de Camila e Flvio. Ela continuava exagerando no cime, tanto que Flvio evitava estar com ela em locais pblicos. Aos poucos Camila foi modificando a 
forma de se vestir e j se via algum colorido em algumas peas de roupas. lida mostrava-se feliz, aquele namoro estava modificando gradativamente a vida de Camila. 
No estava preocupada com a filha e sim com a sua reputao na sociedade. No agentava mais ver suas amigas ladys criticando-a, chamando-a de me omissa, permissiva. 
Agora elas no poderiam mais falar como antes. Camila se revelou extremamente apaixonada por Flvio. Naquela tarde, eles estavam na rede da casa da tia Francisca 
com um dos gatos siameses no colo. A certa altura ela disse:
- Sabe, acho que se um dia eu te perder, serei capaz de cometer uma loucura. No agentaria essa vida sem voc.
Flvio sentiu uma sensao desagradvel ao ouvir essas palavras e reagiu:
- Cristiano diz que a vida ensina independncia e auto-suficincia, dessa forma voc est exagerando, apegando-se a mim com muita posse!
- Voc no gostou? Essa  minha forma de amar. Talvez pelo que aconteceu comigo no passado, no quero mais perder ningum que amo. Acho que se minha me fizesse 
hoje comigo o que fez antes... Eu a mataria!
Flvio gelou, sentiu que Camila falou aquilo com sinceridade.
- Camila, voc me surpreende! Como pode falar uma coisa dessas? Pea perdo a Deus pelo que disse.
- No peo de jeito nenhum, pois  isso mesmo que eu faria. Ela me dopou, me levou a uma clnica de abortos e tirou de mim a coisa mais preciosa que a vida tinha 
me dado. Hoje aprendi que o mal s pode ser vencido com o mal. Jurei que seria uma pessoa dura e inflexvel e cumprirei isso em memria de Rafael.
Flvio discordou:
- O Cristiano sempre diz que um dos piores erros que o ser humano comete  o assassinato. Diz que a vida humana  muito importante, pois se o esprito reencarnou 
 porque tem um programa a cumprir na Terra. Quem mata, corta essa programao, e sofrer muito por isso.
- Bobagens de seu irmo que quer vir com essa onda de santo.
- Olha, vejo em voc uma luz muito forte - disse Flvio com paixo. - Por trs desse corpo gostoso, desses cabelos louros e encaracolados h um esprito em amadurecimento. 
Amo muito voc e no desejo mais conversar com o lado negativo da sua personalidade. Prefiro a Camila linda, alegre, empreendedora e voluntariosa que conheci l 
naquele hospital e no esta que fica falando bobagens.
Ela, embevecida, o beijou repetidas vezes nos lbios. Em seu ntimo algo lhe dizia que se um dia perdesse Flvio no conseguiria sobreviver. Sua vida antes dele 
se resumia apenas a boates, festas, orgias e escndalos. Tudo ela fazia na inteno de magoar lida. Mas depois de Flvio, um brilho novo apareceu em seu viver. 
Agora se sentia feliz e completa. Cometeria uma loucura, mas Flvio jamais se separaria dela. Eles continuaram se beijando at que foram para o quarto onde se entregaram 
mais uma vez ao amor que sentiam. Na cidade astral Campo da Redeno Noel, Carlota e Hilrio estavam em uma sria reunio. Hilrio dizia com semblante preocupado. 
- Camila no se modificou e infelizmente receber um ataque espiritual. Rafael no Desterro est enciumado e programa um ataque a Camila em breve.
Carlota indagou:
- Nada poderemos fazer?
Hilrio olhou-a srio:
- Voc sabe que no se pode interferir no livre-arbtrio. Ela continua cultivando vcios materiais e sentimentos perversos. Certamente Rafael conseguir atingi-la. 
Jorge j o avisou que Flvio tem proteo e que no deve mexer com ele. S ela ser atingida. Noel questionou:
- E se ela mudar os padres de pensamento que tem, conseguir evitar o ataque?
- Sim, ela ter como evitar. Porm, estudando o caso pelas leis das probabilidades, posso garantir que ela no vai querer mudar.  um esprito ainda ignorante das 
leis divinas e mesmo Flvio, que ela julga amar, no conseguiu melhor-la. Lembrem-se sempre que o destino tem suas leis, hoje ela est escrevendo o que lhe ocorrer 
amanh, ainda que inconscientemente.
Carlota ficou sria:
- E o caso de lida? Pelo visto ela ser atingida pelos homens de Jorge. Porque Deus permite que uma forma degenerada se aproxime de um encarnado?
O instrutor explicou:
- Tudo o que acontece a uma pessoa encarnada s  permitido para seu amadurecimento e evoluo.  muito raro casos como este acontecer, mas infelizmente ocorrem. 
lida cultiva sentimentos to negativos que far jus a uma companhia do abismo. Certamente enlouquecer. A princpio os psiquiatras terrenos no iro encontrar nenhuma 
leso no seu crebro. Porm, com o tempo essas leses vo aparecer. S um grupo muito estruturado de desobsesso poder livr-la dessa prova.
- A evoluo  gradativa e para que ela ocorra  utilizado o livre-arbtrio. Quando uma pessoa comete atos preconceituosos, cruis, ela se liga aos espritos do 
astral inferior. Ignorando esse fato, muitos na Terra enveredam pelos caminhos do mal. Quando sofrem perdas, adoecem e no conseguem a cura, culpam o destino, Deus 
e o mundo. A entra o livre-arbtrio. Eles escolheram livremente o prprio caminho e esto colhendo os resultados. H pessoas para quem tudo d certo. Dizem que 
foi sorte, mas isso no existe. Elas escolheram melhor. Quem tem atitudes positivas, pensa sempre no bem e acredita que ter dias de felicidade. J as pessoas amargas, 
que vem o mal em tudo vo ter dias tumultuados, onde tudo dar errado.  assim que a vida funciona. Ela responde de acordo com as nossas atitudes. Os fatos que 
esto para acontecer com Flvio brevemente, pediro de ns muita dedicao e persistncia. Agora precisamos ir a Terra. Vamos. Abraados, eles volitaram juntos rumo 
 crosta terrestre.
Na casa de tia Francisca era hora do ch das cinco. Camila, Cristiano e Flvio faziam-lhe companhia. Eles no perceberam, porm cinco vultos escuros penetraram o 
recinto. Rafael e mais alguns companheiros de expresses maquiavlicas comearam a circular em torno de Camila. Cristiano percebeu, mas nada falou, calou-se e intimamente 
comeou a rezar. De repente, Camila soltou um grito assustador e comeou a se debater no cho. Todos ficaram assustados e tentavam ajud-la, porm suas convulses 
eram muito fortes e ningum conseguia segur-la. Francisca gritou:
- Socorram! Ela est tendo uma crise de epilepsia!
Flvio no sabia o que fazer. Os espritos atacaram a zona do crtex cerebral de Camila e ela consciente sentia que se debatia, mas nada podia fazer. Uma baba amarelada 
comeou a surgir de sua boca. Flvio comeou a chorar:
- Tia, ela vai morrer!
Cristiano tentava acalmar a todos:
- Calma, esses ataques assim passam rpido e por si prprios. No se deixem levar pela situao, vamos orar com f e pedir ajuda dos espritos da luz.
Cada um  sua maneira fez uma prece, enquanto Camila continuava a debater-se e a babar fortemente. Pouco depois das oraes trs fachos de luz entraram na casa, 
eram Hilrio, Noel e Carlota. Imediatamente os espritos afastaram-se de Camila. A luz que eles emanavam ofuscaram os espritos que estavam dominando o crebro dela. 
Rafael falou colrico:
- Sujou pessoal, vamos sair daqui. Se algum deles nos pegar estaremos em maus lenis.
Em seguida seus vultos escuros desapareceram indo em direo ao umbral.
Cristiano e Francisca levaram Camila at o quarto e colocaram-na na cama. Flvio muito assustado tremia muito. Ela havia parado de se debater, mas estava muito plida 
e com respirao ofegante. Clara ligou para a famlia de Camila e avisou do ocorrido. lida para demonstrar preocupao foi at l com Isabela.
Todos estavam muito preocupados. Francisca dizia:
- Se ela sofre de epilepsia deve ter tido outros ataques durante a infncia. Foi horrvel. Sei que pessoas assim tomam fortes remdios e freqentam psiquiatras pelo 
resto da vida.
Cristiano esclareceu:
- Tia, toda crise epiltica na realidade  um ataque espiritual das trevas. Havia aqui nesta casa um grupo de espritos querendo algum tipo de vingana, por isso 
atacaram Camila.
Flvio vociferou:
- Ento  nisso que quer me meter? Com espritos do mal, ataque das trevas e coisas do tipo? Realmente eu preferia a vida que levava como office-boy do que esta 
que est me oferecendo. Voc  fantico Cristiano, tudo para voc  esprito!
- No diga isso. Conhecer a espiritualidade s nos ajuda. Precisamos estudar e conhecer essa realidade para podermos nos defender. No caso de Camila, se ela estivesse 
em outro lugar e com pessoas materialistas, seria fatalmente levada a um hospital onde diagnosticariam epilepsia e lhe dariam remdios fortssimos. Os espritos 
que a atacaram poderiam continuar perto dela fazendo-a ter novas crises. Graas a Deus ela estava conosco que oramos e o grupo de obsessores se afastou.
O argumento foi forte e Flvio calou-se. Um carro parou na calada e Cristiano ordenou:
- Os pais de Camila chegaram juntamente com Isabela. Ns no vamos contar na ntegra o aconteceu. Vamos omitir as convulses, diremos apenas que ela teve uma vertigem 
e desmaiou.
- Por que vamos mentir? - quis saber Francisca.
- Porque se os pais dela souberem da "epilepsia" iro lev-la ao mdico e ela ficar dependente de remdios fortssimos.
A campainha tocou e Clara foi atender. lida entrou com semblante preocupado:
- Como est minha filhinha? O que houve com ela?
Fernando e Isabela tambm perguntaram a mesma coisa. Foi Cristiano quem esclareceu:
- Ela agora est bem. A Clara foi um pouco exagerada ao telefone. Ela conversava conosco quando de repente sentiu-se tonta e desmaiou. Talvez seja o calor imenso 
que faz aqui neste pas.
lida no se deu por satisfeita:
- Ela nunca teve esses problemas de desmaios quando vai  praia e nunca sentiu nada, por mais forte que fosse o calor.
Fernando preocupou-se:
- Ela s pode estar com um problema srio, vamos lev-la ao mdico. Mas antes queremos v-la, onde se encontra?
Cristiano indicou o quarto onde ela estava. Clara havia cuidado dela, trocado sua roupa e feito a higiene necessria. Camila j estava acordando e chamava por Flvio.
- Estou aqui meu amor, do seu lado - respondeu ele.
Ao ver os pais, Camila comeou a chorar. Abraou Fernando, dizendo:
- Ah, pai, foi horrvel. De repente tudo girou ao meu redor e ca no cho me retorcendo, parecia que ia morrer.
Cristiano tentou contornar:
- Ela est exagerando, certamente porque est nervosa. Ela apenas desmaiou. O Dr. Eduardo Medeiros veio v-la e constatou que foi um desmaio passageiro garantindo 
que no vai mais acontecer.
- O Dr. Eduardo veio aqui? Quem pagou a consulta? - indagou lida.
- Eu! - mentiu ainda mais Cristiano.
lida alegrou-se:
- Se ela j foi examinada no h o que temer. Foi um mau sbito como se diz por a.
Camila continuava chorando sem parar:
- Pai, eu vi! Eu vi! Aqueles homens horrveis em cima de mim. Um me segurava pela cabea e os outros apertavam minha garganta!
Francisca contornou:
- No tinha homem nenhum aqui Camila, pergunte a Flvio que no me deixa mentir.
- Foi isso mesmo amor, estvamos sozinhos aqui.
Ela parecia no acreditar e continuava com os olhos esbugalhados e muito assustada:
- No sei por que eles esto mentindo, mas com certeza h um grupo de pessoas querendo me matar e eu irei  polcia.
Fernando percebeu que sua filha estava muito nervosa e resolveu lev-la para casa:
- Querida, vamos embora descansar, amanh voc ver o que vai fazer.
Ela concordou rapidamente e nesse instante Cristiano chamou Isabela  outra sala:
- Sinto que voc no gosta muito da sua irm, mas vou lhe pedir um favor: no deixe seus pais levarem-na ao mdico, pois realmente no  necessrio.
Ela, interessada que estava em t-lo como marido, concordou prontamente:
- Farei como me pede, mas desejo dizer-lhe que amo muito minha irm e seu pensamento sobre mim  errado. Sei que ela no est doente,  mais uma cena teatral que 
inventa para chamar a ateno de meus pais.
- No diga isso, ela sofreu um desmaio, mas j passou. No queremos que ela v ao mdico porque l iro passar remdios desnecessrios, afinal o Dr. Eduardo garantiu 
que ela est bem.
Isabela aquiesceu e aproveitou para convid-lo:
- No sei se em Londres as mulheres so to atiradas quanto aqui, mas se me permite gostaria de convid-lo para sairmos qualquer dia desses. Por favor, no v me 
negar.
Ele retorquiu:
- Pode ser. No nego que voc me atrai, mas casamento no est em meus planos, pelo menos por enquanto.
- Nossa! Como voc  srio! No se preocupe, sairemos apenas como bons amigos.
Ele concordou e ela foi chamada pelos pais que j iam se retirar. Camila no queria deixar Flvio por nada, mas, sentindo que precisava descansar, resolveu ir para 
casa com os pais.
No carro, lida se contentava ainda mais com os comentrios de Isabela a respeito de sua futura unio com Cristiano. Agora sim suas filhas seguiam um rumo certo. 
Jamais permitiria que um negro ou um pobre viesse a desposar uma delas. Nessa hora ela no viu, mas o vulto de Rafael a espreitava de cima do veculo. Ele dizia:
- Breve voc ter o que merece!
Alguns dias depois quando novamente reunidos na casa de tia Francisca no ch das cinco, Cristiano resolveu contar a Camila as informaes espirituais que recebeu 
sobre seu caso:
- Camila... - comeou meio sem jeito. - Naquele dia quando voc desmaiou no estava errada. Havia vrios homens enforcando-a. Eles no eram seres encarnados e sim 
espritos inferiores.
Ela sorriu:
- Voc est querendo justificar uma tentativa de assassinato com essa historiazinha de espritos. Francamente, Cristiano, pensei que voc fosse mais inteligente. 
At agora no entendo por que querem negar que fui atacada por bandidos e por que os protegem. Por acaso foram ameaados tambm?
Flvio chegou mais perto:
- Acredite amor, foram espritos mesmo. Ou voc acha que estaramos acobertando os assassinos?
Ela, que confiava muito no namorado, olhou seriamente para Cristiano e indagou:
- Como assim... Espritos?
Cristiano explicou:
- Isso mesmo. Vivemos rodeados por uma populao de espritos que j viveu neste mundo, porm apegados s iluses materiais que deixaram por aqui, se recusam a seguir 
adiante e viver no mundo que realmente lhes pertence.
Camila ouvia atenta, sabia que Cristiano era um homem honesto e srio, por isso confiava no que ele dizia.  nessas horas que se v como  importante a boa conduta 
das pessoas que trabalham com a espiritualidade. Se Cristiano fosse uma pessoa mentirosa, trapaceira e orgulhosa, ela jamais iria lhe dar crdito. Chegamos  concluso 
que o exemplo  tudo e vale mais que mil palavras. Ele continuou:
- H um grupo espiritual das trevas querendo persegui-la. No sei o motivo, porm Cndido, meu mentor espiritual, disse se tratar de uma falange muito bem organizada 
que vive no astral inferior. Voc  portadora de valiosa mediunidade de vidncia. Sua crise de epilepsia demonstra que tem uma mediunidade que necessita ser estudada 
e educada.
Ela pensou um pouco e disse:
- No quero saber nada sobre mediunidade, espritos e essas coisas. O que quero  me livrar desses perseguidores odientos que esto prximos de mim e voc ir me 
ajudar. Faa um trabalho, um despacho, alguma coisa e me livre deles o quanto antes. Se fossem vivos eu saberia muito bem como agir.
Cristiano empalideceu:
- Procure no pensar assim ou estar atraindo-os ainda mais para si. Se quiser estar bem, deve mudar seus pensamentos, procurando viver numa faixa mental superior 
 deles.
Ela parecia estar distante. De repente, levantou-se e disse:
- Tenho dentista marcado para as 18 horas e no posso me atrasar.
Ningum entendeu essa sbita deciso, mas Cristiano viu que um vulto escuro a abraava. Camila e Flvio trocaram um longo beijo e ela saiu. Cristiano muito intuitivo 
falou:
- Essa a vai dar trabalho. Est resistente ao bem e disposta a fugir da espiritualidade. No sei onde isso vai dar. Todos se recolheram para fazer uma prece quela 
alma conturbada. Dirigindo seu conversvel, Camila ia pensando:
- Se esse grupo de espritos idiotas pensa que vai me derrotar, est enganado. Saberei como me livrar dele num s instante.
Rafael e mais dois estavam no carro quando Jorge os surpreendeu:
- No procurem agir agora. Vamos embora daqui e deixemos que os fatos aconteam.
Pelo jeito srio de Jorge eles viram que algo grave estava para ocorrer e logo seus vultos desapareceram em direo ao Desterro. Camila andava de carro tentando 
procurar a casa de um pai-de-santo que ela conhecia e que j havia ido l uma vez com uma amiga. De repente, lembrou-se que era para os lados do Cambuci. L chegando 
percebeu que o bairro crescera bastante e s perguntando conseguiria chegar at ele. Numa rua sem calamento ela parou o carro e desceu. Trajava-se de preto e usava 
botas, alm de culos escuros, e sua postura altiva impressionava as pessoas que a viam ali. Ela parou um meninote de seus 13 anos e perguntou:
- Garoto, voc pode me informar onde  a casa de pai Gildo? Sei que  por aqui.
O menino disse que no sabia e ela continuou rodando e fazendo a mesma pergunta a vrias pessoas. At que uma mulher magra e desdentada disse que ela estava prxima 
do local:
- Mas s mostro a casa se a senhora me der uns trocados. Estou passando fome e preciso comprar uns pes - disse mostrando a boca sem dentes que se abria num sorriso. 
Camila deu o dinheiro e a senhora levou-a at a casa de pai Gildo.
L chegando percebeu que havia muitas pessoas  sua frente esperando para serem atendidas.
Conversou com a moa que servia de secretria:
- Olha, preciso urgente conversar com o pai Gildo e no estou disposta a esperar. Pago o triplo pela consulta se me deixar ser a prxima.
Gislene entrou por uma porta, demorou alguns minutos e saiu dizendo que ela j poderia ser atendida. Pai Gildo era um senhor de meia-idade magro, careca e com os 
dentes amarelecidos pelo fumo. Trabalhava num local impregnado de incenso onde ao fundo havia uma mesa com a imagem de Iemanj e vrios outros santos. Havia muitas 
velas acesas, um varal com vrias penas pretas penduradas, muitas cruzes e o clima era um lauto opressivo. Abrindo um sorriso amarelo ele indagou:
- Por que a mocinha est com tanta pressa em me ver?
Ela foi direta:
- Eu vim porque quero que me livre de um grupo infernal de espritos que resolveu me prejudicar. Tive um ataque com convulso e um amigo me disse que eram perseguidores 
espirituais. Quero-me ver livre deles j, custe o que custar!
Ele sorriu novamente e com pacincia comeou a enrolar um cigarro de fumo, deu umas baforadas e disse:
- As coisas no so bem assim como pensa. Tenho que consultar meus guias e ver o que eles me sugerem.
Ele comeou a acender um castial com seis velas vermelhas e virou-se de costas. Murmurou algumas palavras em lngua estranha e ficou em silncio durante dez minutos. 
Depois se voltou para Camila com olhos enigmticos:
- Os meus guias esto me dizendo que o trabalho no ser fcil. O grupo que quer lhe prejudicar conta com um forte lder, que  muito disciplinado.
Camila se encheu de raiva:
- Quer dizer que voc no pode com eles? Que tipo de feiticeiro voc ?
- Cale-se garota! No foi isso o que quis dizer. Apenas falei que o trabalho no  to fcil quanto pensei a princpio, mas, meus guias dizem que podem venc-los. 
- Ele lanou um olhar malicioso e continuou:
- O meu guia maior disse que voc est namorando um rapaz, mas afirma que ele no ficar com voc, a no ser que encomende outro trabalho.
Camila corou, o feiticeiro mexeu no seu ponto mais fraco: a paixo por Flvio. Desvairada ela disse:
- Fao o que for possvel e impossvel. O senhor est vendo outra mulher na parada?
- Por enquanto no, mas vejo que se voc no agir logo certamente o perder.
Camila no podia acreditar no que ouvia. De repente, falou:
- Quero ento encomendar esses dois trabalhos. Qual o valor?
Ele demorou um pouco e respondeu:
- Trs mil reais.
- Tudo isso? Sinto muito, mas o senhor ter que baixar o preo. No tenho condies para...
Ele a interrompeu bruscamente:
- Ou isso ou nada, a mocinha  quem vai escolher.
- Est bem, pode iniciar os trabalhos, vou em casa conseguir a metade da quantia com o meu pai, o restante darei quando o trabalho surtir efeito. Mas de uma coisa 
eu quero ter certeza: Flvio ser para sempre meu? Eu me livrarei para sempre desses vermes malditos que vocs chamam de espritos?
Ele sorriu com ar de superioridade e respondeu:
- O que o pai Gildo no consegue?
Ela saiu dali com uma terrvel dor de cabea. O odor desagradvel daquele ambiente estava insuportvel. J no carro ela ia pensando em como iria convencer o pai 
a lhe dar esse dinheiro.
Ela queria ardentemente fazer esses trabalhos. Pai Gildo era poderoso e Flvio seria todo seu.
Na Via Dutra o trnsito estava engarrafado. Os carros estavam parados e Camila cada vez mais impaciente. Olhou no relgio, eram sete e meia da noite. De repente, 
ela ouviu um burburinho e percebeu que estavam assaltando o carro que estava  sua frente. Olhou em volta, procurando um jeito de se proteger, mas no tinha por 
onde sair. Em seguida foi abordada por trs homens encapuzados:
- Passa a grana loura, agora! Ela muito nervosa disse:
- No tenho nada agora! Por favor, me deixem em paz!
Eles pareciam no ouvir e continuavam:
- Passa essa bolsa, bem devagar. Levante-se para eu ver se est armada.
Ela abriu a porta do carro e resolveu agir. Deu com a bolsa no rosto do bandido mais prximo e tentando abrir o porta-luvas recebeu trs tiros: um no pulmo esquerdo, 
outro no pescoo e outro na nuca. Ela teve morte cerebral instantnea. Realmente, o destino tem suas leis.

12 - E A VIDA CONTINUA

No crematrio todos tinham no rosto a tristeza e a dor. Principalmente Flvio que em to pouco tempo sofreu duas grandes perdas. Para o sentimento afetivo, o tempo 
no tem a mnima importncia, ele nasce e se intensifica de forma espontnea no corao, e nem todas as pessoas aceitam a perda do ser amado. Flvio se sentia desolado. 
Para ele o mundo havia acabado. Nunca em to pouco tempo sentira tanto afeto e amor por algum. Mas, no panorama espiritual a situao de Flvio era ainda mais profunda. 
A dor da perda era intensificada pela sua memria de vidas passadas que aflorava em forma de intuio. Seu esprito recordava inconscientemente da unio que ambos 
tiveram no passado e do plano que fizeram de juntos auxiliar a espiritualidade na implantao da Nova Era. Quando algum que amamos morre, nossa aura fica cheia 
de buracos e assim o vazio interior e a depresso aumentam consideravelmente. O padre orava de forma habitual e as pessoas quase no prestavam ateno ao que ele 
dizia. Da famlia dela todos estavam chocados, principalmente lida, talvez pelo remorso de conscincia pelos atos de maldade cometidos com a filha. Dentro do crematrio 
havia um espetculo de dar horror a qualquer criatura. O corpo de Camila destrua-se em meio ao fogo e ao calor, mas, ao seu redor, um grupo de cinco espritos estava 
esperando a sua sada do corpo. Eles festejavam ao redor do servial, que triste, tinha de acompanhar cotidianamente os corpos serem cremados. Jorge, o chefe do 
grupo, deu um sinal para que eles parassem a comemorao:
- Ateno todos! Os filhos do Cordeiro j desligaram os laos que prendiam Camila ao corpo. Toda ateno agora  pouco. Camila foi libertada, mas no consegue sair 
do corpo que derrete, vejam s a agonia dela!
Realmente, Camila estava sofrendo muito. As chamas que queimavam seu corpo de carne davam-lhe a impresso que invadiam seu corpo perispiritual que estava psicologicamente 
muito ligado  matria. Ela sentia o fogo queimando-a ainda como se estivesse viva.
Porm, algo de incrvel acontecia, sentia-se queimar, mas seu segundo corpo no se destrua. O duplo estava a alguns centmetros do corpo fsico, j em estado de 
cinzas.
Ester perguntava a Jorge:
- No vamos alivi-la? Ela est sofrendo demais!
Jorge soltou uma gargalhada:
- Se os servidores da luz no aliviaram, no somos ns que vamos fazer essa tarefa. Aguardaremos esse homem pegar as cinzas e depois veremos o que fazer com essa 
macabra criatura.
Assim foi. Quando do corpo de Camila restava apenas cinzas, o senhor responsvel pelo crematrio recolheu com cuidado o que sobrou da jovem moa e colocou numa urna 
prateada.
Camila sentia-se aliviada, embora no entendesse o que estava acontecendo. Nunca sentiu tanta dor em sua vida. O crematrio ficou aparentemente vazio, todavia, o 
grupo de Jorge continuava l  espera de Camila. Ao v-los ela esboou um sorriso:
- Algum veio me salvar do fogo! Por favor, tirem-me daqui! Jorge encarou-a profundamente:
- Levante-se! Voc j pode andar!
Ela obedeceu e saiu do forno indo para a sala contgua. Perguntou:
- Por que me olham assim? Sou alguma assombrao?
- Quase isso! - Exclamou Jorge.
De repente, Camila sentiu uma tontura e quase desmaiou quando reconheceu  sua frente Rafael, antigo amor da adolescncia:
- Saia de perto de mim, alma do outro mundo, me deixe em paz!
Jorge deu um sinal para que ele se afastasse e falou:
-  melhor acalmar-se. L fora est um carro  nossa disposio.
A partir de hoje ir morar na Cidade do Desterro. J temos uma casa pronta que servir como seu lar. Acompanhe-nos. Camila ia protestar, mas os olhos metlicos de 
Jorge fizeram com que ela tremesse de medo. O melhor era seguir. Certamente ela encontraria um jeito de voltar para casa. Camila estava achando que o que havia passado 
no crematrio fora um sonho. Relutava em crer no que lhe ocorria, apenas pensava em fugir dali. Esquecera-se do assassinato do qual fora vtima e ignorava que seus 
ltimos atos sobre a Terra escreveram o seu destino, do qual s com hercleo esforo conseguiria se safar. Na Terra, Flvio estava sendo consolado pelo irmo. Parecia 
que tudo era uma irrealidade, que a qualquer momento iria acordar e ter, no s sua famlia de volta, mas tambm sua amada Camila. Sentia que a vida tinha sido perversa, 
que estava lhe tirando tudo o que tinha de bom. Apresentou esse pensamento a Cristiano, que o consolou:
- Sei que as palavras so insuficientes nessa hora, mas posso lhe garantir que tudo que ocorre tem por trs a bondade divina. Talvez Camila tenha se comprometido 
com a prpria conscincia, por isso desencarnou. Mas a morte  uma iluso, em algum lugar deste Universo ela est to viva quanto ns.
Flvio no sabia o que dizer. Caminhava por entre as rvores do parque Ibirapuera tentando extravasar sua tristeza, sua dor. Francisca e Cristiano o deixaram sozinho 
para que refletisse. Sentados em um banco, Francisca perguntou:
- Cristiano, qual o motivo de uma pessoa morrer violentamente? Voc sempre diz que Deus faz tudo certo, mas em minha viso um crime  muito errado. Gostaria de entender...
- Olha tia, Deus  infinitamente sbio e age em toda parte. Lgico est que se Ele quisesse evitar um crime certamente o faria, pois tem maior poder do que qualquer 
assassino. Porm, a inteligncia Divina no interfere no livre-arbtrio que nos deu. Um assassino  um esprito ignorante que acredita na violncia para se defender 
e resolver seus desafios, j o assassinado  uma pessoa que possui mais conhecimento, j pode agir de forma melhor, mas est se violentando intimamente, agindo fora 
do seu nvel de evoluo espiritual. "Muito ser pedido h quem muito foi dado." As leis csmicas retardam durante certo tempo as conseqncias das atitudes do ignorante, 
esperando que ele amadurea e possa aproveitar melhor os resultados. Porm, quando temos mais conscincia do bem e escolhemos o mal, a vida deixa de nos proteger 
e os resultados so imediatos.
- Voc acha que foi isso o que aconteceu com Camila?
- Sim. Ela deve ter tido uma atitude infeliz quando por seu nvel espiritual poderia escolher melhor e assim atraiu o que lhe aconteceu. No existe vtima. A vida 
faz tudo certo..
Francisca ouvia atentamente, refletindo sobre aqueles ensinamentos. Flvio aproximou-se:
- Vamos embora, estou cansado!
Eles seguiram para casa, enquanto Noel e Carlota mais atrs comentavam:
- Graas a Deus existem ainda muitos "Cristianos" nessa vida, no  mesmo, Noel?
- Sim, a bondade de Deus distribui espritos bons em todos os recantos da Terra, para garantir harmonia, fraternidade, explicao e paz!
A vida continuava com seu pulsar e precisava ser levada adiante. O Universo reage com equilbrio, indiferentemente aos acontecimentos humanos. Por mais que soframos, 
choremos ou sorrimos, todos os dias o sol nasce e a noite chega. Por mais que pessoas sofram nos hospitais ou com a violncia, a vida continua cobrindo de pssaros 
e flores nosso planeta, na tentativa de mostrar que todos os dias a misericrdia divina se renova. Imbudo nesses pensamentos, Cristiano chegou naquela manh na 
casa de tia Francisca. Encontrou-a com Flvio na mesa do caf. Os gatos siameses foram alisar seus plos na cala de Cristiano. 
- Sente-se e sirva-se - falou Francisca, com doura.
- Podem terminar a refeio com calma. Hoje temos muito que conversar.
Francisca pediu:
- Cris, d uns conselhos a seu irmo, olhe, ele no est comendo nada. E isto ocorre a quinze dias, desde que a Camila desencarnou.
Cristiano no falou nada, mas percebeu que Flvio estava mais magro e abatido. O caf continuou apenas com o barulho dos miados dos gatos. Aps o trmino todos foram 
para a sala de estar. Cristiano comentou:
- Vim para dizer que no prximo fim de semana partirei para Londres. Meus negcios aqui esto resolvidos e no posso mais postergar minha viagem de volta. Gostaria 
que voc, Flvio, se preparasse para ir comigo. Tia, de uma s vez a senhora perder dois sobrinhos.
Francisca sorriu:
- Oh! No pense que fico triste, pois jamais me sinto sozinha.  claro que vocs me faro falta, mas sei que no futuro, quando Flvio voltar, j ser outro homem. 
Talvez traga filhos e assim encher muito mais meu lar de alegria.
Flvio no parecia contente com a viagem, mas Cristiano percebendo o fez reagir:
- Olha, no adianta ficar com esse rosto triste e de vtima. Vejo do seu lado espritos negativos lhe sugerindo que fique no Brasil. Eles querem que mais um trabalho 
do bem seja derrotado. Voc no vai fazer isso porque eu no vou deixar. Liguei para a mdium Margareth e a avisei que estou levando comigo uma pessoa que precisa 
estudar a espiritualidade. Tenho certeza de que esse  o caminho que lhe dar foras para superar esta crise.
Ele comeou a lamentar-se:
-  que sinto um desnimo, uma fraqueza...
- Isso  prprio das pessoas que esto sendo sugadas espiritualmente, reaja, voc pode. Nada que faa trar a Camila de volta, ela precisa seguir outro rumo e a 
vida os afastou temporariamente.
Essas palavras tiveram o dom de animar Flvio. A viagem se realizou num domingo  noite. Francisca e alguns poucos amigos de Flvio foram se despedir. O clima era 
de saudade e angstia. Quando finalmente o avio decolou, Francisca fez uma prece de agradecimento a Deus por tudo o que havia aprendido com Cristiano e pediu que 
Ele desse uma boa viagem aos sobrinhos. Em Londres, Flvio se adaptou com extrema facilidade. Dona Margareth o recebeu com carinho e o introduziu no estudo das leis 
das afinidades espirituais. Esse curso com trinta alunos durou um ano. Logo aps ele estudou durante dois anos os processos da mediunidade e pesquisou tudo o que 
pde sobre seu mediunismo especfico. Aproveitou a boa vontade do irmo e conheceu todos os pontos tursticos da cidade e do pas em que estava. Em trs anos j 
falava o ingls fluentemente. O quarto ano de sua estada em Londres foi dedicado ao processo de educao da mediunidade. Nesse ano ele sentiu seu campo vibratrio 
tornar-se mais ostensivo. Comeou a sair do corpo com muita facilidade e sem perder a conscincia. Conversava com os espritos como se estivesse conversando com 
pessoas amigas do dia-a-dia. Ia a palestras no mundo espiritual e retornava ao corpo lembrando-se nitidamente de tudo. Uma tarde, durante seu treinamento, saiu do 
corpo e viu aproximar-se dele um senhor de meia-idade, cabelos grisalhos e olhar muito profundo, que disse:
- Finalmente amigo, vou conversar com voc em estado de conscincia. Est lembrado do velho Hilrio?
Ele hesitou um pouco:
- Eu j o conheo?
- Muito! De muitas eras. Talvez agora no se lembre, mas o importante  a mensagem que venho lhe trazer.
Flvio olhou-o nos olhos e percebeu que realmente o conhecia, mas no sabia de onde.
Eles sentaram num jardim, na frente de um prdio, e Hilrio comeou:
- Voc  portador de mediunidade de desobsesso.
- Disso j fui informado, mas at o presente momento no fiz nenhum trabalho desta espcie.
-  que sua misso  no Brasil e no aqui. Com Margareth voc aprender todo o processo da desobsesso e um mtodo para aplicar no seu campo de servio. H outra 
coisa que preciso lhe lembrar: voc nasceu tambm para lanar a semente da espiritualidade na sua famlia e esta  a hora.
Ele retrucou:
- No dar mais tempo, minha famlia desencarnou h quase quatro anos, no h mais nada a ser feito.
Hilrio sorriu:
- Voc est enganado, a misso com sua famlia comeou justamente depois que ela desencarnou. Voc ir comigo visitar os lugares onde ela se encontra na espiritualidade. 
Usaremos o seu ectoplasma para torn-lo visvel a seu pai, sua me e sua irm. Prepare seu corao, nenhum dos trs est em bom lugar.  preciso que voc converse 
com cada um em particular e os ajude a sair de onde se encontram. A essa altura todos j sabem que desencarnaram. A viso de seu pai est  pior possvel: sem as 
duas mos ele luta para fugir das aves do umbral que teimam em beliscar suas feridas.
Flvio assustou-se:
- Quer dizer que ele foi atacado pelas aves das furnas?
- Isso mesmo!
- E por que perdeu as mos?
Hilrio ponderado explicou:
- Essas aves so quais urubus terrenos. Elas farejam os locais de putrefao do corpo espiritual, assim como o urubu terreno fareja a putrefao da carne. Ambos 
tm a mesma funo: sanear o ambiente. O corpo astral absorve as energias das atitudes de cada um e quando so negativas chegam a lesar seus rgos. Onde o esprito 
faliu, ali est o ponto nevrlgico onde os miasmas aparecem. Quando encontraram seu pai, as aves sentiram que esse ponto se encontrava nas mos. Ele exagerou no 
roubo, e as mos que roubam em demasia ficam impregnadas de energias densas, equimoses e miasmas que vm  tona assim que o esprito desencarna. Foi por isso que 
o ataque das aves se deu nesse local especfico.
- Essa explicao  lgica. Acha que conseguirei auxili-lo?
Hilrio respondeu que sim com a cabea e pegou Flvio pelo brao. Margareth percebeu que o esprito de Flvio estava fora do corpo e para que no fosse interrompido, 
ela fechou a sala.
Flvio e Hilrio foram volitando at uma zona escura semelhante ao vale dos suicidas. Ele esclareceu:
- Ns chamamos esse local de furnas, pela quantidade de cavernas e buracos que aqui se encontram. As aves temidas se escondem nas cavernas que ficam abaixo daquela 
serra.  Apontou para Flvio uma serra feia e de vegetao rasteira. - Nesse momento elas esto descansando. 
Flvio ficou curioso:
- De onde vm essas aves? Na Terra no temos nenhuma espcie desse tipo. Sei que no astral apenas residem os animais que viveram na Terra.
Hilrio disse:
- Realmente, no astral ficam apenas os espcimes de animais terrenos e com esse grupo de aves ocorre uma exceo. Elas migram do astral inferior de um planeta ainda 
primitivo. Deus as mandou para que possam limpar o ambiente e aliviar os espritos sofredores. Flvio indignou-se:
- Aliviar? Mas elas fazem com que sofram muito mais.
- Engano seu. As feridas e as equimoses quando em excesso limitam as aes dos espritos em busca da melhoria ntima. Quando so aliviados pelos pssaros, mesmo 
de forma grosseira, eles podem peregrinar mais  vontade e quem sabe encontrar a salvao. Alm do que, esses excessos de energias negativas prejudicam ainda mais 
a atmosfera das furnas, que por si s j  to densa.
- O meu pai foi to ruim a ponto de vir a sofrer tanto?
- No podemos rotular ningum dessa forma. Mas o que posso garantir  que ele tinha um corao muito duro, insensvel e irascvel. As furnas  um lugar que favorece 
a mudana interior atravs do sofrimento.
Eles caminharam mais e ao passo que iam andando, Flvio via muitos sofredores conhecidos: polticos que foram famosos na Terra, personalidades que influenciaram 
comportamentos viciados e muitas pessoas desconhecidas, mas um s olhar: o do sofrimento. Num charco eles encontraram ngelo. Sem as mos, ele gemia muito. Flvio 
o olhou e ele percebeu:
- Filho, filho meu, voc veio me salvar? Ah, s voc mesmo, essa alma to bela, que tanto eu critiquei durante a passagem na Terra. Como me arrependo de no ter 
aproveitado o tempo em que vivi com voc. Veja como esto minhas mos! Tire-me daqui, eu te suplico!
A luz que Flvio emanava naquele lugar sombrio fazia ofuscar um pouco a viso de ngelo. Hilrio, que no era visto por ele, deu um sinal para que Flvio puxasse 
o pai. Flvio segurou nos braos fracos do genitor e no conteve o pranto. Eles se abraaram, e de repente, enfermeiros da colnia Campo da Redeno chegaram com 
macas e equipamentos mdicos. ngelo desmaiou nos braos do filho, depois foi levado num autobus para o hospital Vinha de Luz, que ficava na prpria colnia. Hilrio 
levou Flvio para o corpo de carne e avisou:
- Sua tarefa apenas comeou. Fique atento, no Brasil nos veremos mais vezes.
Ele volitou e rapidamente chegou  cidade astral em que trabalhava. Os anos continuavam passando e Flvio aprendia cada vez mais. Hilrio nunca mais mencionou sua 
famlia quando aparecia para ele. Confiante, Flvio entendeu que se assim estava acontecendo era porque rica e Marina ainda no poderiam ser socorridas. Porm, 
de aluno, ele passou rapidamente a mestre e ministrava aulas juntamente com Margareth. Em desdobramento, Flvio tambm passou a dar aulas no astral, inclusive para 
o prprio pai que, a cada ano, mostrava-se mais equilibrado. Mas, mesmo depois de tanto tempo ele no tinha notcias de Camila, nem por seus mentores, nem por mentores 
de outros mdiuns. No entanto, a notcia do destino de sua me no astral inferior o perturbou muito. Soube tambm que Marina saiu da colnia em que estava abrigada, 
em Larvosa, uma cidade do umbral comandada por Tefilo. Ao questionar sobre uma possvel ajuda a ambas, Hilrio respondeu:
- Ainda no  a hora. Cultive a pacincia e saiba esperar. Soube por emissrio de plano maior que a ajuda se dar atravs de voc. Todavia, a vida tem suas leis 
que jamais so corrompidas. Marina e rica se comprometeram muito durante a passagem terrena e devem levar a experincia at o fim, at onde aprenderem de fato a 
serem melhores.
- Minha me eu at compreendo. Levava vida ftil e vazia, tinha muitos preconceitos e no amava ningum, a no ser a vida boa que o dinheiro proporcionava. Sabia 
que o papai iria me deixar no Brasil apenas por vingana e nem sequer se importou. Mas... Por que Marina se encontra hoje numa cidade inferior? Ela no foi socorrida?
- Ela se encontra l por teimosia. Quando despertou na colnia onde foi abrigada, relutou em acreditar que havia morrido. Ao tomar conscincia de que estava s e 
entre pessoas que julgava estranhas e loucas, ela entrou em depresso. Por mais que tentasse sair de onde estava no conseguia. Os portes eram de um ferro muito 
pesado e os muros altssimos. Dominada pela tristeza ela s pensava no lar da Terra. Chegou um momento que seu pensamento foi to forte que ao abrir os olhos acabou 
se encontrando em sua antiga casa. Achou tudo fechado e sujo. Facilmente percebeu que podia atravessar as paredes e essa sensao a enlouqueceu ainda mais. Constatar 
que estava realmente morta foi um golpe muito duro e ela perdeu os sentidos. Quando acordou encontrou ao seu lado Tefilo, que, com sua voz melodiosa e conversa 
fcil, acabou conquistando-a. Agora ela vive l, na esperana de rever a famlia e o Ricardo Valadares, sua paixo quando encarnada.
Flvio sentiu compaixo. Isso j ocorria h quatro anos. Naquele dia ele no conseguiu mais trabalhar com sua mediunidade, recolheu-se e ficou duas horas em profunda 
meditao. Quando terminou, se sentiu sereno, admitiu que a vida  sbia e jamais erra. Se sua me e sua irm ainda estavam naquele lugar  porque era 0 melhor que 
podia acontecer.

13 - A VIDA TRAA NOVOS RUMOS

Sempre que podia, Cristiano acompanhava Flvio em seus estudos. O curso que ele fazia era de um nvel mais avanado, porm Flvio rapidamente o alcanou e o ultrapassou. 
Isso se deu porque em sua mente subconsciente estavam os clichs de tudo quanto j tinha aprendido, tanto em vidas passadas, quanto em suas passagens na erraticidade. 
Flvio era um esprito mais evoludo do que o irmo, e tendo conquistado maior equilbrio espiritual, sua ascendncia sobre ele se manifestou naturalmente. Cristiano 
passou a consult-lo antes de tomar qualquer deciso e a acatar suas opinies. Tudo quanto fazia passava agora pelo cunho do irmo. Os negcios de Cristiano prosperavam 
na Inglaterra, e com eles, era possvel arcar com todas as despesas de Flvio at que estivesse preparado para iniciar seu trabalho no Brasil. Uma tarde Cristiano, 
em companhia de duas belas jovens, foi visitar Flvio no Centro de Estudos Espirituais onde ele estudava. Uma aparentava ser mais velha, com tez morena escura, cabelos 
lisos  altura dos ombros e a outra mais nova era morena-clara, tinha lbios finos e cabelos encaracolados. S quem as conhecia sabia de seu parentesco: eram irms. 
Muito diferentes fisicamente, demonstravam a mesma simpatia. Cristiano chamou o irmo a uma sala discreta e as apresentou:
- Esta  Laura, minha namorada da qual lhe falei, e esta  Anita, sua irm.
Ao olhar nos olhos de Anita, Flvio sentiu uma sensao diferente e teve a certeza de que j a conhecia de outras vidas. Cristiano notou, porm nada comentou. Flvio 
fitou-as admirado:
- Muito prazer! Vocs so diferentes, nem parecem irms! Como aprenderam a falar portugus to bem?
Anita explicou:
- Somos brasileiras. Estamos aqui h apenas dois anos. Nosso pai conseguiu um timo emprego e nos mudamos para c. Foi bom para Laura que teve a chance de conhecer 
o Cristiano.
Ela pareceu encabulada:
- No repare. Anita fala demais.
Cristiano interferiu:
- Elas tm personalidades diferentes; enquanto Laura  tmida, Anita  o oposto.
Flvio observou:
- Pelo brilho que vejo em seus olhos, penso que logo teremos um casamento.
- Voc  um bruxo mesmo! Como adivinhou? Conhecemo-nos h apenas seis meses e sinto que quero viver com ela pelo resto da vida.
- Olhando vocs dois, sinto que nasceram um para o outro.
Cristiano atalhou:
- Viram como ele consegue ler o que se passa dentro de cada um de ns?
- Foi voc quem me ajudou a perceber minha sensibilidade.
- Mas o aluno da primeira hora superou o mestre.
- Pare de brincadeiras, voc sabe que eu no gosto que me chame assim. s vezes voc pede e dou minha opinio, mas jamais pretendi guiar sua vida.
- Mas seguindo sua opinio nunca me dei mal.
Anita, muito interessada, perguntou:
- Voc, Flvio,  mdium? O que v na minha aura?
Ele viu nitidamente surgir na aura de Anita um brilho muito forte quando ela o fitava, revelando certo interesse por ele. Porm, disse apenas:
- Sua aura  de uma pessoa muito alegre, que sabe curtir a vida. Est muito brilhante.
Anita corou. Ele disse as ltimas palavras olhando profundamente em seus olhos; teria percebido seu interesse? A conversa continuou at a hora do crepsculo, quando 
todos se despediram e foram embora. Contudo, Flvio e Anita no conseguiram esquecer um do outro. Desde que chegara a Inglaterra, Flvio no tinha se envolvido com 
nenhuma moa. Depois do que sofrer com a morte de Camila, fechara o corao ao amor, com medo de sofrer. Porm, ao conhecer Anita, sentiu por ela uma incrvel sensao 
de familiaridade, mas teve medo de estar confundindo as coisas. Resolveu meditar e tentar compreender melhor o que se passava com ele. No mundo espiritual, Camila 
continuava escrava de Jorge. A princpio, Tefilo queria lev-la para Larvosa, mas um acordo feito com o amigo  fez permanecer no Desterro. Tefilo queria ter mais 
uma magnetizadora, porm Jorge lhe garantiu que trabalhando para ele Camila faria a mesma coisa. Ela sentia muita saudade de Flvio e quando descobriu que estava 
morta tentou v-lo, porm Ester explicou:
- Flvio vive em uma sintonia acima da nossa, portanto no podemos v-lo. Dever conformar-se e ficar na saudade. Tambm no consigo ver meu marido que j reencarnou 
e est protegido por uma famlia esprita. Eles fazem toda semana o evangelho no lar e por isso no conseguimos nos aproximar. Aqueles malditos espritas!
Camila ficou curiosa:
- O Flvio ainda continua nessa de espiritismo?
- Soube que vive na Inglaterra com um grupo de espiritualistas independentes numa faixa de alta elevao. Nem conseguimos chegar perto. Jorge no costuma se meter 
com o pessoal do Cordeiro, pois sempre se d mal.
Camila teve que se conformar. No sentia saudades da famlia, muito menos de Rafael, seu antigo namorado. Na cidade em que vivia, pde conhec-lo melhor e percebeu 
que era apenas paixo o que havia sentido por ele. Porm, ele no deixava de persegui-la e s vezes ela deixava-se envolver e ambos se entregavam  paixo, num daqueles 
quartos sombrios e escuros da cidade. Depois que isso acontecia, Camila passava horas em depresso e ia a Terra sugar as libaes do lcool das pessoas que se entretinham 
nesse vcio. Fazendo isso conseguia esquecer um pouco a insatisfao. Numa dessas visitas ao orbe, ela percebeu que algo de muito estranho acontecia na sua antiga 
casa. Aterrorizada ela percebeu que sua me lida havia enlouquecido e se encontrava internada. Seu pai e sua irm no a visitavam e de certa forma sentiam-se aliviados 
por se verem livres dos problemas que ela lhes trazia. No hospcio, Camila no conseguiu permanecer nem cinco minutos. Ela viu que l havia grande quantidade de 
entidades em desequilbrio, que assim como ela queria viver no lado obscuro da vida. Ela viu prximo  sua me um esprito de aparncia horrvel. Sentiu-se muito 
mal. lida em nada lembrava a mulher bonita e chique de antigamente. Estava com os cabelos desgrenhados, mal vestida, alm de babar muito. Camila fugiu logo dali, 
pois no desejava desequilibrar-se mais. No estava interessada na me nem em seu destino. Era at bom que tivesse enlouquecido. Com o tempo, rica deixou de ser 
prisioneira para ser trabalhadora de Jorge na cidade do Desterro. Em todos os anos de desencarnada ela nunca viu a famlia. Soube da situao do marido, mas recusou-se 
a v-lo. Marina no lhe interessava, j Flvio e Cristiano ela no pde nem chegar perto devido  vibrao de ambos. Por isso conformou-se com a situao em que 
vivia. Passou a utilizar seus poderes para magnetizar as pessoas da Terra e tentar manipul-las conforme sua convenincia. Porm, de tudo que havia visto depois 
da morte, jamais esqueceu da viagem que fizera ao abismo. Aquelas cenas permaneceram vivas em sua memria. Naquela noite, ao ver o grupo que Jorge convocara juntamente 
com Rafael para ir ao abismo, ela espantou-se:
- Para que tanta gente?
Ester explicou:
- As formas degeneradas so muito pesadas, so necessrios homens fortes para locomov-las. Esses homens iro l com essa funo. Veja o Rafael como est alegre 
com a vingana. Conversa e sorri sem parar.
rica olhou para Rafael, que era ainda muito jovem, e exclamou:
- No entendo como um rapaz desse, pode se comprometer dessa forma. Tenho ajudado nos trabalhados de vingana, mas noto que ningum sai feliz de uma coisa dessas.
Ester retorquiu:
-  porque voc no sabe o que a lida fez. Quando chegou no astral, Rafael descobriu que Camila perdeu o beb porque a me fez ela praticar um tenebroso aborto. 
Imagine s a raiva que ele sentiu. Alm de separ-los por puro preconceito ela cometeu esse ato draconiano com o filhinho que estava por nascer.  muito justa essa 
vingana, aquela mulher merece a loucura que a aguarda.
- Estou com muito medo, Ester - confessou rica. - No sou acostumada a ir em lugares como o abismo, acho que me recusarei a ir.
- No desobedea ao Jorge, ele  muito violento. Disse que faz questo de lev-la junto para que veja do que ele  capaz.
Ela estremeceu:
- Ento irei, mas voc me proteger.
Ester sorriu:
- Aqui ningum protege ningum, se tiver alguma coisa ruim l lhe aguardando, no sou eu quem ir salv-la.
rica ficou apavorada, porm no tinha como deixar de obedecer. Ela percorreu junto com o grupo um longo caminho. Ao chegarem em certo ponto, j na sub crosta, todos 
colocaram uma espcie de culos protetor. No limiar para o abismo, rica sentiu que ia desfalecer. As cenas que viu eram de aterrorizar qualquer criatura. Os homens 
indiferentes chegaram ao local e retiraram de l uma forma que parecia ser de uma mulher. Ela babava sem parar e tinha os olhos vidrados. Os cabelos se transformaram 
em uma crina e ela andava de quatro ps. Do meio da cintura para baixo seu corpo era de cavalo e ela relinchava como se fosse mesmo um animal. Jorge chamou rica 
a um canto e disse:
- Essa a foi uma antiga criminosa que chegou a esse estado por sugesto de um esprito vingativo. Traz nas costas mais de cem crimes e o remorso torturante, sem 
remdio, a levou pouco a pouco a se transformar nisso que v a. Agora, est completamente louca.
Colaremos esse espcime no corpo de lida, que bem merece.
Ela implorou:
- No faa isso Jorge, pelo amor de Deus. Os filhos do Cordeiro no iro permitir que isto acontea.
Jorge deu uma gargalhada:
- lida no tem proteo dos filhos do Cordeiro.  ambiciosa, m, perversa, crtica e maledicente. Vive num mundo de fantasias e iluses. Por que acha que iremos 
atingi-la? Se fosse uma pessoa voltada ao bem jamais conseguiramos esse intento. Os homens fortes abriram uma jaula e prenderam a forma tenebrosa dentro com muita 
violncia. 
O caminho de volta pareceu mais rpido, porm, eles no descansaram. Ler o romance O Abismo, de R.A. Ranieri. Foram direto para a manso dos Assuno Ferguson. 
Encontraram lida no trocador aprontando-se para sair. O quarto era luxuoso e muito bem decorado. Rapidamente os homens ligaram alguns fios energticos, que rica 
no entendeu de onde vinham, no cerebelo de lida. Em seguida abriram a jaula e soltaram no recinto a forma meio humana, meio animal. rica percebeu que os fios 
vinham da entidade e esperou aflita o que ocorreria. De repente, lida sentiu ligeira tontura. Olhou no relgio e percebeu que j eram oito horas da noite. Sem saber 
por que, comeou a se sentir nervosa e angustiada. Uma sensao de apreenso a invadiu e ela comeou a suar fino na testa. Pde ver claramente a forma degenerada 
prxima a seu corpo e deu um grito de horror. Gritou alto e muito forte, repetidas vezes. Isabela e Fernando apareceram no quarto e ela pediu chorando:
- Tirem-na daqui, eu lhes suplico. Tirem-na. O marido protestou:
- No h nada aqui lida, o quarto est vazio!
Rafael ria de felicidade. A mulher maldosa e preconceituosa virar um farrapo humano. Ela insistia que havia um monstro no quarto, mas Fernando repetia que no havia 
nada l. Isabela dizia a mesma coisa, porm ningum conseguia cont-la. Sentindo-se perseguida, lida comeou a correr pela grande casa. Por mais que tentasse no 
conseguia se livrar do ser monstruoso que estava ligado ao seu corpo. Aonde ia, o ser urrando e babando a acompanhava. Ela acabou sendo levada ao psiquiatra que 
diagnosticou esquizofrenia paranide. O Dr. Francisco disse que casos assim eram comuns e que poderiam ser medicados em casa. Ela no apresentava leses no crebro, 
porm o mdico explicou que todos os sintomas eram de uma esquizofrenia e certamente a leso deveria estar em uma zona especfica que os exames no conseguiram identificar. 
Era uma explicao confusa. Na realidade, o Dr. Francisco no entendia como uma pessoa com esses sintomas no apresentava nenhuma leso. lida tomava 16 comprimidos 
por dia. Mas, no melhorou. Pelo contrrio, os medicamentos agravaram seu estado. Ela passou a andar nua pela casa e pela rua. Fernando e Isabela optaram pela internao 
que ocorreu com lida numa camisa de fora. rica no conseguia entender como podia existir tanta maldade no mundo. No entendia como uma mulher bondosa e religiosa 
como lida pudesse terminar naquele estado. Com esses pensamentos resolveu se recolher. Pelo amanhecer trabalharia mais.

14 - NO BRASIL

Flvio continuava com os pensamentos contraditrios no que se referia a Anita. Ela se mostrava completamente apaixonada por ele. Ia visit-lo freqentemente na companhia 
de Cristiano que sempre estava prximo do irmo. Rolando na cama, ele pensava se o que sentia era algo mais profundo ou apenas uma atrao passageira. No desejava 
misturar as coisas, queria agir com absoluta certeza de seus sentimentos. Fazia dois meses que se conheciam, mas um no tirava o outro do pensamento. Lembrou-se 
repentinamente de uma frase do Dalai-Lama que dizia: Ame profundamente e com paixo. Voc pode se machucar, mas  a nica forma de viver a vida completamente. Era 
isso que precisava fazer. Vivia pregando em suas palestras que o amor deve ser vivido em plenitude e que jamais devemos deixar de demonstrar um sentimento. Nesse 
instante, percebeu que estava fazendo totalmente o contrrio, fugindo covardemente do amor. Tomou uma deciso: logo aps a palestra convidaria Anita para um passeio 
e se declararia. Flvio entrou num salo repleto de pessoas, onde ouviriam uma palestra sobre o planeta Terra. Era um grupo de espiritualistas interessado em saber 
um pouco mais sobre o panorama espiritual do nosso planeta que confiava muito no que Flvio dizia. Ele iniciou:
- Vamos todos pedir a Deus, supremo Criador do Universo, que tome a direo deste trabalho que hoje se realizar. Que Ele possa nos enviar vibraes de paz, amor 
e harmonia, que possamos contar com a presena de nossos amigos espirituais e com a cumplicidade do Universo.
- Meus amigos, o governo espiritual do planeta Terra  monitorado por uma junta muito grande de espritos, que acompanha sua evoluo. So espritos superiores designados 
pela fonte de vida, para ajudar a humanidade a encontrar o caminho do progresso, com menos sofrimento. As leis csmicas, perfeitas e imutveis funcionam, respondendo 
s atitudes de cada um e ao mesmo tempo s escolhas coletivas dos povos, cuja ignorncia tem levado a guerras e aos jogos do poder, ocasionando todo sofrimento que 
tem crucificado na dor toda a humanidade. Em uma cruzada de amor, esses espritos iluminados intervm, buscando de todas as formas esclarecer a conscincia dos encarnados, 
a fim de que se ajustem s leis do progresso e possam evoluir pela inteligncia, banindo da face do planeta o sofrimento. Ele continuou discorrendo com extrema facilidade 
sobre a Terra e seus mecanismos, inspirado que estava por entidade de elevada hierarquia. Ao final, concluiu:
- Na Terra, o bem-estar das pessoas depende exclusivamente das energias que produzem. Elas alimentam idias que determinam suas atitudes. Essas atitudes formam o 
destino do planeta e conforme a situao, os espritos superiores no intervm, s o fazendo quando as transformaes provocadas pela colheita dos resultados, tornam 
propcio o momento, favorecendo o sucesso de seus propsitos.  bom lembrar que a vida no joga para perder e s atua quando h grande probabilidade de obter o que 
ela deseja. Quando um desafio se faz presente em nossas vidas  porque temos condies de enfrent-lo e venc-lo.
- Vamos pensar melhor se estamos ou no contribuindo para a evoluo do planeta, e a partir da pautar nossa vida pela tica, pelo otimismo e pela f.
- Que Jesus possa nos abenoar pelos caminhos da vida, hoje e sempre. Que assim seja!
Os trabalhos da noite foram encerrados e alguns dos presentes foram cumprimentar Flvio pelas palavras de incentivo. Anita estava no meio deles, juntamente com a 
irm e Cristiano. Aps um aperto de mo e um abrao caloroso, Flvio, meio sem jeito, falou-lhe ao ouvido:
- Anita, preciso muito conversar com voc, me espera no jardim?
Ela, parecendo saber do que se tratava, respondeu com um sim muito expressivo.
Para esclarecer a situao com Laura, Flvio comentou:
- Gostaria muito de poder conversar particularmente com Anita. Depois eu a deixarei em casa.
Laura respondeu:
- Fique  vontade.
Despedindo-se da irm e de Cristiano, Anita foi ao jardim esperar por Flvio. Ele foi em seguida. Um vez juntos no carro, Flvio disse:
- Vou lev-la a um belo restaurante.
- No estou com fome Flvio, no desejo comer nada.
Ele respondeu:
- Voc vai gostar. H msica instrumental ambiente e se no quiser jantar, poderemos ficar no barzinho.
Durante o trajeto ele pegava algumas vezes na mo de Anita que corava de prazer. Ser que finalmente seu sonho se realizaria? Sentia que amava Flvio mais que tudo 
na vida e namor-lo seria o pice da sua felicidade. Num lugar do barzinho, meio em penumbra, Flvio fez sua declarao a Anita. Foi objetivo e sincero. Falou da 
sua vida, do seu trabalho com a mediunidade, da sua paixo por Camila e da morte trgica dos pais e da irm. Confessou ter sentido algo diferente e especial por 
ela, no afirmou ser amor, mas era um bom sentimento que deveria ser vivido com intensidade. Flvio aprendeu que nenhum sentimento deve ficar escondido, principalmente 
os de amor. E o amor que d alegria  vida e quando ele aparece deve ser vivido. Anita no estava em si de tanta felicidade. Era uma alma de evoluo mediana e no 
estava interessada nos trabalhos medinicos de Flvio. Ela fingia que se interessava, fazia perguntas, mas do que gostava mesmo era de estar com ele. No fundo dava 
graas a Deus pelo namorado ser assim, meio beato, s assim ficaria sossegada quanto s traies, que certamente jamais ocorreriam. Bendita mediunidade, pensava 
ela, com certo egosmo. Ela procurou fazer tudo para agrad-lo a partir daquele dia. Cristiano ficou muito feliz com o namoro dos dois, pois ficaria tudo em famlia. 
Onde Flvio estivesse, l estaria Anita. No fosse pelo egosmo dela, essa seria uma relao perfeita. Flvio a amava. Sabia de seus defeitos, mas eles no eram 
suficientes para acabar com o amor que ele sentia. Compreendia e jamais discutiam. Para ela, viver ao lado de Flvio, era uma oportunidade de progresso que a vida 
lhe oferecia. Estando unidos por compromissos do passado, o casamento por certo se realizaria, visando o progresso de ambos. Anita, desde a poca que vivia na espiritualidade, 
aceitou t-lo como marido. Por t-lo perdido de forma trgica no passado remoto, ela cristalizou em seu esprito que s seria feliz se estivesse com ele, por isso 
tudo fazia para ficar ao seu lado. Um ano se passou desde o incio do idlio entre Flvio e Anita. Durante esse perodo estavam sempre juntos. Ela aproveitava toda 
a chance de estar com ele e por isso era assdua nas reunies espritas de dona Margareth. O tempo passava e Flvio ia desenvolvendo mais sua conscincia e agindo 
com mais sabedoria. Fez diversos tipos de cursos, dentre eles os de auto-ajuda, psicologia comportamental, anlise, parapsicologia, terapias, incluindo a logoterapia, 
que tem como base fundamental a busca e a expresso do eu. Mas foi numa viagem a Califrnia que Flvio fez um dos cursos que mais o ajudaria, o curso de mentalismo 
e prosperidade. Quando voltou dessa viagem, num horrio de meditao, Flvio viu aproximar-se dele o esprito Hilrio:
- Que a Paz de Deus esteja com voc.
- Que assim seja. O que deseja de mim, Hilrio?
- Primeiro lhe avisar que mais uma parte de sua misso ser cumprida. Dever deixar a Inglaterra o quanto antes e voltar para o Brasil.  l que reside o grupo de 
pessoas que voc dever ensinar. Sua iniciao e aprendizagem se completaram com o curso que recebeu na Califrnia.  hora de metodizar o trabalho e traar as diretrizes 
para bem organiz-lo. As pessoas esto cada vez mais perdidas com os desafios que enfrentam no mundo. Voc ser o agente transformador da vida de cada um deles, 
que j esto prontos para a ajuda.
- E Anita? Vai poder seguir comigo?
- Sim. Ela tambm  uma necessitada. Voc ainda descobrir que a ama mais do que imagina. Tero que passar por um grande desafio, mas a vida jamais desampara ningum 
e vocs tero condies para venc-lo. A sugesto da espiritualidade  que formalize sua unio, case-se com ela. Depois de casados devero residir no Brasil. L 
o procurarei para maiores esclarecimentos. Que Deus te proteja.
Flvio agradeceu a Deus mais esse contato e resolveu colocar em prtica os conselhos de Hilrio, pedindo Anita em casamento. Ela ficou imensamente feliz com o pedido 
de casamento do namorado. Seus pais, Rmulo e Alexandra, tambm concordaram com o enlace, pois viam em Flvio a personificao do genro perfeito: bonito, inteligente, 
sadio e rico. Apenas no gostavam das idias espirituais dele; como catlicos ortodoxos que eram, jamais compartilhariam com as idias de reencarnao, comunicaes 
de espritos e coisas do tipo. Mas, acabaram deixando de lado seus pontos de vista em favor da felicidade da filha. Uma tarde, l estava Flvio no apartamento dos 
pais de Anita, com a noiva presente, traando planos para o casamento:
- Vim avisar que pretendo ir embora do pas retornando ao Brasil. Conversei com Anita e ela concordou em nos casarmos l.
Alexandra no gostou:
- L? Eu queria tanto que fosse aqui. Tinha feito tantos planos, afinal, ela casar primeiro que a Laura,  minha primeira filha que casa! - disse ela com um tom 
melanclico na voz.
-  que a minha nica tia viva mora l e me  muito querida. Somos todos brasileiros e desejamos oficializar l em nossa terra essa to sonhada unio. Vocs podero 
ir pra l tambm no dia da cerimnia...
Rmulo concordou:
- Eu no queria perder minha filha, mas concordo que ela deve seguir o futuro marido. Se quiserem se casar por l tm toda a minha aprovao.
Alexandra retorquiu:
- Mas quero ir com vocs. Desejo preparar tudo para esse casamento pessoalmente. O Rmulo e a Laura podem ir no dia, mas eu no deixo minha filhinha s, por nada.
Flvio argumentou:
- Ns desejamos apenas uma festa simples. A cerimnia ser civil, sem mais badalaes, no foi isso que combinamos Anita?
Anita, que se mantinha calada, respondeu:
- Sim, mas sabendo como dona Alexandra  teimosa, acho melhor fazermos como ela quer seno teremos problemas.
Alexandra era uma mulher rgida, porm de boa ndole. Gostava muito da filha e sonhava com o mais lindo casamento para ela. No deixaria passar uma ocasio dessa, 
evidentemente.
- Sou teimosa mesmo, vou organizar a mais bela festa de So Paulo. Eu e meu marido vamos dar tudo para a festa, de modo que voc, Flvio, no precisa se preocupar.
- Eu fao questo de colaborar, afinal sou o noivo.
Rmulo interviu:
- Deixe isso com a gente, voc j ter que arcar com as despesas da casa, mobilirio, dentre outras coisas.
A discusso seguiu acalorada, cada um dando sua opinio, ao final concluram que Flvio daria o enxoval, a casa e os mveis, enquanto os pais dariam uma luxuosa 
festa. Depois de tudo decidido Flvio, Anita e Alexandra voaram de volta ao Brasil. Cristiano, Rmulo e Laura foram se despedir no aeroporto. Francisca iria recepcion-los 
e estava ansiosa para rever o sobrinho to amado depois de longos seis anos. Mandou arrumar trs quartos especialmente para eles e preparou deliciosa merenda para 
o ch das cinco. As trs em ponto eles estavam no Brasil. Flvio estava emocionado:
- Ah, minha terra! Esse cheiro, esse sol, essa magia s existem mesmo aqui.
Alexandra tambm se emocionava:
- J havia me esquecido do quanto  bom e bonito esse querido pas. Parece que passei cem anos fora. Devo confessar que mesmo com toda a organizao da Inglaterra 
ainda prefiro aqui. E que sou muito baderneira, desorganizada e o povo do Brasil  assim, muito zen.
Flvio corrigiu:
- Aqui h mesmo muita liberdade, porm o povo brasileiro j se adaptou mais ao ritmo organizado dos pases de primeiro mundo. Hoje voc pode ver que o pas est 
bem cuidado, organizado e dirigido. Ser maravilhoso vivermos aqui.
Anita apenas falou:
- Para mim onde voc estiver estar minha felicidade.
O Flvio que acabara de chegar ao Brasil, em nada mais lembrava aquele adolescente cheio de dramas, confuso consigo mesmo. Agora era um homem feito, de corpo e alma. 
Experiente, centrado, maduro, Flvio era realmente um mestre. De repente, a lembrana dos pais, de Camila, dos velhos amigos lhe veio  memria, mas foi interrompida 
pela recepo calorosa de Francisca que veio busc-los.
- Como  bom te ver Flvio. Como est diferente, mudou at a cor dos cabelos! - disse sorrindo.
Flvio abraou aquela alma generosa e apresentou as mulheres.
- A Anita  muito mais bonita do que eu imaginava, e essa  Laura, irm dela?
- No, esta  Alexandra, me de Anita.
Francisca observou:
- Nossa, invejo sua juventude e beleza, parecem irms. Olha, tenho orgulho de levar vocs com o meu prprio carro. Muita coisa mudou na minha vida nestes seis anos, 
me tornei at empresria - falou muito contente.
Flvio exultou:
- Nossa, tia, que progresso!
Ela disse:
- Percebi que a vida ociosa que levava em nada contribua para meu progresso, com o tempo fui cansando da rotina que tinha e resolvi investir parte de minha herana 
num empreendimento. Mas agora vamos, pois estou ansiosa para instal-los em minha casa.
A conversa seguiu animada, mas Flvio estava viajando em suas lembranas. Realmente, o Brasil mexia muito com ele, principalmente pelo seu passado, sua paixo por 
Camila, tudo fazia lembrar o tempo que ainda era adolescente e que morava com seus pais levando uma vida como tantas outras. At que um dia o destino mudou o rumo 
dos acontecimentos, e l estava ele, prova viva e consciente que Deus jamais erra e s faz o melhor. Assim que Flvio chegou ao Brasil, Ester tratou de comunicar 
a Camila. Durante aqueles seis anos ela continuava trabalhando nos planos de vingana da Cidade do Desterro. Vivia amedrontada, mas como no acreditava ser possvel 
sair dali, continuava fazendo tudo o que Jorge mandava. Ultimamente estava sendo uma das produtoras das roupas dos moradores da cidade. Ester a encontrou numa espcie 
de tear, porm os fios eram magnticos e saam da mente de Camila; assim ela aprendeu a plasmar os tecidos.
- O que foi, Ester?
- Tenho novidades do Flvio. O Jorge viu pelo monitor quando ele chegou ao Brasil. Parece que o trabalho dele com os filhos do outro lado vai comear em So Paulo.
Camila largou o servio, interessada que estava naquela conversa. Durante aqueles anos todos o que mais queria era aproximar-se do grande amor de sua vida, porm 
os companheiros diziam no ser possvel, pois Flvio vivia em faixa mental elevada. Mesmo assim Jorge o espiava sempre que possvel atravs dos monitores e ela sempre 
estava informada. Perguntou:
- Ele continua com ela, a trouxe para o Brasil?
Ester ficou calada durante alguns segundos e informou:
- Sinto dizer, ele alm de traz-la, pretende casar-se com ela. Tente se acalmar.
Camila entrou em fria, seus olhos expeliam chispas e todo o seu corpo tremia:
- Isso no pode acontecer, impedirei a todo custo!
Ester retorquiu:
- No sei se ser possvel, ter que pedir permisso ao Jorge. Durante esses anos, ningum dessa cidade conseguiu chegar nem perto de Flvio. Acha que ser possvel 
agora?
- No sei, mas tenho que encontrar uma maneira de impedir que essa maldita case-se com ele, deve haver algum modo, Ester.
- Nem sempre se pode interferir assim ao bel-prazer na vida dos encarnados. Se assim fosse, a Terra j teria se transformado num hospcio mais louco do que . Se 
em muitas vezes conseguimos, em outras fracassamos. Se a pessoa for protegida da luz, nada conseguiremos fazer.
Camila rosnou de raiva e decidiu:
- Flvio  s meu e jamais ser de ningum, de nenhuma outra. Ester, marque uma reunio com Jorge, preciso v-lo ainda hoje.
Ester, com mau humor, respondeu:
- No sei se ser possvel, hoje ele est muito ocupado, mas com jeitinho talvez eu consiga. - Falou estas ltimas palavras com jeito malicioso. Camila perguntou:
- H tempos venho desconfiando que voc est de rolo com o Jorge, me diga,  verdade?
Ela sorriu ao responder:
- O Jorge tem muitas amantes, mas duvido que as outras dem tudo de si a ele como eu.
- Eu sabia! - exultou Camila. - Ele lhe d muitas facilidades. S podia ser isso.
Ester lamentou:
- Desde que meu marido reencarnou eu no tinha mais vida sexual, sabe, eu estava carente, da acabei me entregando ao Jorge.
Camila disse:
- Certa voc! Fao a mesma coisa. Amo o Flvio, mas para assuntos ntimos eu sempre uso o Rafael. - Elas continuaram com a conversa sensual, envoltas de energias 
negras, mas a certo ponto Camila disse:
- Chega desse papo, v marcar minha audincia com o Jorge. Eu separarei esse casal ou no me chamo Camila Assuno Ferguson.
Ester procurou Jorge, que relutou um pouco para receber Camila, porm acabou cedendo. No horrio marcado, rosto compungido pelo dio, l estava ela:
- Jorge, eu preciso arrumar um jeito de separar Flvio de Anita, ele dever se guardar apenas pra mim.
Jorge tirou uma espcie de cachimbo da boca e sorriu:
- Realmente, voc tem muita sorte. Hoje, justamente hoje, eu descobri que voc poder interferir na relao.
Os olhos dela brilharam.
- Como assim?
Jorge foi metdico ao responder:
- Primeiro quero dizer que voc ainda no pode se aproximar de seu amor. No conseguir alcan-lo. Mas Anita tem baixas energias e voc poder trabalhar negativamente 
com ela.
- Graas a Deus, poderei me vingar daquela infeliz que tenta roubar o amor do Flvio, mas... Como farei, poderemos enlouquec-la?
- Isso seria perfeito, mas no temos autorizao para tanto. Segundo informaes de Tefilo, Anita no traz nenhum tipo de enfermidade no perisprito, mas podemos 
semear a discrdia entre o casal, a desconfiana e o cime na mente dela, bem como a depresso e se ela ceder mais, futuramente um suicdio. Da poderemos captur-la 
no vale e traz-la para c. Ela ser s sua, poder molest-la  vontade.
Camila ficou radiante, o orgulho e a maldade eram sentimentos que a excitavam.
- Isso ser logo? A Ester me afirmou que o casamento ser breve, temos que agir rpido.
- Sinto muito, mas o casamento no poderemos evitar.
Camila abriu desmesuradamente os olhos.
- Por qu? Est me dizendo que voc  fraco e nada poder fazer? Onde est sua fora, Jorge?
Ele a olhou raivoso:
- No me provoque ou se arrepender. Esse casamento est na programao reencarnatria de Flvio e s pode ser evitado pelos dois, quanto a isso nossa atuao  
nula. Contra certos determinismos da vida, ns somos completamente impotentes. Camila comeou a chorar:
- Aquela sonsa! Conseguir o maior desejo da minha vida, ser a esposa de Flvio. Mas... Se no podemos impedir o casamento, o que de fato podemos fazer?
Jorge explicou:
- O casamento dele est protegido, mas depois vamos atuar pouco a pouco na vida conjugal e os problemas comearo. Lembre-se de que Flvio tem uma vibrao muito 
alta, mas Anita no, vamos atuar nela, nas fraquezas dela. O que posso fazer, j estou fazendo.
Enviei um servidor  crosta para observar os pontos fracos de Anita 24 horas por dia. Quando descobrirmos todos eles vamos atacar. Camila ficou em dvida:
- Ser que Flvio no tem mais pontos fracos? Virou santo? Nada pode atingi-lo?
- No  bem assim. Os filhos do Cordeiro no exigem a perfeio de seus trabalhadores. Segundo pude observar, Flvio tem muitos defeitos, pois  um homem comum, 
porm esfora-se para melhorar, d o melhor que pode em seu nvel de evoluo, busca a alta espiritualidade. Quem age assim  automaticamente protegido pela lei. 
S podemos atacar quem no d o melhor de si, como  o caso de Anita. Camila parecendo entender, perguntou:
- Ser que conseguirei separ-los?
- Isso depender muito dela. Flvio  protegido, mas Anita no. Vamos ver o que podemos fazer. Cada coisa no seu tempo.
Ela se despediu dele e saiu meio tristonha. No meio de uma praa feia e malcheirosa Ester veio ao seu encontro.
- E a amiga? O que o Jorge lhe disse?
- Infelizmente no posso fazer nada contra esse maldito casamento, porm depois posso interferir. Talvez os possamos separar.
Ester vibrou:
- Voc  das nossas! J vi que merece viver aqui conosco.
- Desde que fui trada pela minha prpria me no consigo ver  minha frente nenhum sentimento que no seja o dio. Antes disso eu era uma adolescente feliz, alegre, 
era uma pessoa comum, infelizmente ela me transformou num monstro!
-  isso mesmo, os outros  quem so culpados pelos nossos problemas. Por isso, aqui no Desterro, fazemos justia com as prprias mos. Essa histria de perdoar 
s serve mesmo para pessoas fracas. Camila concordou:
- Adorei a dona lida ter enlouquecido. Quero que morra e venha pro nosso lado, a poderei fazer dela o que bem quiser.
- Minha vida foi destruda pelo Solano Carbajaua e hoje tambm ele teve a paga que mereceu. Est l sem as duas mos vagando a esmo. Ningum, nem mesmo Jorge, conseguiu 
ainda saber seu paradeiro, ele sumiu. Deve estar escondido numa daquelas cavernas.
Camila disse:
- Voc sempre teve esse dio, porm nunca nos contou a causa, gostaria muito de saber.
- Ento chegou a hora, prepare-se para saber o que aquele desgraado me fez!
E comeou a narrar todo o drama de sua vida.

15  DE VOLTA AO PASSADO 

Era o ano de 1896, algum tempo depois da abolio da escravatura no Brasil. Eu, Ester, e meu marido, Adolfo Cruz, morvamos em uma vila chamada Guadalupe, interior 
de uma Cidadezinha do Mxico, que hoje faz parte da capital. Cultivvamos ervas e tnhamos pequena plantao que vendamos nas feiras de fim de semana. Nossa vida 
era boa, calma e tnhamos dois filhos chamados Malaquias e Roque. Solano e Zuleika Carbajaua eram nossos vizinhos mais prximos e traamos estreita amizade. Eles 
tinham um casal de filhos que eram a Juliete e o Eduardo. Viviam aparentemente bem e eram mais prsperos que ns. Alm das plantaes, mantinham um grande armazm 
no Arraial de Guadalupe do qual todos ramos clientes. O tempo foi passando e comeou o perodo da seca. Nossas plantaes no vingavam e precisvamos continuar 
nos mantendo. Eu tinha verdadeira adorao pelos meus filhos, enlouquecia-me a idia de v-los passando fome, e assim Adolfo fez grande soma de dvidas, no s no 
armazm de Solano, como em outras casas comerciais da regio. Eduardo, o filho mais velho de Solano, tomava conta do armazm e sempre aumentava o nmero das notas 
dos clientes. Solano era temido pelas redondezas e por isso ningum ousava desafi-lo. Com o tempo, Eduardo roubava mais e mais e assim fizeram pequena fortuna. 
Tnhamos uma conta altssima e no teramos condies de pagar. Eu afirmava ao meu marido que ns no tnhamos feito tantas compras, ao que ele dizia:
- O Eduardo me apresentou essa soma e no podemos fazer nada contra, alis, os mantimentos esto acabando e precisamos abastecer novamente no armazm do Solano.
E assim foi, a seca continuou pelo resto deste ano e ficou do mesmo jeito nos trs anos seguintes. A nica soluo foi continuar devendo  famlia Carbajaua. Um 
dia, quando estvamos tomando caf, Eduardo chegou em nossa humilde casa acompanhado pelo pai. Seus rostos estavam compungidos e Solano comeou:
- Viemos comunicar que a situao de vocs com nosso comrcio no  boa. Devem muito dinheiro e acredito que no tm com que pagar.
Adolfo, lembrando da velha amizade entre as famlias, ainda tentou contemporizar:
- Sei disso amigo, mas tempo vir que saldaremos todas as nossas dvidas contigo. Deixe esta seca passar e devolverei tudo o que nos fornece em forma de dinheiro. 
Nossas terras sempre foram boas para o plantio e haveremos de colher em dobro.
Solano, com sorriso cnico no olhar, redargiu:
- Sabemos que suas terras so timas, por isso viemos aqui. Desejamos trocar todas essas promissrias pela sua casa e suas terras. Estremeci de horror ao ver o calhamao 
de promissrias na mesa de minha cozinha e percebi que se tratavam de todas as outras que tnhamos na cidade. Solano, interessado que estava em nossas terras, saldou 
todas as nossas dvidas e somado ao montante que Eduardo aumentava nas compras do armazm dava uma enorme quantia. Desesperada gritei:
- Isso no pode ser! Mais da metade do que est aqui no foi comprado por ns em seu armazm.
Eduardo, com rosto marcado pela cobia, gritou:
- Est duvidando de minha conduta, chama-me de mentiroso?
Eu repliquei:
- No foi isso que quis dizer,  que tenho conscincia de que no compramos nem metade do que a est. Comecei a chorar desolada.
Adolfo pediu:
- Deixe-me examinar.
Quando ele pegou as promissrias, sentiu-se gelar. A soma era o valor exato de todas as nossas terras e propriedades. Vociferou alto:
- Vocs no podem fazer isso conosco, iremos pagar!
Solano no queria controvrsia e afirmou:
- Vocs devem muito. Por isso vo deixar essa propriedade e as terras at amanh cedo. A partir de agora elas so nossas.
Comecei a chorar abraada a Malaquias e Roque que eram adolescentes na poca. Eles saram zoando nas botas, deixando para trs uma famlia destruda. Adolfo tentou 
consolar-nos dizendo que partir era a nica alternativa. A raiva e o dio dominavam nossos coraes e s seis da manh um grupo de pees armados veio nos expulsar 
daquele que foi nosso lar durante tantos anos. Unidos, pegamos a estrada em direo  capital jurando vingana. Porm nunca pudemos nos vingar. Sofremos muito na 
capital e nas primeiras noites dormimos em plena rua. Foi com decepo e amargura que recebemos no rosto a grossa chuva que acabava de chegar queles lados do Mxico. 
Desnutridos, Malaquias e Roque acabaram morrendo. Nunca senti em minha vida uma dor to imensa. Adolfo, pelo desgosto, tambm no resistiu e acabou fazendo seu passamento. 
Eu fiquei sozinha naquela cidade to grande, pois vivamos como maltrapilhos, fazendo servios aqui e ali, nas manses, em troca de alguma comida. Numa dessas casas 
encontrei Malvina, uma prostituta que mantinha um castelo na periferia e que se interessou pelas minhas formas. Eu no era uma mulher feia, apenas estava maltratada 
pela vida. Malvina me levou a sales e tratou de mim, colocando-me na vida do comrcio sexual. Quando fui ficando velha e os clientes me rejeitando acabei voltando 
s ruas, pois o dinheiro como prostituta no rendia, parecia amaldioado. Um dia ca doente e um grupo catlico me acolheu num asilo, onde morri solitria. Cheguei 
ao astral no ano de 1956, desencarnei com 80 anos. A morte retirou o vu que ocultava minha viso e me vi num lugar sujo, frio e molhado. Os mesmos homens que me 
usaram sexualmente quando na Terra, agora durante o sono fsico, me perseguiam implacveis. Acabavam me achando e continuavam abusando de mim. Fiquei assim por seis 
anos, at o dia que uma linda mulher surgiu me convidando para abandonar aquela vida, dizia que eu no merecia viver mais assim. Afirmava que havia um belo lugar 
me esperando e que para entrar nele eu precisava de uma nica coisa: perdoar. Em sua docilidade ela dizia:
- Lembre-se do sofrimento de Jesus, ele padeceu pela injustia dos homens e mesmo assim perdoou. Agora  a sua vez.
Ela falava isso, pois sabia que eu no havia perdoado o Solano, era esse dio que me mantinha e me mantm viva at hoje. Recusei terminantemente, ela ainda voltou 
algumas vezes, depois desapareceu. Da aconteceu o melhor: Jorge veio ao meu encontro e disse que eu estava certa em no seguir esta mulher, pois me levaria com 
ele para ver os meus filhos e ento fiquei muito feliz. Cheguei ao Desterro, essa nossa cidade, onde meus filhos j residiam. Foi um encontro fabuloso. Para minha 
felicidade ser completa s faltava meu marido, porm Jorge informou que ele seguiu com aquela mulher e nunca mais eu o veria. Foi o que aconteceu. Pouco tempo depois 
fiquei sabendo que ele reencarnou no Brasil. Malaquias e Roque, agora j amadurecidos e com os semblantes de outra encarnao onde foram sanguinrios, me ajudaram 
procurar Solano. Exultei ao saber por Jorge o fim trgico de toda a famlia Carbajaua. Solano prosperou por mais alguns anos, porm logo depois cometeu grave erro, 
que o levou  falncia. Suas falcatruas foram descobertas e ele foi preso. Na priso ele se suicidou. Juliete foi morar no mesmo castelo que outrora eu trabalhei 
e se tornou prostituta. Eduardo fugiu e Zuleika morreu velha e muito beata, apesar de solitria. Perseguimos todos no umbral, porm havia uma alma muito bela chamada 
Henrique que os queria ajudar. Por muitas oraes desse esprito, Deus concedeu uma nova chance para toda a famlia. Eles reencarnaram. Usamos uma mdium aqui do 
Desterro chamada Mina e conseguimos localiz-los no Brasil. Mas quando isto aconteceu eles j estavam bem de vida. Da, influenciada por Jorge, tracei meticuloso 
plano. Colei-me ao Solano e o induzi mais uma vez ao roubo. Facilmente ele captou minhas mensagens e comeou a subtrair dinheiro ilicitamente das empresas onde trabalhava. 
Minha vingana tinha comeado. Malaquias e Roque induziram Cristiano, que fora Eduardo, tambm a compactuar com as falcatruas do pai e os dois estavam no meu encalo. 
Jorge me apoiou na vingana odienta e passou tambm a obsedar a famlia. Como eles no tinham proteo, acabaram sendo atingidos. Henrique, a alma nobre, tambm 
renasceu com eles e se chama Flvio, o grande amor de sua vida, Camila. Mas pouco ele conseguiu fazer. Voc viu que todos morreram e esto sofrendo tudo o que nos 
fizeram sofrer. No umbral, Solano, hoje ngelo, passou privaes, perdeu as mos e Zuleika que  rica, est escrava. Marina est no Vale do Amor Livre e infelizmente 
perdemos de vista o Eduardo. Ele est realmente mudado e se imbui a cada dia pelos propostos do Cordeiro. No posso me vingar dele. Jorge diz que se tentar isto 
me darei mal. Esse  meu drama, minha vida acabou naquele dia que me tiraram tudo. Voc no acha que estou certa em me vingar?
Camila, que a tudo ouviu com espanto, confirmou:
- Claro amiga, avalio sua luta. Pela sua histria, e pela minha tambm, vejo que s atravs do mal conseguimos ser mais fortes. Se voc fosse ruim, certamente teria 
feito uma desgraa com eles e estaria bem melhor. Talvez nem tivesse perdido suas terras.
- Isso mesmo, antes eu era boba, aceitava tudo de cabea baixa. Hoje ningum mexe comigo.
Aquelas criaturas perdidas numa moral falsa e estacionaria continuaram conversando. Elas ignoravam que s o perdo liberta e que a vingana  uma faca de dois gumes: 
atinge principalmente quem a pratica.

16 - O CASAMENTO

Alexandra acordou animada, era o dia do casamento de sua filha. Aquela temporada no Brasil havia feito muito bem ao seu esprito. A casa de Francisca tinha um clima 
mgico, agradvel e levava todos a uma sensao de paz interior. Naquele dia em particular, a azfama era geral, finalmente Flvio e Anita se uniriam. Na mesa do 
caf a conversa girava em torno do assunto:
-  to bom quando duas pessoas que se gostam resolvem viver num mesmo teto,  uma pena que no tenha acontecido comigo - dizia Francisca levando uma torrada  boca.
- O bom  que as pessoas procurem viver bem e felizes de qualquer jeito. Um ser humano no  feliz apenas porque se casa e tambm no  infeliz porque est sozinho. 
Voc mesma tia, se queixa  toa. Vive sozinha, mas no sente solido, est sempre alegre e de bem com a vida. Para muitos o casamento tem sido sinnimo de angstia 
e infelicidade - elucidou Flvio.
- Eu e o Rmulo vivemos muito bem graas a Deus. Nos compreendemos e sabemos aceitar os defeitos um do outro. Acho que o respeito  fundamental numa relao, mais 
at que o amor, pois quem diz que ama e no respeita a individualidade do ser amado, na verdade no est amando em plenitude - disse Alexandra.
- Nossa, mame, a senhora hoje est uma verdadeira filsofa - brincou Anita.
-  isso mesmo filha, de mdico e louco todos ns temos um pouco.
A conversa seguiu animada e depois cada um foi cuidar dos seus afazeres. Francisca havia aplicado boa parte de sua herana deixada pelo pai e cuidadosamente administrada 
numa loja de confeces. Para ela, ser empresria estava sendo um divertimento, uma forma de ser til. Flvio nesses trs meses no Brasil comprou um imvel grande 
em rua aprazvel no centro de So Paulo e estava reformando de acordo com suas necessidades de trabalho. Hilrio sempre o orientava no que fazer para que o trabalho 
com a espiritualidade se desse o melhor possvel. Havia o salo especfico onde haveriam os trabalhos de desobsesso, outro onde se dariam os cursos e palestras 
e mais um dedicado a passes e terapias alternativas. Ele queria fazer um centro de estudos, onde as pessoas pudessem ter aconselhamento individual e para isso estava 
contratando especialistas e os treinando quanto aos conceitos de metafsica e mentalismo. Tudo estava programado pela espiritualidade e Flvio confiava no futuro. 
Anita saiu com a me para ultimar os ornamentos do vasto salo onde se daria a unio civil. Ela no se continha de felicidade, ter o homem amado, fiel, religioso, 
era tudo o que ela mais ansiava. Alexandra estava com pressa, pois ainda receberia o marido, Laura e Cristiano que estavam chegando da Inglaterra. O clube estava 
impecvel, ela e Flvio haviam gastado muito, porm o resultado era muito bom. O luxo excessivo incomodava. Flvio, porm, resolveu fazer todas as vontades de sua 
futura mulher. Tencionava inici-la nas tarefas espirituais e com isso passar-lhe-ia ensinamentos sobre as leis csmicas. Anita era um esprito pouco amadurecido 
e estava longe de saber o que era a verdadeira simplicidade. A prova da riqueza que ela aceitou quando estava na espiritualidade era justamente para que aprendesse 
a viver na simplicidade, mesmo tendo muito dinheiro. Porm, as leis das probabilidades indicavam que ela estava no limiar da falncia perante a prova escolhida. 
Na arrumao ela sempre exagerava e sua me contribua. Tudo tinha que ser do mais caro e do melhor. Ao meio-dia em ponto o avio de Londres chegou em famoso aeroporto 
de So Paulo. Foi com alegria que Rmulo, Cristiano e Laura pisaram o solo brasileiro. Cada um fez a exclamao que pde, enquanto abraavam Flvio, Anita e Alexandra.
No caminho para casa, j no luxuoso carro de Flvio, Cristiano brincou:
- Vejam como a vida  irnica. O Flvio disse que logo eu e Laura estaramos casados, e quem foram os apressadinhos? Quem foi que marcou a data de casamento com 
apenas seis meses de namoro?
Flvio, respondendo disse:
- Foi isso mesmo, para que adiar a felicidade? Anita  a mulher da minha vida, tenho certeza disso, ento para que esperar?
Rmulo falou:
- Fico muito feliz em deixar minha filha em suas mos, sei que ela ser muito feliz, sua alma  muito nobre.
- Nobre s Jesus o foi integralmente, todos ns ainda estamos longe da nobreza. Qualquer qualidade que tenhamos neste mundo ainda  muito problemtica. Tenho horror 
 fama de santidade!
- Desculpe Flvio, no quis lhe causar aborrecimentos, porm sou verdadeiro, falo o que sinto, e sei que sua alma  muito elevada.
- Bondade sua amigo, voc  que deve ser muito bom para me enxergar assim.
Eles chegaram em casa. A cada palavra dita por Flvio, Anita sentia-se privilegiada. Que homem sbio! Que homem perfeito! Pensava ela perdida em fantasias. Ela ignorava 
que por mais que uma pessoa tenha certo magnetismo que nos impressione, jamais  perfeita ou maravilhosa.  apenas um ser humano com qualidades e defeitos. A adorao, 
o culto e o endeusamento excessivos revelam falta de discernimento espiritual. Quando essa pessoa comete falhas, nossa iluso cai por terra, e assim percebemos se 
a amamos realmente ou se estvamos apenas vivendo atravs de uma projeo feita por nossa mente quase sempre invigilante. O casamento se deu com muita pompa, bem 
ao gosto de Anita. A mais fina sociedade foi convidada, uma vez que os pais da noiva, j conhecidos em So Paulo, gozavam a fama de serem milionrios no exterior. 
Havia muita fartura, msica, beleza e a festa foi muito elogiada. Os noivos receberam os cumprimentos e depois partiram em lua-de-mel que seria num chal em Angra 
dos Reis, a contragosto de Anita, que queria conhecer alguns pases da Europa. Passados os primeiros dias, Anita chamou Flvio e disse:
- Gostaria que voc explicasse o porqu daquela gafe na festa de nosso casamento.
Ele assustou-se e perguntou:
- Qual gafe?
- Ora, voc ter interrompido os cumprimentos dos convidados para anunciar esse tal curso que ir realizar com os espritos. Fiquei passada!
Flvio, que jamais esperava isso dela, disse:
- Ora amor, no foi gafe nenhuma. Apenas aproveitei a ocasio para anunciar o incio dos meus trabalhos, havia muita gente e senti que era uma tima oportunidade.
- Muita gente catlica, voc quer dizer? Aquelas pessoas jamais vo se interessar por nada que diga respeito a espritos, almas de outro mundo, coisas do tipo, pois 
voc ter todo o tempo do mundo para fazer isso.
Flvio olhou srio para ela e disse:
- No desejo que nosso casamento comece assim. A amo muito e pensei que estava de acordo com minhas idias, alis, expus todas elas pra voc assim que nos conhecemos. 
Tenho uma misso delicada para realizar em So Paulo e sei que h um grupo de evoluo me esperando, aguardando a espiritualidade se manifestar atravs de mim. Tenho 
certeza de que as pessoas vo se interessar. Alis, na nossa festa no mencionei nada com espritos, apenas falei da cincia mentalista e da metafsica. H algo 
de mal nisso? Ela contemporizou:
- No, meu bem,  que apenas no achei o momento apropriado...
Ele captou sua energia facilmente e respondeu:
- Olhe Anita, sei que voc pensa que com o tempo vai me controlar, mandar em minha vida e coisas do tipo, mas eu quero que saiba que comigo no vai conseguir. Sou 
um esprito livre e independente. O casamento  apenas o desejo de duas pessoas que se amam e que querem viver juntas, formar uma famlia. Casamento, alianas, podem 
emocionar, levar lgrimas aos olhos, porm no  uma priso, uma algema. Quem ama liberta e no aprisiona.
Ela ficou calada durante alguns segundos, depois o abraou:
- Desculpe-me amor, prometo que o aceitarei como . Jamais poderia viver sem voc!
- Cuidado com isso, a dependncia escraviza e enfraquece. Nada nesse mundo  to seguro quanto imaginamos. A vida  surpreendente e as coisas podem mudar a qualquer 
momento. Cada um tem um caminho para evoluir. De fato a nica coisa segura nesse mundo  a mudana que renova.
- Est querendo me deixar? Apenas uma semana de casado e j fala em separao?
- No me interprete mal. No estou dizendo que vamos nos separar, eu no desejo isso. Porm o futuro tem suas leis e pode traar outros caminhos, novos rumos para 
as pessoas. O bom mesmo  viver o presente sem perspectiva de amanh, fazer do hoje o nico momento de felicidade. S se pode ser feliz agora, nunca no passado ou 
futuro, pois o futuro sempre  presente e o passado j est morto.
Anita estava embevecida. Ela havia criado em Flvio uma aura de santidade que a fazia tecer os sonhos mais apaixonados. Se um dia o perdesse no saberia como viver. 
Aps ouvir as ltimas palavras do marido ela o encheu de beijos e o arrastou ao quarto onde continuaram aproveitando os bons momentos da lua-de-mel.
- Precisamos partir - avisava Alexandra a Francisca durante o ch das cinco.
- Ah, j to cedo?
- Isso mesmo, no vamos nem esperar Anita voltar da lua-de-mel. O Cristiano e a Laura j partiram e ns temos nossos negcios na Inglaterra. Infelizmente Francisca, 
nossa temporada de frias terminou.
O marido tomando ch com bolachas concordou:
-  isso mesmo, j estou a uma semana longe dos negcios e, sabe como , empresrio nem sempre pode se dar ao luxo de frias em qualquer poca do ano.
Francisca concordou:
- Compreendo. Minha confeco  relativamente pequena e eu j me vejo sem tempo, imagine voc com uma empresa to grande. Na verdade eu  que gostaria de t-los 
mais em minha companhia.
- Imagine! Ns  que estamos encantados com voc, com sua casa deliciosa... Hoje sei o quanto o Flvio foi feliz aqui - disse Alexandra feliz.
- Ele sofreu muito, afinal tinha acabado de perder os pais e a irm. Porm esse menino  muito forte, venceu tudo, soube se fazer l fora, acredito que ter muita 
sorte aqui.
Nessa hora Rmulo perguntou:
- Acredita mesmo que essa histria de espritos, mediunidade, mundo espiritual, pode dar algum lucro? Sei que o meu genro tem muito dinheiro, mas um dia esse dinheiro 
acaba e a, como vai viver com minha filha?
Francisca esclareceu:
- Voc est equivocado! O trabalho com a espiritualidade  muito srio e jamais pode ser cobrado. Flvio  um mdium de incorporao muito ostensivo, veio programado 
para trabalhar em desobsesso e por isso no cobrar um centavo. O dinheiro que ele ganhar vir dos cursos sobre mentalismo e metafsica, cincias que ele aprendeu 
nos Estados Unidos.
Rmulo estava incrdulo:
- Nunca interferi nas idias do Flvio, mas intimamente acredito que ele no ter retorno. Est investindo muito alto, num prdio grande... As pessoas no do muita 
importncia a tais coisas, esses modismos s do certo l para os americanos, os brasileiros no daro valor - falou muito seguro de si.
- No diga isso! - interveio Francisca. - As pessoas esto cansadas de sofrer e buscam meios alternativos para alcanar a felicidade. E num mundo onde cada um  
um e no existem duas pessoas iguais, ao invs de procurar sua prpria essncia e seguir sua vocao, a maioria tenta se encaixar nos modelos sociais com medo de 
no ser aceita. E fingem felicidade quando esto amargas por dentro, aparentam sabedoria, inteligncia, intelectualidade quando no sabem entender nem a si prprias. 
 a que Flvio, auxiliado pelos espritos de luz, tem muito que ensinar. O mundo espiritual tem feito o possvel para esclarecer as pessoas enviando profetas, mdiuns 
conscientes, que inspiram a prtica do bem. Acredito que meu sobrinho ter todo o sucesso que merece.
Rmulo sorriu ao dizer:
- Vejo que j foi catequizada pelo Flvio.
- Com certeza. Tudo o que meu sobrinho diz pode ser comprovado pela vida, pela prtica do dia-a-dia.
A viagem do casal se deu no dia seguinte. Mais uma vez no aeroporto, ao se despedir, Francisca rezou para que eles fizessem uma boa viagem. Aps um ms de lua-de-mel 
Anita e Flvio regressaram a So Paulo. Francisca, mesmo atarefada, cuidou da bela casa que ambos adquiriram num bairro prximo ao local escolhido por Flvio, para 
ser o Centro onde desenvolveria seus trabalhos. Anita escolheu tudo com muito cuidado e dedicao, sua casa seria um verdadeiro santurio, tendo Flvio como seu 
dolo. Tentou agradar o marido em casa para que ele se sentisse feliz. Ao fazer isso ela se anulou totalmente, abdicando de suas preferncias para agrad-lo. As 
obras no Centro ainda estavam em andamento, porm Flvio fazia questo de acompanhar tudo de perto. A fachada do prdio era grande e nela havia escrito "Centro de 
Estudos Espirituais Luz no Caminho". Naquela tarde, aps examinar os trabalhos dos operrios no Centro, Flvio chegou em casa cansado. Ao abrir o porto, admirou 
mais uma vez  beleza do jardim que circundava a casa. Era sempre assim, ele no conseguia penetrar o recinto se no admirasse as roseiras, as dlias, os cravos 
e todas as flores e plantas que havia no seu jardim. Cruzou a porta central da casa e no viu ningum. Na luxuosa sala, ricamente mobiliada, s havia Roslia retirando 
o pouco p que havia no carrilho.
- J falei que no precisa se esmerar tanto, h essa hora aposto que j tirou o p desta sala umas quatro vezes - disse Flvio dirigindo-se a ela.
Assustada Roslia respondeu:
-  que dona Anita assim exige, diz que o p deve ser retirado cinco vezes ao dia.
Ele beijou a senhora j um pouco idosa e respondeu:
- Pois diga  dona Anita que no precisa tanta coisa assim, por hoje est bom, j pode descansar, cad sua patroa?
- Chegou toda misteriosa da rua, telefonou muito e depois foi para o quarto, disse que assim que o senhor chegasse era para encontr-la l.
- Nossa! O que ser que a minha senhora tem assim de to importante para falar comigo? - disse num gracejo.
- No sei, mas parece que  coisa sria.
Ele subiu a escadaria que dava para grande corredor. Era uma casa grande, que pensava em povo-la de filhos seus com Anita; queria uns seis. Quando dizia isso  
esposa ela no gostava, achava demais. Porm, no ntimo ela sentia que por Flvio faria tudo, at se sacrificar no tormento que seriam tantas gestaes. O quarto 
do casal era o maior da manso. Todos os quartos tinham sacada que dava para o jardim. Ao entrar no recinto ele encontrou Anita deitada na cama fazendo pose, trajando 
belssimo vestido azul. Ele estranhou, a esposa no costumava se arrumar tanto sem que fosse a alguma festa importante. Olhou para ela e se emocionou com o que viu. 
Um fio tnue cor de prata estava ligado ao ventre de Anita, ele comeou a chorar, correu e abraou a esposa. Ela percebendo que o marido, com sua mediunidade j 
havia percebido, sussurrou-lhe ao ouvido:
-  isso mesmo meu amor, estou grvida.  a primeira criatura que vem atravs de ns.
- Sei disso querida, nosso lar foi bafejado pela bno da maternidade. Que Deus te proteja nessa linda fase.
Eles comearam a se beijar repetidas vezes e logo depois entregaram-se ao amor que sentiam um pelo outro. Na cidade astral Campo da Redeno Carlota, Noel e Hilrio 
juntamente com um grupo de tcnicos estavam em sria reunio. Carlota perguntava:
- No  arriscada uma interveno desta maneira?
Hilrio explicava:
- Toda reencarnao  prevista e aprovada pelo Criador, portanto tem sempre condies de dar certo. Contudo, todos tm livre-arbtrio. O que as pessoas fazem comprometendo 
a prpria reencarnao  de responsabilidade apenas delas. Anita est com seis semanas de gestao, por enquanto o feto est sendo mantido por espritos superiores, 
porm em breve o esprito de Camila se ligar a ele, renascendo no lar de Flvio. Essa ser a chance de Camila santificar a antiga paixo que sente por ele. Vendo-o 
como pai e aprendendo a am-lo respeitosamente ter a chance de sublimar esse sentimento.
Noel interveio:
- Entendo a preocupao de Carlota, tambm a tenho. Temo que Camila, uma vez reencarnada, volte a sentir a mesma paixo pelo ser que ento ser seu pai. No sabendo 
gerir esse sentimento talvez cometa erros gravssimos.
Um dos tcnicos chamado Aramis respondeu:
- As reencarnaes s ocorrem quando aprovadas por plano superior. Soubemos por mentor mais avanado que a hora  esta. Se assim , Camila j tem a chance de vencer 
a sua prova. Se vier a falir  por sua prpria escolha e por no dar o melhor de si.
Houve um silncio, Hilrio interrompeu:
- Creio estar encerrada a nossa reunio. A equipe de Aramis continuar a cuidar do feto que receber Camila. Noel e Carlota devero dar sustentao  famlia e apoiar 
mais uma vez Anita. Ela est muito feliz, porm sua gestao ser complicada. Quando o esprito de sua rival entrar em contato com seu campo vibratrio, ela entrar 
em depresso, comear a evitar Flvio, na tentativa inconsciente de afastar Camila de seu grande amor. Teremos muito trabalho, porm as bnos de Deus jamais nos 
desamparam. Vo com Jesus e que ele possa sempre estar do seu lado. A reunio encerrou-se. Noel e Carlota saram pela praa principal ainda pensativos com tudo que 
ouviram. Juntaram-se a um grupo de pessoas que estava num banco e comearam um gostoso bate-papo.
17  PRELDIO DA VOLTA

No dia imediato, Hilrio novamente chamou Noel e Carlota  sua sala. Ao chegarem, ele os convidou para assistirem Camila em seus ltimos momentos na Cidade do Desterro. 
Um monitor foi ligado e logo eles puderam ver o ambiente onde estava Camila. Na sala de Jorge ela dizia:
-  isso mesmo Jorge, h alguns dias estou sentindo uma sensao estranha, sinto-me inquieta, no consigo trabalhar na confeco das roupas, nem mesmo bater um papo 
com minha amiga Ester.
Jorge pareceu observ-la no mais fundo dos seus sentimentos e disse:
- Suas idas  crosta no tm resolvido esse problema? Geralmente, quando sugamos as energias das pessoas invigilantes e viciadas nos sentimos muito melhor.
Ela, muito melanclica, respondeu:
- Nem isso mais me anima. No vou  crosta h quinze dias. Sinto-me sem vigor, parece que algo muito grave vai acontecer comigo.
Jorge j conhecia aqueles sintomas. Era sempre assim, muitas vezes seus sditos se sentiram depressivos, com vazio interior, demonstravam arrependimento pelos atos 
cometidos e desejo de melhorar. s vezes ele os mandava para a priso e os castigava "fisicamente" machucando-os, o que resolvia a questo. Uma boa surra e uma palestra 
sobre as maldades do mundo eram suficientes para demover alguns dos bons intentos. Porm, para outros nem isso mesmo adiantava, eles ficavam estranhos, dizendo que 
algo de muito srio estava para acontecer e que eles no sabiam definir o qu. Pouco tempo depois eles desapareciam misteriosamente. Ningum os encontrava em lugar 
algum. Tefilo, seu amigo, explicou:
- Isso tudo  culpa dos seres da luz. Quando eles percebem que algum do nosso lado precisa reencarnar, fazem tudo direitinho, invadem nossas cidades e os levam. 
No adianta montar guarda, eles entram imperceptveis ao nosso olhar, driblam nossos melhores guardas e levam quem desejam. Infelizmente amigo, ainda temos essas 
limitaes que com o tempo venceremos. Chegar a hora que nenhum servo do bem entrar aqui ou l no Desterro sem nossa autorizao. Veja como os filhos do Cordeiro 
so ousados, fazem o querem conosco e ainda saem vitoriosos. Mas tenho a esperana de que um dia o mal vencer o bem definitivamente.
Relembrando esse dilogo, Jorge achou que Camila estava prestes ao reencarne. No mandaria castig-la, apenas disse:
- Aconselho-a distrair-se na crosta. Chame Ester e v passear, sugar as libaes do lcool, do cigarro e de outros vcios sempre faz bem. Tenho observado, voc nunca 
mais fez maldade alguma. Depois que virou produtora de roupas, deixou de lado as prticas do nosso magnetismo. Acho que errei quando h deixei tanto tempo fora do 
servio.
Ela perguntou:
- Acha mesmo que se voltar a trabalhar na produo de magnetismo ficarei boa?
- Por enquanto v com Ester na Terra e divirta-se um pouco, se no melhorar ter que voltar  prtica do mal.
Camila saiu em busca de Ester, foi encontr-la em sua residncia. Era uma casa de aspecto feio e sujo. As paredes eram pintadas de um rosa encardido. Ester abriu 
a porta e com satisfao viu que era a amiga:
- Que bom que veio, estava j entediada aqui sem meus filhos.
- Para onde foram Malaquias e Roque?
Ela, passando um pente sujo nos cabelos louros e crespos, respondeu:
- Esto em misso na Terra. No Tribunal da Justia Jorge decidiu que um homem na Terra deve morrer numa briga de bar. Meus filhos foram para esse bar inspirar o 
algoz do homem a assassin-lo friamente.
Camila, com rosto de quem ouve algo corriqueiro, disse:
- Ah, pensei que fosse algo srio! Vim aqui falar de mim. Sabe amiga, no estou mais me sentindo feliz como antes, alis, aqui nunca senti alegria ou felicidade.
Ester retorquiu:
- Voc sabe que a felicidade no existe, nascemos para sofrer mesmo! O que espera da vida? Vocs jovens tm tanta iluso! Devemos agradecer a Jorge a chance de estarmos 
aqui, e vivermos com ele, que  to inteligente.
- Voc sabe que comecei a duvidar da inteligncia dele?
A outra ficou chocada:
- Como assim?
- Fui contar o meu estado, mas parece que ele no sabe o que tenho. Foi curto nas palavras e pareceu estar me escondendo alguma coisa sria. Depois mandou eu ir 
a Terra gozar com voc dos prazeres e s.
Ester defendeu Jorge:
- No diga jamais que o Jorge no  inteligente. Vivo com ele h mais de 80 anos e nunca o vi errar. Talvez voc no deva saber de alguma coisa, deve ser isso.
- Mas o qu? Sinto que algo terrvel ocorrer comigo, parece que a Terra est me puxando. Sinto que em breve passarei longo perodo por l.
- No diga besteiras, isso s poder acontecer se voc desobedecer ao Jorge e ele a expulsar daqui.
Ela pareceu concordar:
- , talvez seja impresso boba mesmo. Agora vamos a Terra?
- Vamos sim, l nos divertiremos e voc espantar todos esses fantasmas.
Elas seguiram para a crosta e logo estavam numa rua na periferia de So Paulo. Era uma rua pobre, mas tinha um movimentado barzinho. Elas se aproximaram e l encontraram 
vrias entidades iguais a elas. Era manh, porm j havia jovens e adultos no vcio do lcool. Um dos jovens dizia:
- Galera, hoje o reggae aqui ser da pesada. A turma l da Rua 15 vem e vamos mandar bala nela.
Os outros jovens se animaram e comearam a gritar. Era um grupo de no mximo oito adolescentes e quatro adultos. Eles se referiam a outro grupo que chegaria para 
beber com eles e nos fundos do bar fazerem uma orgia. Alugavam esse quarto contguo para praticarem a sexualidade irresponsvel e o uso de drogas. Camila e Ester 
ficaram l at a noite quando o referido grupo chegou. Ester, loucamente se colou a uma jovem e comeou a saborear deliciosa bebida. Camila fez o mesmo. Quando saram 
de l estavam cansadas por tudo o que  vivenciaram. Era madrugada e cada uma foi para sua casa. Camila ainda embriagada preparava-se para dormir quando de repente 
viu uma forte luz invadir seu quarto. Tentou abrir os olhos, o que conseguiu aps muito esforo. A luz era forte e ofuscava sua viso. Vislumbrou um senhor de mais 
ou menos 60 anos que a olhava com profundidade. Perguntou:
- O que o senhor deseja? O que quer de mim? Nunca o vi aqui no Desterro,  morador novo?
Ele pareceu no ouvir e disse:
- Chegou sua hora minha filha. A o tempo de plantar e o tempo de colher. Acompanhe-me.
Ela assustada, porm confiante naquele homem disse:
- Vai me levar daqui? Mas eu no... Eu no posso sair, o Jorge me encontraria onde quer que eu fosse. O senhor no deve saber, mas aqui vivemos como escravos, h 
um tribunal onde ele julga as pessoas. Temo sofrer; para onde quer me levar?
Ele, muito sereno, explicou:
- Somos escravos apenas das nossas atitudes e pensamentos. Enquanto no os modificarmos no bem continuaremos a sofrer. Voc est escrava por causa de suas iluses, 
pensa que pode ser dona da vida e das pessoas. Acredita poder mandar e pensa que s o mal tem poder. Quanta iluso! S o bem  verdadeiro, o mal s existe para quem 
acredita nele. A partir de agora dever ceder e vir comigo. O tempo urge e voc dever reencarnar em questo de poucos meses.
Ela abriu os olhos aparentando pavor e disse:
- Reencarnar? Quer dizer que isso  real, existe mesmo?
- Esse  um dos processos mais naturais da vida e voc j passou por ele inmeras vezes. Agora acompanhe-me.
Ela relutou:
- No podemos sair daqui. H guardas por toda a cidade. Alis, como voc entrou aqui sem ser visto? Se algum souber que est em minha casa seremos severamente punidos.
Ele sem se perturbar revelou:
- Me chamo Hilrio e moro numa cidade acima desta faixa chamada Campo da Redeno.  l que viver at renascer na Terra. Se aceitar, poderemos sair daqui sem que 
ningum nos veja. Pela manipulao de certos fluidos podemos passar despercebidos pelo olhar de qualquer pessoa que vive aqui.
Ela parou, pensou um pouco, e disse:
- No, no posso! Aqui sou livre, fao o que quero. Ouo dizer que nessas outras cidades tudo  limitado, no se pode fazer o quer. Alis, vocs vo querer colocar 
em minha cabea que o bem  bom, que praticar caridade d alegria e nessas coisas eu no acredito. Alm do que, estou interessada em separar um casal na Terra. S 
seguirei com voc se prometer que vai separar Flvio de Anita. O Jorge disse que no tem poder para interferir nessa relao, mas se voc tiver vou com voc. Hilrio 
disse:
- Flvio e Anita esto unidos pelos laos do amor. Casais assim no se separam com facilidade, ningum interfere num lar onde existe amor verdadeiro. S o prprio 
casal na sua intimidade pode optar pela separao, que nesses casos ocorre sem maiores transtornos. Quem ama libera e d plenitude ao ser amado para que ele se expresse 
e seja como . No acha que o que chama de amor  apenas paixo?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- No, eu amo o Flvio mais que tudo! No suporto saber que me traiu e casou com outra.
Hilrio jogou sua ltima cartada:
- No podemos ajud-la nesse plano, porm posso garantir que se seguir comigo lhe colocarei frente a frente com seu amor. Garanto que aqui com o Jorge isso nunca 
acontecer.
Ela encheu os olhos de lgrimas e perguntou meio desconfiada:
- Promete mesmo? Jura que verei o Flvio, o beijarei, o abraarei?
- Sim, ento vamos?
Ele abriu os braos e ela o abraou. Uma energia leitosa e branca os envolveu e eles saram andando pela tenebrosa cidade. Os guardas pareciam distrados e nada 
perceberam, algumas pessoas tambm passeavam durante a madrugada, mas no viram nem Hilrio nem Camila. Depois de andarem alguns metros ele enlaou-a pela cintura 
e assim volitaram para a cidade referida. Pararam na frente de imenso muro e pesado porto de ferro. A sua esquerda estava escrito Colnia de recuperao Campo da 
Redeno. Hilrio introduziu uma espcie de carto magntico, esperou alguns segundos e um painel se abriu num compartimento do muro. Ele colocou a mo aberta sobre 
o compartimento e o painel se iluminou. Camila percebeu que o painel registrou todas as impresses digitais de Hilrio. Logo depois o porto se abriu e eles entraram. 
Camila estava estupefata com o que via. Imensos jardins floridos e verdes, bancos de madeira onde pessoas apesar da madrugada ainda conversavam. Eles andaram um 
pouco mais. Agora pisavam em rua com calamento. De onde estava, ela via conjuntos de casas aos milhares perdendo-se de vista. Era tudo muito bonito, limpo e organizado. 
Carlota vinha chegando com seu sorriso, abraou-a e curioso fenmeno aconteceu: as roupas que Camila usava mudaram de aspecto. Extico vestido amarelo-claro surgiu, 
liso e vaporoso.
- No se assuste amiga, aqui a maioria das roupas  plasmada na hora pela fora do nosso pensamento. Vamos? O autobus nos espera.
Camila olhou para Hilrio:
- O senhor no vai comigo? Vai me deixar aqui com essa estranha?
Hilrio sorriu:
- O prdio onde resido  prximo da sua casa, durma, amanh lhe farei uma visita e conversaremos melhor.
Meio desconfiada Camila seguiu Carlota. Quanto mais andava mais se admirava com a beleza da cidade, a organizao e a limpeza. Chegaram em um nibus um pouco diferente 
dos vistos na Terra. Entraram. Carlota sentou do lado da nova amiga e perguntou:
- Para onde estamos indo? Estou com medo e confusa.
Carlota disse:
- Esse autobus nos levar ao Conjunto Harmonia, onde graciosa casa a espera. Eu mesma, junto com Jane e Noel preparamos para voc. Espero que esteja do seu gosto.
- Olha, para falar a verdade, estou muito desconfiada de vocs. No sei se voc sabe, mas nunca usaram a bondade para comigo, at minha me foi falsa. Por isso sei 
que vocs vo querer algo em troca. Sei no, uma casa pronta, roupas bonitas... O que quer de mim?
Carlota sorriu:
- No seja injusta, voc recebeu muita bondade quando estava na Terra, apenas preferiu olhar tudo pelo lado negativo. Teve um pai que a amou profundamente, uma vida 
boa e confortvel, Flvio que a amou e Rafael tambm. Por que  to ingrata?
Ela surpreendeu-se, nunca havia parado para pensar daquela forma.
- E as injustias que recebi?
- Cada um recebe de acordo com o que irradia. Suas crenas e pensamentos foram os responsveis por tudo o que vivenciou. A vida  maravilhosa, os seres encarnados 
 que invertem tudo.
- Quer dizer que o aborto que minha me me fez, o fato de ter perdido Rafael e morrido em plena juventude foi culpa minha? No consigo entender.
- Em breve saber como atraiu tudo isso em sua vida. Agora fique atenta, chegamos ao nosso destino.
A viagem no durou nem dez minutos. Elas desceram e Camila se encantou com a bela casinha que haviam lhe reservado. Era pequena, porm graciosa. Um hall na entrada 
e pequeno jardim. Por dentro era iluminada e tinha uma sala, um quarto, um banheiro e um cmodo para refeies. Ela estava encantada. Carlota se despediu e ela entrou 
no quarto. Era muito simples com janela, guarda-roupas, criado-mudo e um espelho. Olhou-se admirada: seu rosto estava sem a pesada maquiagem que costumava usar. 
Onde estava seu estojo? Abriu o guarda-roupas e no o encontrou, porm l havia muitas roupas de vrios estilos. Sobre o criado-mudo havia uma bandeja com suco e 
pes. Ela comeu e logo depois um torpor a invadiu. Na cama, rapidamente adormeceu. Hilrio via tudo pelo monitor, juntamente com Carlota, e disse:
- Certamente, amanh ser um dia de desafios para ela. Descobrir seu passado, saber como atraiu tudo o que vivenciou sobre a Terra e talvez se revolte. Mas a compreenso 
e o amor divino a estaro amparando.
- Ela ter que enfrentar a prpria realidade para poder partir segura, tentando vencer a paixo que ainda sente pelo Henrique; j sofreu muito por esse amor desenfreado.
- No s ela como tambm Anita, que saiu muito prejudicada da ltima vez.
- Vamos orar, pedindo a Deus por todos, s com a fora Dele conseguiro vencer.
O grandioso salo estava iluminado e preparado para a primeira palestra. A reforma durou o tempo necessrio e no houve atrasos, tudo saiu como Flvio desejou. Na 
frente do grande palco havia 300 cadeiras, todas numeradas. A noite estava agradvel e Flvio alegre percebeu que a maioria dos convidados estava presente. Francisca, 
ansiosa para comear a aprender, estava na cadeira nmero 1 ao lado de Anita, que agora mais do que nunca considerava o marido uma estrela. Flvio, muito organizado, 
havia enviado convites para todos os centros espritas, casas comerciais, colgios, pessoas conhecidas da famlia e outras tantas que poderiam se interessar pelo 
evento. Nele estava escrito: O Centro de Estudos Espirituais Luz no Caminho convida voc para uma palestra onde assuntos como auto-ajuda, espiritualidade, amor-prprio 
e mudana interior sero tratados. Voc ter a partir de hoje um lugar para buscar uma vida melhor com orientao espiritual de terapeutas e mdiuns capacitados. 
No perca nossa palestra inaugural. Muita paz, do amigoFlvio de MenezesTudo foi feito com muito carinho e assim o resultado foi o esperado. O espao reservado 
lotou. A cortina se abriu e Flvio apareceu. Muito feliz e concentrado ele comeou:
- Queridos amigos, hoje  o dia mais feliz de minha vida. Juntos nesta casa, estudaremos os valores eternos do esprito, trabalhando em favor do nosso progresso 
espiritual. Vejo a luz que cada um irradia e sinto a nsia e a necessidade de aprender para construir uma vida melhor e conquistar a felicidade. Vamos comear perguntando:
- Como andam suas mentes? Quais so seus pensamentos habituais? Como est sua vida? Voc  feliz? A resposta da maioria ser negativa, e no  difcil perceber isto. 
Basta parar, olhar em volta para ver a quantidade de amigos, parentes, vizinhos, com problemas dos mais variados:  a queixa de que a sade no anda boa, de que 
a vida afetiva est um fracasso, que o dinheiro  escasso, que as pessoas so falsas, etc. Vocs mesmos que esto ouvindo agora estas palavras no esto felizes. 
Se estiverem, parabns, vocs souberam apertar os botes certos e suas vidas esto seguindo o rumo das realizaes. Porm, o que mais se v so pessoas com problemas. 
Os consultrios psiquitricos e psicolgicos andam cheios de criaturas querendo sair do crculo horrvel do negativismo onde elas se colocaram.  claro que foram 
elas! Somos responsveis por tudo quanto nos acontece. No h nada em nossa vida que no tenha estado primeiro em nossa mente e em nosso corao, de uma forma ou 
de outra.
- O sbio Juvenal disse: "Mente s corpo so, mente doente corpo doente". Com toda certeza esta sabedoria demonstra sua verdade. No h nada pior do que uma cabea 
ociosa e vazia. Vazia de idias boas, vazia de alegria, vazia de aventura, vazia de divertimento, vazia de sabedoria. Nosso demnio interior e os demnios exteriores 
comeam a trabalhar de forma sorrateira e vamos perdendo dia aps dia a alegria de viver. Quando vocs virem uma pessoa desanimada, frustrada, sem vida ou cometendo 
absurdos, pode ter certeza: ela est com a cabea vazia de bons pensamentos, mas ocupadas com idias negativas. Vocs podem protestar e dizer: " mentira! Eu trabalho, 
estudo, corro feito um condenado, minha mente  muito ocupada, mesmo assim ando to pra baixo..."  claro que anda e vai continuar a andar, piorando a cada dia. 
 que as pessoas cultivam a iluso de que o trabalho, o estudo, a vida agitada e corrida preenchem o vazio interior. Cedo ou tarde percebero que esto enganadas. 
 claro que essas coisas so importantes, mas o alimento que preenche a alma  outro, e ele no  encontrado nas coisas exteriores. As estatsticas revelam que o 
suicdio, a depresso, o vazio interior acontecem em todas as classes sociais, mostrando claramente que a condio financeira  o fator menos importante. Acontece 
com as pessoas empregadas e com as desempregadas, mostrando tambm que a falta da ocupao externa no  a causa.
- Vamos procurar entender: No estou querendo dizer que o trabalho de nada vale,  claro que ele  importante. Quando se est bem, alegre e feliz, o trabalho rende 
e  uma maravilha, nossa produo aumenta, atramos energias astrais que intensificam nosso entusiasmo e nem vemos a hora passar. O contrrio se d quando estamos 
de mal com a vida. Se pudssemos nem levantvamos da cama, trabalhar ento? Nem pensar! Voc j observou quando um funcionrio trabalha com problemas? H irritao, 
nervosismo, preguia... Acontece o mesmo com o estudo. Se estivermos de bem com a vida, estudaremos felizes e realmente aprenderemos. Se estivermos mal, de nada 
valer o estudo. No se iluda procurando fora de voc solues para seus problemas. Tudo o que voc precisa para ser feliz est dentro da sua alma.
- Preencham suas cabeas de forma verdadeira e jamais sentiro vazio. Mas, o que vem a ser o verdadeiro preenchimento?  viver de acordo com a sua natureza mais 
profunda, valorizando seus sentimentos, ficando no bem. Vocs tm a vida ntima que gostariam de ter? Sua vida amorosa, familiar e sexual est como pede seu corao? 
Vocs se conhecem o suficiente para saber o que realmente querem da vida? Suas amizades so aquelas que satisfazem seu esprito? Seu sim  sempre sim e o no sempre 
no? Vocs j descobriram sua verdadeira vocao? Vocs se aceitam integralmente como so? Aceitam seus defeitos com naturalidade buscando melhorar e reconhecer 
suas qualidades? J aprenderam a aceitar o ser humano que h em cada pessoa que convive com vocs? Deixaram de criticar, de ter complexos de superioridade e de inferioridade? 
Aceitam que a vida  livre e incontrolvel e j sabem se adaptar aos seus ciclos? J baniram por completo a inveja de seus coraes? Deixaram de desejar o mal ao 
prximo? J perceberam que vocs no so melhores nem piores que ningum?
- Se responderem no a apenas um destes itens, fica claro que  preciso mudar. Ocupar a mente com coisas positivas. Descobrir seu mundo interior onde Deus colocou 
todas as respostas mostrando o caminho para seu progresso espiritual. Cumprir sua funo na Terra, trabalhando, estudando, cuidando da famlia, do progresso do planeta 
 um dever para com a vida, que nos d a oportunidade de aprender aqui. O dever cumprido nos ajuda a encontrar a paz. Mas a realizao do nosso esprito, a conquista 
da felicidade est dentro de ns, no desenvolvimento de nossos potenciais e na maturidade do nosso esprito.
- Se voc quer a felicidade ter que conquist-la passo a passo, aprendendo a lidar de forma adequada com todas as situaes da vida. Nesse processo, cada um  um 
e o que serve para mim, talvez no sirva para voc. Entre dentro de voc e tente descobrir como conquistar a sua felicidade e nesta casa, juntos, auxiliados pelos 
amigos espirituais, vamos procurar encontrar o prprio caminho.
Assim que a palestra acabou Flvio deu avisos importantes. Falou que o Centro funcionaria todos os dias da semana ficando as segundas-feiras para o tratamento de 
desobsesso, as teras para as palestras educativas e de auto-ajuda gratuitas, as quartas para o curso de educao medinica. Nas quintas-feiras haveria o curso 
pago com o ttulo "Prosperidade", sexta e sbado seria outro curso o "Poder da Mente e Metafsica" e um domingo por ms haveria o curso tambm pago sobre "Sade 
e Doena". Ele tambm avisou que todos os interessados deveriam passar na portaria, dar seu nome e endereo, confirmando os preos de cada curso. Os nomes das pessoas 
em estado de obsesso seriam colocados por uma secretria numa agenda, e Flvio submeteria cada nome  consulta com os guias espirituais, para saber se o tratamento 
seria a distncia ou com o paciente no prprio Centro. Explicou tambm que cada caso  um caso e que s os mentores de elevada hierarquia dariam a ltima palavra 
no tratamento. Terminou dizendo que a desobsesso s segundas-feiras seria fechada e iniciaria as oito em ponto, mesmo assim a equipe treinada e disciplinada atenderia 
os casos especiais que necessitassem de socorro urgente. Essas pessoas devem chegar ao Centro quinze minutos antes de a porta fechar.Agradecendo a presena de todos, 
Flvio encerrou a reunio. Em seguida, foi rodeado por muitas pessoas que satisfeitas, foram cumpriment-lo. Naquele dia, Flvio sentiu que finalmente estava exercendo 
sua vocao, fazendo um trabalho que lhe dava imensa realizao interior.

18 - AJUDANDO O CU

No Centro de Estudos que Flvio dirigia com carinho e amor realmente prosperou. A princpio poucas pessoas freqentavam seus cursos, porm com o passar do tempo 
a freqncia foi aumentando para a felicidade dele. Poder passar tudo o que havia aprendido com os mestres era um prazer indescritvel. Agora entendia por que no 
se dava bem com os trabalhos que fazia,  que sua real vocao, seu real desejo ainda no tinham se tornado claros para ele. A renda de seus cursos a princpio era 
mnima, todavia ele no desanimava. Porm, o trabalho que mais lhe dava prazer era a desobsesso. Apesar de no ser num Centro Esprita propriamente dito, esse trabalho 
vinha dando frutos, principalmente no seu prprio lar, onde terrvel processo se instalou. No terceiro ms de gravidez, Anita comeou a se sentir muito mal. Desmaiava 
e demorava a acordar. Os mdicos tranqilizavam Flvio, dizendo se tratar de sintoma passageiro, j que ela no tinha nenhum problema fsico. Realmente passou. Anita 
no desmaiou mais, porm estranha sensao a acometeu. Passou a rejeitar o marido e a sentir raiva dele. Ela que sempre fora amorosa estava transformada, evitava 
qualquer contato com ele por mnimo que fosse. Tudo aconteceu muito rpido. Camila se adaptou facilmente  nova vida com os amigos Noel, Carlota e Hilrio. Todos 
os dias cobrava a promessa que lhe fizeram: veria Flvio e poderia at abra-lo. Assim foi feito. Saindo do corpo ele viu Hilrio  sua frente.
- Flvio, h uma pessoa que te ama muito e precisa te ver. Embora no esteja autorizada a falar muitas coisas, se contenta apenas com um abrao terno e amoroso vindo 
de voc.
Flvio pensou por alguns instantes e disse:
- Ser quem eu estou pensando? Ser Camila? Nesses seis anos de desencarnada nunca consegui obter nenhuma informao sobre ela. Por qu?
- Voc sabe que nem todas as informaes do plano espiritual podem ser passadas aos encarnados. Existe por aqui um controle para certas informaes e s na hora 
exata elas so transmitidas.  imperioso que o homem ignore certas verdades para que possa viver em equilbrio.
- Sei disso, mas  que a amei demais, gostaria de saber se est bem.
Nessa hora um vulto surgiu em sua frente e foi se corporificando. Era Camila. Estranha emoo o acometeu ao olhar seus olhos. Ela no conseguiu conter as lgrimas. 
Correu e o abraou, beijou-o repetidas vezes no rosto, transmitindo tudo o que sentia. Ele estava esttico, no sabia como agir. Perguntou:
- Voc est bem?
- Agora mais do que nunca, pois estou perto de voc. Mesmo sabendo que j se casou, no consigo deixar de te amar.
Ele respondeu:
- Alm do casamento, estamos separados por uma faixa energtica, mas fico feliz ao saber que est bem.
Ela disse:
- Muitas coisas ocorrero em meu destino. Eles dizem que tudo  para o melhor, porm estou com medo, desejo ficar do seu lado para sempre. Voc me transmite paz 
e segurana.
- Nunca estaremos realmente separados, o pensamento  energia viva e onde quer que eu esteja estarei tambm pensando em voc.
Ela sorriu:
- Estranho. Nem a morte consegue acabar com um amor quando ele  verdadeiro. Gostaria de saber se Anita vai um dia liberar voc para mim.
- No pense no futuro. Cuide de voc, aprenda a viver melhor, siga o destino que Deus agora te reserva. Um dia quem sabe poderemos nos unir em melhores circunstncias. 
Naquela poca eu era um adolescente inexperiente, com medo da vida, rfo. Voc estava revoltada, se agredia, por isso morreu daquela forma. Quem se trata mal, agride-se 
ou ao seu semelhante e est sempre apto a morrer tambm de forma violenta. Modifique-se para que numa prxima existncia viva melhor.
Ela no se conteve:
-  que vou renascer na...
Hilrio rapidamente lanou uma energia cinza, que paralisou sua voz. Olhou para Flvio e disse:
- Infelizmente filho, dever esquecer o que ouviu aqui. Ainda no pode lhe ser revelado que Camila ser sua filha.  Dizendo isso lanou em Flvio uma energia violeta 
que o fez adormecer e levou-o de volta ao corpo.
Quando ele acordou lembrou-se de tudo com nitidez, menos da parte final que no estava clara em seu crebro. O que Camila havia dito mesmo? No se recordava. Intimamente 
agradeceu a Deus aquele encontro e por saber que ela estava bem. Porm, Camila no se conformou. Cada dia que passava, ligada a Anita pelos laos do reencarne, ela 
sentia um dio surdo brotar de seu peito. Ela no merecia ficar com o amor de sua vida. Iria acabar com a vida dela. Hilrio foi ao seu encontro:
- Minha filha, se continuar assim ser obrigada a deixar esta estncia de paz e refazimento. Suas energias negativas a levaro para a Terra e seu reencarne se dar 
em circunstncias no muito boas para voc. Com seu livre-arbtrio poder optar agora pela felicidade de uma nova vida ou entrar na mesma, cheia de dio, e sofrer 
as conseqncias.
- Por que s do razo a ela? No v que Anita  o nico empecilho para que eu ame o Flvio? Ele pode sair do corpo e se ela morrer ele poder vir se encontrar comigo 
todos os dias para sermos felizes.
- No seja to ingnua filha. As leis que regem os diferentes planos so rgidas. Mesmo que Anita desencarnasse, Flvio no poderia vir aqui para estar com voc, 
ele tem uma sagrada misso na Terra e a tem desempenhado bem. Deus no permitiria que isso acontecesse.
- Que Deus  esse que me deixa longe do meu amor?
Ele pensou e resolveu:
- Vou lhe dizer tudo para que possa raciocinar melhor e decidir. S daqui a algum tempo voc ter acesso a certas informaes, antes de sua total inconscincia devido 
 reencarnao. Porm, suas energias pedem uma soluo para seu conflito e antes que acabe comprometendo a gravidez.
Ela se irritou:
- Que verdade  esta que vivem falando em segredo?  voc,  Carlota, so todos que vm com esses mistrios e no dizem nada, j estou ficando irritada.
- O que voc chama de mistrio  todo o drama que envolve sua vida passada com Flvio e Anita. Chegou a hora de rever.
Ela, meio incrdula, seguiu Hilrio que a levou at o parque dos lagos. Sentaram  beira de um deles e de suas guas comeou a surgir uma imagem. Era o ano de 1756, 
poca em que certas doenas no tinham cura, a lepra era uma delas. Um casaro antigo no leste de Minas Gerais servia de leprosrio. Em meio a todos aqueles doentes 
havia um jovem de rara beleza que estava l como voluntrio cuidando de feridas. Enquanto fazia esse servio um negro entrou no quarto e o chamou:
- Sinhozinho Henrique, sinh Helena est lhe chamando l fora.
Ele pareceu se irritar dizendo:
- O que ela veio fazer aqui? Sabe que estou trabalhando e no gosto de ser interrompido.
- Num sei sinh, mais ela disse que lhe fala com urgncia.
Henrique deixou o doente e saiu. Foi encontr-la em rica carruagem, j na estrada, um pouco longe do leprosrio.
- O que quer aqui? Sabe que no gosto de ser interrompido quando trabalho.
Helena fingiu no perceber o desagrado e falou:
- Vim trazer um recado urgente de seu pai. Ele ordena que volte para a fazenda o quanto antes, diz que um rapaz como voc no deve ficar aqui cuidando de doentes. 
Se no obedecer mandar voc de volta  Frana.
Henrique ficou contrariado:
- O que tem de mais um rapaz como eu? S porque sou filho de fazendeiro e estudo fora no sou melhor do que ningum.
Ela replicou:
- Voc no se olha no espelho? No v as formas que tem no rosto, no corpo? No vislumbra sua magnfica origem? No pode e nem deve ficar aqui com esses malditos 
leprosos.
Ele se deixou dominar pela indignao:
- E voc o que tem que ver com isso? Por que veio ser a mensageira de meu pai? O Antnio poderia vir sozinho, porm mais uma vez est tentando guiar minha vida. 
Quando comeamos a namorar, eu no a conhecia direito, no sabia que voc era to mesquinha. Por isso, tudo terminou e no tem volta.
Ela abriu elegante leque e disse entre dentes:
- Vim porque quero constatar o que lhe prende aqui. Sei que no so esses mseros doentes. Deve ter uma mulher no meio disso. Ela deve estar fazendo sua cabea. 
Se eu descobrir...
Ele irritou-se:
- Deixe-me em paz, v embora e avise meu pai que s sairei daqui quando o trabalho terminar.
Ela vencida e lanando um olhar vingativo, j ia embora quando uma jovem de especial beleza saiu da casa. Trajava uma espcie de avental e tinha um leno na cabea. 
Ela ingenuamente aproximou-se da carruagem e dirigiu-se a ele:
- Henrique, terminei meu servio de hoje, partirei imediatamente para casa antes do pr-do-sol. Vim lhe avisar que aquela famlia piorou bastante. Depois que o senhor 
saiu  me comeou a ter delrios e os filhos clamaram chorando muito. Mas o pai... Esse no passa de hoje.
Henrique fez um ar triste e disse:
- Obrigado Anete, sei que tem se esforado muito, mas quando chega  hora, s a f em Deus pode nos amparar. Permita que a leve para casa. O sol j se escondeu de 
todo no horizonte.
Pelo semblante de Helena passou um vislumbre de dio. Ento era ela, era ela a mulherzinha que ousava roubar-lhe Henrique. Pois ela sentiria o peso de seu dio.
Henrique virou-se para o escravo e disse:
- Antnio, leve a Helena daqui, ela pode se contaminar e eu no desejo sentir-me culpado por isso. - Virou-se para ela. - E voc pense em tudo o que falei. Esquea-me, 
procure casar e ser feliz com outra pessoa,  o melhor que pode fazer por voc mesma.
Ela estava irada:
- O qu? E ainda tem coragem de falar isso na frente desta mulherzinha? Veremos. Voc vai ser meu, custe o que custar! A carruagem saiu em disparada e logo desapareceu 
na curva da estrada.
Anete, sempre respeitosa e temerosa, perguntou:
- Do que ela me culpa? Sinto que me olhou com desdm e dio apesar de eu nada ter feito para ela. Tenho medo de estar me envolvendo com pessoas dessa estirpe. Sou 
filha nica, no tenho pai, desejo ver-me livre de qualquer confuso.
Henrique, que j a amava sinceramente, procurou contemporizar:
- Essa mulher foi minha noiva durante dois anos, apesar de a presso de minha famlia, nunca me casei, por no ter certeza de que a amava. No comeo, nossa relao 
foi muito boa, andvamos muito unidos, mas depois ela passou a ter um cime exagerado de mim, a me tratar como posse. Desde esse dia comecei a desconfiar que no 
a amava de verdade. Essa idia tomou conta de mim e passei a me sentir indigno por estar com algum a quem no amava de verdade. Rompi a relao, porm ela continuou 
obstinada a me reconquistar. Isso tornou-se uma verdadeira obsesso para Helena, e eu lhe digo: fique tranqila, nada de mal vai lhe acontecer, eu a protegerei.
Dizendo isso Henrique tomou-a pelo brao e juntos iniciaram uma caminhada. Feliz, mais uma vez ele levaria aquela bela enfermeira que to amorosamente dedicava-se 
a cuidar de leprosos. Certamente, o amor morava em seu peito. As imagens nas guas do lago apagaram-se. Camila chorava sem parar. Hilrio a confortava:
- Eu sei filha, que a conscincia culpada costuma cobrar um tributo muito caro para aqueles que ainda no aprenderam a evoluir pela lei do amor. Porm, tudo isso 
j passou h sculos,  hora de seguir adiante.
Ela comentou entre lgrimas:
- Lembrei, lembrei de tudo. Desde aquela poca como Helena j era ftil, vaidosa e egosta. No soube perder e por isso muito errei. Henrique hoje  Flvio e continua 
com seu trabalho de amor pelas pessoas. Anete  Anita, a inimiga que tanto odiei. A famlia que Flvio tratava com tanto amor naquele leprosrio eram os Carbajaua 
que atualmente so ngelo, rica, Marina e Cristiano. Mas eu quero ver tudo at o fim, preciso saber o que fiz depois, no posso mais me esconder no vu do esquecimento.
- Tem certeza de que est preparada?
- Sim, preciso saber quem sou e a causa de tudo que experimentei nessa vida presente.
O lago voltou a iluminar-se e novas imagens comearam a surgir:
A carruagem ia depressa, enquanto Helena pensava: "Preciso destru-la. Sei que  ela. Vi o jeito que ambos se olharam. Ele me troca por qualquer, mas isso no ficar 
assim". Nessa hora duas sombras escuras colaram-se a ela com prazer. Quando Helena chegou na Fazenda Florena, tratou de fazer uma pssima imagem de Henrique para 
o pai. Semeou na mente do coronel Epifnio que o filho estava prestes a se contaminar da doena horrvel e que estava se envolvendo com uma mulherzinha qualquer, 
sem nome ou moral. O coronel ficou irado e decidiu que no outro dia procuraria o filho e o traria de volta, custasse o que custasse. Pela manh do outro dia foi 
procur-lo. Assim que estava frente a frente com o filho, bem longe do local doentio, ele falou:
- Meu filho insano! Voltar pra casa hoje e comigo, assim eu exijo.
- No voltarei, tenho um trabalho, uma misso para realizar aqui com esses doentes e no vou, nem que me deserde.
- Filho! Ouve teu pai! Sua me chora dia e noite lembrando que voc est aqui exposto ao contgio de uma doena ruim, se  que j no est doente. A Fazenda Florena 
no  mais a mesma sem voc, sem seu brilho, sua inteligncia...
- Preciso ficar aqui, vocs no entendem... Eu quero, sinto-me bem prestando servio a quem sofre!
O pai se comoveu, mas foi firme:
- No adianta tentar me enganar, voc pode at gostar do que faz aqui, mas o que lhe prende mesmo  uma mulher, uma enfermeira da casa.
Henrique se contrariou:
- Como sempre a Helena interferindo no destino dos outros e querendo levar o senhor na conversa. No percebe o jogo que ela est fazendo? A Anete  apenas uma das 
enfermeiras daqui, tenho muito respeito e carinho por ela, mas  s.
- Espero que seja mesmo. J vi que no conseguirei lev-lo comigo. Mas uma coisa eu aviso: voc no manchar a honra de uma famlia nobre como a nossa, casando-se 
com qualquer.
Dizendo isso se foi. Henrique triste e decepcionado com o pai comeou a chorar. Anete se aproximou:
- Nossa, sua famlia de ontem pra c comeou a lhe procurar mesmo. No acha melhor desistir daqui e voltar para os seus? H seus estudos em outro pas e com isso 
nenhum pai pode concordar: um filho deixar de estudar para cuidar de doentes.
Ele enxugou uma lgrima teimosa e respondeu:
- Estou de frias, posso ficar aqui  vontade. No h motivos justos para nos desviarmos do trabalho do bem, vou ficar!
Anete corou de prazer:
- Voc  determinado, gosto de pessoas assim.
Ele respondeu:
- Voc tambm  determinada e corajosa. No  qualquer uma que se torna enfermeira de um lugar como esse, estamos correndo srio perigo de contgio.
Ela corou ao dizer:
- Por voc eu perco qualquer medo.
Henrique sentiu a declarao de amor e aproveitou:
- Sinto-me muito bem ao seu lado, gostaria de t-la como esposa, gosto muito de voc.
Ela, que no esperava que as coisas caminhassem to rpidas, sentiu-se vitoriosa:
-  tudo o que eu mais queria: ser sua mulher, cuidar de voc, estar ao seu lado...
Eles se beijaram com paixo. De repente, uma senhora enrugada, surgiu na porta e gritou:
- Henrique! Anete! Corram, seu Paulo agoniza.
Eles interromperam a manifestao afetiva e correram para o interior do leprosrio. Numa cama simples, um homem chegava ao fim de sua jornada terrestre vtima do 
bacilo de Hansen. Trabalhando durante semanas com ele, Henrique sentia-se apiedado diante de sua prpria impotncia. Ver um ser humano morrendo envolto em farrapos, 
sem os dedos, sem as orelhas e o nariz era muito penoso. Nessa hora ele no entendia a bondade de Deus e at questionava se Ele realmente existia. O velho olhou 
para o semblante lindo do rapaz e olhos nos olhos, iniciou agonizante:
- Filho, no sei como poderei um dia te agradecer por tudo o que tem feito por mim, se no fosse por sua bondade, no teria o alvio que tive. Que Deus te abenoe. 
Parto deste mundo, mas vou confiante que a minha famlia ficar nas mos de um anjo.
Em trs leitos no mesmo quarto, trs pessoas em estados cadavricos choravam. Elas faziam parte da famlia de Paulo. Era sua mulher, sua filha e seu filho. Todos 
moravam juntos e a vida era boa, at que contraram a doena e foram expulsos de casa pelos vizinhos. Henrique sempre que estava de frias, procurava uma dessas 
casas de doentes to comuns na poca, para prestar auxlio. Quando viu chegar  famlia de leprosos ele a acolheu e a tratou. Porm, sentia que perto da vida ele 
era completamente impotente. Comeou a chorar. A freira Veridiana rezou uma espcie de extrema-uno, e logo depois puxou Henrique pelo brao, que chorando se abraava 
ao cadver. Veridiana muito serena afirmou:
- Este no  o primeiro, nem ser o ltimo que morrer assim,  preciso entender que  necessrio, Deus muitas vezes sublima o homem pelo sofrimento, acredite, Ele 
s faz o melhor.
Henrique enxugando as lgrimas discordou:
- No posso admitir uma coisa dessas, se eu fosse Deus, teria curado todos!
- No blasfeme! Querer ser Deus  um sacrilgio dos piores. Ele cuida de todos ns da forma Dele e com certeza  a mais correta.
- Irm Veridiana, acredita que essa doena algum dia poder ter cura?
- Sim! Um dia, quando a vaidade for exterminada da Terra todos alcanaro a cura no s deste como de muitos outros males. A vaidade cobra um preo alto para quem 
a cultiva.
Henrique ficou curioso:
- Acredita que uma doena pode vir por causa da vaidade? Ento Deus est dando um exemplo de que a vaidade  um mal?
- Meu filho, muita coisa ainda vamos aprender, porm eu tenho observado como a natureza age e descobri h muito que a causa das doenas reside no padro espiritual 
da pessoa atingida. Se ele  lealmente elevado nada as atinge, porm se  um baixo padro cultivado por vaidades, crimes, arrogncia, orgulho, egosmo e tantos vcios 
horrveis que a humanidade cultiva, certamente ele adoecer. No   toa que se vem tantos doentes pelo mundo.
Henrique acalmou o corao. Aquela freira tinha algo diferente das demais. Quando falava, seu rosto mudava de expresso, parecia que o olhar perdia-se num ponto 
distante e at a voz modificava-se um pouco. Apesar de ele estudar muito a cincia terrena nunca tinha conseguido entender certos porqus da vida.
O corpo foi jogado numa vala onde jaziam outros corpos j delidos. Henrique continuou cuidando do resto da famlia com desvelo e amor, porm viu um a um ser chamados 
pela morte. Chorava a cada acontecimento deste. Logo depois do pai foi  vez de Matilde, uma moa ainda jovem e depois Jos o mais novo. Por ltimo se foi dona Eullia, 
a que mais sofreu. Hilrio parou as imagens para dar algumas explicaes necessrias. Virou-se para Camila e disse:
- Aquela famlia que Henrique tanto se afeioou foi mais tarde Solano, Zuleika, Marina e Eduardo Carbajaua. No conseguindo vencer os impulsos negativos continuaram 
na delinqncia e no preconceito, at que desencarnados e sob a orientao de Henrique conseguiram reencarnar. Eles foram no Brasil ngelo, rica, Marina e Cristiano. 
Henrique renasceu para cumprir uma misso e ajud-los. Foi chamado de Flvio.
Camila interrompeu:
- Lembrei-me de tudo! Como fui egosta! Quando Henrique voltou para os estudos, o pai dele foi procurado pela me de Anete, contando que ela estava grvida e que 
o filho seria seu neto. Eu, que morava em fazenda vizinha, e sempre estava por perto, acabei presenciando a cena e disse ao velho Epifnio que se tratava de um golpe 
daquela mulher, que jamais Henrique teria um filho com qualquer. Porm, ele no acreditou e foi procurar Anete.
L chegando ela mostrou as cartas que recebia de Henrique e a ltima em que ele demonstrava toda a felicidade em ser pai, orientava tambm que Anete e a me procurassem 
por Epifnio, pois com certeza ele no as deixaria desamparadas. E foi o que o velho fez, alm de acreditar em tudo o que elas disseram,por causa da gravidez deu-lhes 
dinheiro para que arcassem com as primeiras despesas. Fiquei furiosa e tramei a morte de Anete. Contratei um capanga que matou ela e a criana com trs tiros. Henrique 
quase enlouqueceu, porm a freira Veridiana hoje a mdium Margareth da Inglaterra o consolou e ele acabou seus dias como padre, entregue ao sacerdcio religioso. 
O capanga que hoje sei tratar-se de Rafael apaixonou-se por mim e acabamos mantendo um romance. Para todos eu era uma solteirona virtuosa, porm s escondidas mantnhamos 
um relacionamento, at que acabei o traindo com um capataz da fazenda e terminei morta por ele que me pegou em flagrante. Como errei, como tenho errado!
Fez uma pausa, olhou para Hilrio e continuou:
- Agora entendo tudo o que passei nesta ltima encarnao. Assim como fui preconceituosa com Anete que era pobre, senti na pele o peso do preconceito ao me apaixonar 
por um negro. Matei uma pessoa grvida e senti meu filho ser retirado de forma horrvel de meu ventre, e para completar, morri com tiros, assim como outrora matei 
algum. Essa foi  vingana divina.
Hilrio srio retificou:
- Voc est enganada, Deus no castiga ningum, muito menos se vinga ou se sente feliz com o sofrimento humano. Voc atraiu tudo o que vivenciou por ter continuado 
no mesmo padro de pensamento do passado. A lei de Talio s  usada em ltimo caso.
Antes Deus procura alertar as pessoas de vrias formas para que elas aprendam pela lei do amor. A lei do carma no  usada para punir, mas para proporcionar aprendizado 
e evoluo. O motivo maior da vida humana  seu caminhar rumo  perfeio e infelizmente voc para chegar at ela tem escolhido caminhos tortuosos. Ela no conseguia 
acompanhar o raciocnio de Hilrio.
- Estou confusa. Se no fui punida, por que eu vivenciei todo esse drama? Afinal, j estou bem melhor espiritualmente. Ele sorriu ao dizer:
- No existe algum bom sofrendo, pode ter certeza. Se a pessoa estiver realmente arrependida do mal que fez, reconhecer que  a nica responsvel pelo que lhe aconteceu 
e procurar ficar no bem, ter condies de modificar o seu destino e ter uma vida melhor.
- Aparentemente voc havia melhorado, mas bastou um golpe da vida para provar que voc continuava igual. Em pouco tempo passou a se tornar vingativa, vestindo-se 
de forma agressiva para provocar sua me, sem contar os vcios nos quais se embrenhou. Quando conheceu Flvio, mais uma vez deixou-se levar pela paixo. Quando foi 
alertada de que ele no ficaria com voc, logo fez um pacto com um pai-de-santo para segur-lo a todo custo. Quis violentar a vida mais uma vez e a violentada foi 
voc. Como v, no existe punio, apenas aprendizagem.
Hilrio fez uma pausa e prosseguiu:
- Antes de renascer voc prometeu que mudaria. Para isso lhe foi concedida poderosa mediunidade e ao lado de Flvio faria belo trabalho a favor do bem. O encontro 
amoroso de vocs seria inevitvel, porm com o tempo Flvio perceberia que no a amava e terminaria o vnculo afetivo que ambos tinham. Voc deveria aceitar e procurar 
ser sua amiga. Com o tempo novos amores viriam e voc teria a chance de escolher. Anita apareceria na hora exata concretizando o casamento que foi interrompido por 
voc anteriormente.
Como amiga do casal a vida lhe daria chances de redimir os seus erros, e unida a Flvio no trabalho da mediunidade fraterna teria chances de saber como a vida espiritual 
funciona e com isso conquistaria o equilbrio. Porm, voc preferiu seguir as intuies perversas, como sensitiva captava facilmente as energias de espritos alcolatras 
e viciados e perdia-se cada vez mais. Nem o encontro com Flvio conseguiu modific-la. Voc criou todo o seu destino. Camila chorava muito, s agora percebia que 
foi a nica responsvel por tudo que ocorreu na sua vida. De nada adiantava o desespero, mais do que nunca percebeu que Deus agia pelo melhor e que tudo era para 
um objetivo elevado. Naquele instante desistiu de imantar Anita com vibraes de dio, devia-lhe a chance de uma nova vida. Aceitaria ser sua filha, tentaria am-la 
e provar para si mesma que tinha se tornado um esprito melhor. Hilrio abraou-a pela cintura e juntos seguiram para o grande salo de prece da colnia. Anita, 
que era sempre amorosa e dedicada a Flvio, passou a rejeit-lo sem nenhum motivo. Trancava-se no quarto e evitava receb-lo. Ele logo percebeu que era influncia 
espiritual; se levasse ao mdico ele suspeitaria alguma enfermidade nervosa, o que Flvio sabia ser improvvel naquele caso. No princpio, Anita sentia as ondas 
negativas vindas de Camila, porm depois que ela reviu o seu passado ao lado de Hilrio, deixou de perturb-la, mas outros espritos aproveitaram-se da fragilidade 
emocional da gestante e continuaram fazendo o trabalho perverso que antes Camila fazia. Naquela tarde, Flvio mais uma vez bateu na porta do quarto da esposa, decidido 
a lev-la ao Centro para tratamento espiritual. Em transe, ele comunicou-se com Hilrio, que disse se tratar realmente de obsesso, indicando-lhe o tratamento para 
aquela mesma noite, solicitando urgncia. Flvio continuava batendo insistentemente na porta e Anita gritava:
- Deixe-me em paz! Volte para aquele lugar, alis a coisa que voc mais ama na vida.
Ele paciente tentava convenc-la:
- Abra, preciso conversar com voc, prometo no fazer nada que voc no queira.
A empregada estava do lado dele e dizia:
- Como o senhor v, ela continua muito estranha, hoje nem almoou. Fui levar a bandeja no quarto e ela quase me agrediu, jogou tudo no, foi uma trabalheira.
Flvio insistia:
- Abra Anita, o assunto  srio, converso com voc e depois te deixo em paz.
Dentro do quarto, ela gritou:
- Fale da mesmo, no posso ver seu rosto. O que quero mesmo  expulsar voc e essa criana de minha vida. Quando sair daqui saberei o que fazer!
Flvio gelou, ento ela estava pensando em fazer um aborto? Dentro dele algo se rebelou, ele sentiu uma fora agressiva muito grande e arrombou com vrios chutes 
a porta. Quando conseguiu entrar, encontrou Anita plida, deitada em posio defensiva. Ela gritava:
- Seu monstro, pensa que vai me assustar assim? Saia ou no responderei por mim!
A empregada que entrou junto com o patro disse angustiada:
-  melhor o senhor sair daqui, ela est desequilibrada e pode cometer uma loucura, alis, acho que uma pessoa neste estado est completamente louca, quer que eu 
ligue para o Dr. Eduardo?
- No! Pode se retirar, deixe-me a ss com ela.
- Mas ela pode agredi-lo, veja!
Nesse instante Anita pegava um vaso grande de cristal que enfeitava o cmodo e fazia meno de jogar no marido. Ele, gil, partiu para cima dela, desarmou-a e jogou-a 
na cama. Ela comeou a gritar e a morder o marido enquanto o vaso de cristal quebrava-se inteiro no cho. Flvio dominou-a e intimamente comeou a orar. Um cheiro 
ftido dominou todo o quarto e em poucos segundos Anita estava desmaiada. A empregada assustada, chorava sem parar. Flvio tranqilizou-a:
- Fique calma, o pior j passou, ela est bem novamente.
Chorosa, ela disse:
- Bem que me avisaram para no vir trabalhar em casa de pessoas que lidam com espritos, vejo que aqui acontecem coisas estranhas. O que se passou com ela, com certeza, 
 coisa de seres das trevas, ela estava possessa.
Flvio explicou:
-  verdade, ela est sendo vtima de um ataque das trevas. Mas isso no acontece s em casa de pessoas que lidam com espritos. Em todos os lares da Terra existem 
seres espirituais que quando acham abertura interferem e causam desarmonia. A vantagem dos espiritualizados  que eles sabem agir com exatido e contam com as energias 
superiores. Se esse fato ocorresse em uma casa de pessoa materialista, ela seria levada a um hospital e teria um tratamento perfeitamente dispensvel, que no seria 
indicado para seu caso.
Ela pareceu entender e perguntou:
- E agora? Ela parece desmaiada, o que vai acontecer com ela?
- Vou lev-la adormecida para a cmara de passes e depois para a sala de desobsesso. L, juntamente com meus amigos mdiuns, saberei o que fazer para ajud-la.
Anita dormiu o resto da tarde at a noite. Era um sono pesado e angustiado. Por vezes ela suava muito, outras chamava nomes que ningum entendia. s sete e meia 
Ernesto e Marilda chegaram na casa de Flvio. Marilda ao olh-la, disse:
- Trata-se de poderosa subjugao. No sei se poderemos libert-la nesta sesso.
Flvio reconheceu que era verdade. Porm, em sua experincia, dizia que desistir era pior. Os trs rezaram e colocaram as mos sobre o corpo de Anita que estremecia 
de vez em quando. A empregada assustada procurou rezar tambm. No horrio marcado todos partiram para o Centro. Ao chegarem com Anita ainda adormecida encontraram 
Walter e mais trs mdiuns que fariam parte da sesso ntima. Eles deram passes e oraram chamando pelos amigos espirituais. Todos fizeram um crculo e colocaram 
Anita deitada no meio. Flvio fez a prece inicial e entrou em comunicao com Flix o orientador e instrutor dos trabalhos de desobsesso. J em desdobramento, Flvio 
pde ouvir o que Flix lhe dizia:
- Ela est envolvida por entidades que sugam suas energias. Vimos intuir aos mdiuns que dem passagem a esses espritos para iniciarmos o trabalho de doutrinao.
Flvio indagou:
- Hoje no servirei de instrumento?
- Sim, servir, eu me utilizarei de suas cordas vocais para tentar convencer as entidades a deixarem Anita.
Voltando ao corpo, Flvio esclareceu:
- Flix nos diz que os espritos obsessores sero trazidos para c esta noite. O mdium que estiver em condies de dar passagem para que eles se comuniquem deve 
faz-lo com muito amor e respeito.
Minutos depois uma mulher comeou a tremer e a sorrir maliciosamente, e de repente falou:
- Que querem de mim? Pensam que esto lidando com quem? Sou poderosa, posso fazer este teto vir abaixo e todos morrerem soterrados.
Flvio, livre do corpo, deixou total espao para Flix utilizar suas faculdades. Ele disse:
- No precisa ficar zangada, apenas queremos conversar e saber por que se aproximou de Anita.
Ela, rindo zombeteira, falou:
- Esta a  muito fraca, serve a ns como repasto, estamos sugando suas energias e fazendo-a ficar longe do marido. Agora que conseguimos um repasto vivo no o deixaremos 
por nada, exijo que no interfiram, ou no responderemos por ns.
Flix, atravs de Flvio, continuava a falar muito sereno:
- Voc est fazendo algo que no  bom nem pra voc nem pra ningum, sente-se feliz depois de us-la? Acaso no percebeu que esse processo s faz aumentar seu grau 
de responsabilidade perante a lei?
- Cale-se garoto fraco! No abandonarei sua esposa jamais, ela me permite, d espao, tem cime de voc. Sabe intuitivamente que o esprito que vai nascer atravs 
dela pode vir a separ-los no futuro; portanto, inconscientemente, ela se afasta de voc, no permitindo que esse esprito esteja ao seu lado. Se no fosse o cime 
ns no estaramos tratando-a como nossa refeio energtica.
- Sabe, Deus d a todos a chance de escolher e treinar atravs da liberdade, porm dia chegar que ter de deix-la, voc e seus companheiros, para assim assumirem 
a responsabilidade por suas atitudes.
Nessa hora, um mdium soltou alta gargalhada:
- Pensam que vo fazer a cabea de minha tutelada? No sabem com quem esto lidando, saibam que se no desistirem, mandaremos Anita para o hospcio.  bom que parem 
agora antes que seja tarde.
Felix continuou imperturbvel:
- No queremos fazer a cabea de ningum, cada um  livre para pensar. A maior liberdade que o ser humano possui  a do pensamento, apenas gostaramos que a deixassem 
em nome de Jesus. H um esprito unido a Anita e precisa renascer em paz; o que esto fazendo no pode ser pra sempre. Quem faz o mal embriaga-se com ele e essa 
mesma energia far com que a pessoa se sinta mal, atraindo para si o sofrimento e a tristeza.  isso o que quer para sua vida?
- No admito que falem assim comigo, sei o que estou fazendo e dou um ltimo aviso: desistam desse intento ou no saberemos onde essa histria vai dar.
Dizendo estas palavras os espritos saram e toda a equipe permaneceu em orao. Flix, ainda utilizando o corpo de Flvio, prestou alguns esclarecimentos:
- Anita vai melhorar um pouco, h aqui uma equipe de espritos amigos que est banhando a aura dela com energias boas e fortalecedoras, porm o grupo que se apresentou 
aqui hoje no desistir facilmente; so antigos vampiros do astral inferior que querem sug-la at onde puderem. No se impressionem pelas palavras deles, o bem 
 mais forte que o mal e sempre vence. Eles no conseguiro enlouquec-la, nem lev-la ao hospcio, porm para isso  necessrio que Anita venha freqentemente s 
reunies de desobsesso, pois s
aqui temos equipamentos suficientes para aos poucos desmagnetizar a aura dela dos blocos de energia negativa a que se imantou pelo cime.
A reunio terminou com a prece de Critas e Flvio ao levar a esposa j acordada, porm calada para casa, percebeu que ajudar o cu muitas vezes  difcil, porm 
com amor e perseverana sempre se consegue.

19 - A LUTA CONTINUA

Durante o trajeto de volta para casa, Anita ia calada e pensativa. A sesso conseguiu desbloquear algumas energias negativas, porm ela continuava ainda sob a influncia 
dos espritos inferiores. Flvio tentou uma conversa: 
- Sente-se melhor?
Ela, parecendo sair de grande torpor, respondeu com ar desagradvel:
- Um pouco, mas no pense que vou deix-lo privar de minha intimidade hoje, voc me provoca nuseas. Flvio, sem perder a pacincia, disse:
- No desejo nada que voc no queira, ns todos precisamos sim de uma boa noite de sono e repouso.
O carro chegou ao destino e eles subiram para seus cmodos. A empregada j havia se recolhido e a casa estava silenciosa. Como nos ltimos dias Flvio dirigiu-se 
ao quarto de hspedes quando ouviu o telefone tocar. Desceu para atender:
- Al!
- Oi mano! Como  difcil falar com voc! Flvio exultou ao reconhecer a voz de Cristiano:
- Voc ligou em boa hora, estava mesmo precisando desabafar...
- O que voc tem?
- Anita est gravemente enferma, est obsediada por um grupo de espritos, que suga sua vitalidade, e a faz ficar longe de mim. Est sendo muito duro!
Cristiano ficou em silncio durante alguns segundos, depois disse:
- Como isso pde acontecer em sua casa, Flvio? Como voc deixou ela ser influenciada?
- Voc sabe que cada um  responsvel apenas por si. Fao minha parte, levo Anita aos cursos, s palestras, porm ela apenas finge interesse para me agradar, as 
coisas que ouve no penetram de forma real em seu esprito. Cada um deve fazer a sua parte, se ela foi influenciada foi porque baixou o padro enrgico com alguma 
atitude.
Preocupado, Cristiano perguntou:
- A obsesso dela  grave? Tem conseguido trat-la a mesmo no seu espao?
- Ela est subjugada por mentes infelizes que descobriram suas fraquezas. Quem a v ultimamente dir que est em crise psictica. Quanto ao tratamento ele comeou 
justamente hoje, mas acreditamos que h muito caminho pela frente.
- Poxa, mano, me sinto at constrangido, pois liguei justamente para falar de um acontecimento que me deixou muito feliz! Laura est grvida, ns vamos casar!
Flvio exultou de alegria:
- Nossa, parabns! Coincidncia ou no ns dois estamos grvidos! Dona Alexandra ter muito que fazer, dois netos de uma s vez!
Cristiano lembrou:
- Acha que devo contar a ela o estado de Anita?
- No, em hiptese nenhuma. Certamente ela ficar curada e no  necessrio preocupar os pais dela por isso.
Cristiano respondeu:
- Como sempre acato suas decises, meu guru! Mas a vem outra notcia: no final deste ms estarei de frias e pretendo passar uns dois meses no Brasil com vocs, 
alguma objeo?
- Claro que no, ser um prazer receb-lo.
Eles conversaram mais alguns minutos e logo depois Cristiano desligou. Flvio foi se recolher e aps orar dormiu profundamente. Ele no viu, porm as entidades que 
obsediavam Anita chegaram ao seu quarto. Uma delas com aspecto feminino dizia:
- Tefilo disse que esse a pode nos dar trabalho, viu o que ele e aquele grupo de mdiuns fizeram conosco? Nos prenderam em seus corpos e fomos obrigados a falar!
Outro retorquia:
- Se pudssemos neutraliz-lo, acho que seria bom. Mas veja aquela energia azulada que o envolve, ns no conseguimos atravessar aquela barreira.
- Isso me deixa um pouco receosa. Tentamos impressionar aqueles mdiuns birutas com gritos de pavor e ameaas, mas parece que eles esto muito seguros de si.
A entidade feminina continuou:
- Por hora devemos parar e ir a Larvosa comunicar pessoalmente nossas dvidas a Tefilo. Deixaremos o Incio tomando conta dela, no devemos demorar.
Dizendo isso seus vultos negros sumiram num canto do quarto. Pela manh Flvio comunicou a novidade do irmo para Anita:
-  isso mesmo, Laura est grvida e o Cristiano vem com ela passar as frias aqui no Brasil. O meu irmo precisa mesmo descansar, afinal d sua vida por aquela 
empresa.
Anita, que mal tocava naquele rico caf da manh, respondeu com polidez e desinteresse:
- Tanto faz que venham ou no, apenas fico feliz por minha irm estar grvida. Quanto ao Cristiano voc no pode critic-lo, tambm abandonou tudo por esse maldito 
Centro esprita.
Anita estava angustiada e sofrendo muito. Sua personalidade no estava completamente aniquilada, ela sentia tudo o que se passava em sua mente e sofria por estar 
afastada do homem que tanto amava. Mas uma fora maior que ela imprimia em sua mente que estar com Flvio era perigoso. As entidades sugeriam e ela acreditava cegamente 
que esse filho que ia nascer iria separ-la do marido. Pensou em aborto, mas devido a tudo o que ouviu de Flvio, sabia que esse era um caminho de tenebrosos sofrimentos. 
Ela deveria agir depois que o filho nascesse, a sim saberia como se livrar desse fardo. Porm em seu ntimo o sofrimento era grande, ela lutava, tentava reagir, 
mas o cime era maior. A sentia-se completamente dominada, atirava objetos no marido, esbravejava, blasfemava. O cime vem do complexo de inferioridade e  porta 
aberta para srias obsesses. Flvio ia discutir com a esposa, mas resolveu calar-se, tinha um curso para iniciar naquela tarde e no poderia mesclar suas energias 
com discusses negativas. Saiu calado sem beij-la. Um esprito soprou-lhe ao ouvido:
-  assim que ele a trata? Acha justo? Os homens so todos iguais, s porque est grvida ele a est rejeitando, daqui a alguns dias tomar algum como amante.
Anita sentiu uma onda de rancor ao ver Flvio sair sem ao menos beij-la.
- Aquele cretino! - pensava - me rejeita apenas porque estou grvida!  at capaz de arrumar uma amante para satisfazer seus baixos instintos. Se isso acontecer, 
juro que os matarei!
Vendo que Anita concordava com seus pensamentos a entidade deformada abraava-se a ela com muito prazer. Flvio saiu deixando ordens para que a empregada ficasse 
atenta a qualquer passo da esposa. Qualquer novidade estranha era para comunicar-lhe imediatamente. A luta contra os obsessores continuava. Outras sesses vieram 
sem que Anita fosse levada ao Centro, ela era atendida a distncia e registrava pouca melhora. No final do ms Cristiano e Laura chegaram ao Brasil e se hospedaram 
na casa de Flvio. Na chegada foram recebidos amavelmente por Anita, porm eles logo perceberam a mudana dela. Laura ficou estarrecida: sua irm estava magra e 
fundas olheiras abatiam seu rosto. Aps um banho reconfortante eles foram para a sala de estar.
-  to bom estar novamente no Brasil, sinto que esta temporada aqui far bem para minha gravidez, concorda Anita?
- Pode ser, quando se tem um marido bom como o seu, j em meu caso...
Flvio e Cristiano se entreolharam mas no articularam palavra.
- Por que diz isso do Flvio? Ao que me consta, ele  um timo marido!
-  porque voc no v a forma como ele tem me tratado ultimamente, me rejeita, age com indiferena,  como se no fosse mais meu marido.
Flvio interrompeu:
-  ela quem me rejeita, no quer que eu me aproxime. Se estou evitando-a  porque no desejo maiores confuses.
Cristiano mudou o rumo da conversa, enveredando por assuntos diversos, at que o humor de Anita melhorou. Passaram o resto da manh conversando e conhecendo a manso 
onde Flvio residia.

20 - COISAS DO DESTINO

Flvio iniciou a reunio com uma prece pedindo assistncia aos espritos superiores. Os mdiuns dispostos em semicrculo, concentrados, com mediunidade educada e 
com o pensamento em Deus esperavam a entrada do primeiro paciente da noite que viera em busca de socorro. Na platia, alm de algumas outras pessoas estavam Cristiano 
e Laura. Quando as portas foram fechadas entrou a primeira paciente. Uma moa jovem, aparentando 25 anos, foi introduzida na ampla sala e colocada no meio do crculo, 
sentada num banquinho. O assistente deu o nome dela a Flvio que pediu boas vibraes para o caso urgente. De repente, uma mulher do crculo estremeceu levemente 
e disse com voz alterada:
- Que querem de mim? Soltem-me ou no responderei por minhas atitudes.
Ernesto, o doutrinador, com voz suave iniciou um dilogo: - Nada desejamos de voc que no possa cumprir, primeiro responda: por que persegue esta moa?
- No quero e nem tenho nada a dizer, me disseram que vocs so muito perigosos e podem prender-me pra sempre, caso no fuja rpido daqui. Alm disso, no posso 
falar, pois seria punida severamente pelos meus chefes.
- Acredita mesmo que eles tm poder? Onde esto seus chefes neste momento que no vm lhe salvar?
A mdium fungou um pouco, depois disse:
- Se me prometerem libertar logo, poderei dizer algumas coisas.
Ernesto perguntou:
- Qual o motivo para perseguir esta moa, que mal ela lhe fez?
- A mim nenhum, mas na organizao onde vivo mora uma mulher que foi seriamente prejudicada por ela em vida anterior e deseja vingana, pretendemos lev-la ao suicdio.
Ernesto com calma e j falando por Flix disse:
- A vingana  um sentimento mrbido que o afasta de Deus, volta-se contra voc. Por que no tenta analisar melhor os fatos e enxergar os outros lados da questo? 
Se fizer isso vai se surpreender. As coisas no so como lhe parecem.
- No preciso fazer isso. Eu sei a verdade. Sandra sofre muito. Em sua ltima existncia, ela e Mnica foram grandes amigas, porm Mnica apaixonou-se por Vivaldo, 
marido de Sandra e o quis para ela. Chamado a ter relaes, Vivaldo rejeitou-a com vivacidade, amava a esposa e no queria prejudic-la com semelhante traio. Cega 
pela paixo Constncia, hoje Mnica, procurou um feiticeiro e encomendou a morte da amiga atravs da magia negra, o que ocorreu trs semanas depois. Desde ento 
Sandra jurou vingana e ns da comunidade nos reunimos para ajud-la. No adianta tentarem, ns descobrimos os pontos fracos dela e a dominamos pela depresso profunda; 
quanto mais ela toma remdios mais perde a razo e assim conseguiremos enlouquec-la.
Nesse momento algo de inesperado aconteceu: Mnica levantou-se corajosamente da cadeira e aproximou-se da mdium dizendo:
- Por que me querem tanto mal? Sinto que a cada dia morre um pedao de mim. Choro sem parar, no tenho alegria, sinto muita solido e vazio. Se vocs no pararem 
com isso sinto que morrerei!  Disse banhando-se em lgrimas.
A entidade pareceu enternecer-se:
- Olha moa, fao apenas meu trabalho, a raiva  dela e no minha. Ocorre que Sandra j me ajudou a destruir um antigo rival aqui na Terra e agora  hora de retribuir 
o favor. Voc tambm no colabora, vive de iluses! Em casa quer sempre ser servida, no auxilia ningum,  ftil e vaidosa, acha que o mundo gira ao seu redor. 
Quando conheceu o Ronaldo e se apaixonou, achou que ele deveria ser igual  sua me, lhe fazer todas as vontades. Quando foi trocada pela Ana, entrou em desespero 
e o que seria uma fase passageira virou obsesso. Naquele ponto conseguimos contato com sua mente e semeamos a depresso. Suas iluses e vaidades nos deixam no seu 
comando. Era verdade, Mnica sentia que o que a entidade lhe dizia era compatvel com sua vida. De repente arrependeu-se amargamente da vida que levava e desabafou:
- E se eu me arrepender de tudo o que fiz, posso ficar livre?
A mdium soltou uma sonora gargalhada e disse:
- Pensa que  assim to fcil? Ns, da organizao, temos aparelhos monitores, com os quais observamos sua vida o dia todo, saiba que sempre encontraremos pontos 
fracos para a envolver.
Mnica continuou:
- Diga ao esprito que me quer mal o quanto mudei e estou arrependida, quero ser feliz, descobrir novas formas de viver, sei que encontrarei.
A mdium estremeceu e baixou a cabea. Mnica voltou ao banquinho e Flvio comeou a falar:
- Mnica, hoje voc deu importante passo para o seu progresso. O perdo nos livra dos grilhes que amarram nosso esprito e nos permite alcanar dias melhores. Voc 
comeou a perdoar a si prpria! Est informada sobre o seu passado e sobre a organizao que a persegue, entretanto, o mal jamais venceu o bem, o mal triunfa apenas 
por um tempo, um momento, mas qual noite escura ele sempre passa. Voc est tendo a oportunidade de mudar verdadeiramente sua forma de ver a vida e com isso ver-se 
livre desses perseguidores. Porm, toda mudana demanda tempo,  como uma longa escada,  preciso comear do primeiro degrau sem desistir jamais. V em paz e que 
Deus a acompanhe.
Ela foi para a saleta dos passes enquanto um homem de meia-idade era introduzido no crculo. Gordo, de estatura baixa, demonstrava na face  grande dor que lhe ia 
na alma. Flvio deu prosseguimento:
- Continuemos com o pensamento elevado a Deus e vibremos por Elias de Souza, que est aqui presente.
Todos comearam a orar e Flvio deu passividade a uma entidade feminina, com aparncia deformada, que comeou a falar com admirao.
- Meu Deus! Que fenmeno  este? Consigo enxergar! Que alegria!
Ernesto aproximou-se:
- Isso ocorre porque o choque com as energias deste mundo reavivaram sua viso h muito tempo desgastada.
- Como sou infeliz! Perdi tudo, at os olhos, at o Elias me deixou... Esse  o meu maior drama, no deixarei jamais ele ser de outra!
Ernesto retorquiu:
- Voc morreu h muito tempo, vtima de um tumor no crebro que toldou sua viso. No acha que  a hora de encontrar a felicidade? Seu marido  um ser humano, necessita 
de uma companheira para viver a vida. Porm, estranha fora faz com que nada d certo para a vida afetiva dele. Com o tempo ele passou a ter estranhas crises de 
convulses sempre que est com alguma companhia feminina; mal sabe que  voc que com suas energias provoca essas crises. No  hora de desistir e seguir outro rumo?
Ela comeou a chorar copiosamente:
- No! O Elias  s meu, jamais ser de outra. Mesmo cega tenho condies de ach-lo, como tambm as suas amantes. Quando percebi que minha energia doentia os afetava 
exultei, sabia que poderia facilmente manej-lo, era s jogar todo o meu dio sobre ele e estaria satisfeita.
Ernesto tentou contemporizar:
- Mas voc mesma sabe que nada pode traz-la de volta ao mundo. Hoje vocs vivem em diferentes faixas energticas, se a vida os deparou  porque assim  o melhor. 
Seu caso chegou ao limite permitido por nossos maiores e voc ter que se afastar dele por tempo indeterminado. Se fizer isso agora de espontnea vontade, ser levada 
a um local onde receber atendimento fraterno, voltar a enxergar e poder refazer sua vida. Caso no aceite ser afastada da mesma forma e ser levada para este 
lugar, olhe.
Flvio pareceu aquietar-se por alguns segundos, depois falou desesperado:
- No, por favor, no! Este lugar  horrvel, tudo, menos ir para semelhante stio.
Ernesto continuou:
- timo, mas ter que retirar toda a energia doentia que colocou nele agora!
- Como posso fazer isto se eu prpria estou doente? No conseguirei!
- Conseguir sim, basta chegar perto dele, pensar em Deus e no amor que sente no corao, visualize seu ex-marido bem e com sade, o resto ns faremos.
Flvio levantou e se aproximou de Elias, que chorava emocionado, depois novamente foi para o seu lugar e disse:
- Pronto, j fiz o que pude, agora posso ir?
Ernesto disse:
- Isso mesmo, siga este grupo que est ao seu lado e aproveite o tempo que ficar com ele para aprender a ser feliz. Ir para um pronto-socorro de refazimento e paz!
Houve alguns instantes de silncio, Elias se retirou para a cmara de passes e minutos depois Flvio, incorporado por Flix, comeou a falar:
- Amigos, neste ltimo caso samos vencedores. Esta irm chamada Florence habituou-se a achar que pode ser dona das pessoas. Ela ignora que s possumos a ns mesmos 
e que ningum  de ningum. Desde que viveu na Terra, atormentou o lar que Deus lhe concedeu com cime e posse desmedidos. Fez incontveis abortos para no ter que 
dividir o marido com os filhos. Insegura, passava a cercar o marido de perguntas e cedia a pensamentos de traio que entidades abismais colocavam em sua mente, 
chegava a "v-lo" nos braos de outra.
Chamada ao amadurecimento e reciclagem por um terrvel cncer de crebro, ela tornou-se ainda mais revoltada, e a proximidade da morte fazia com que pensasse mais 
no marido recebendo carinhos de outra. Chegou ao astral revoltada e infeliz. Continuou no lar que residia e apesar de cega sentia o marido onde quer que estivesse. 
Devido  falta de viso, comeou a apurar os ouvidos na tentativa desesperada de saber como o marido se comportava. Desde que ouviu tudo sobre os relacionamentos 
que ele pretendia manter, passou a colar-se nele, passando-lhe energias negativas. As mulheres corriam dele como o diabo da cruz, e ele, com o tempo passou a sofrer 
ataques epilpticos e finalmente encontrou nosso auxlio.
Houve alguns minutos de silncio em que todos meditaram, depois Flix continuou:
- O prximo caso tambm tem origem no cime; aguardemos as vibraes e passividades dos mdiuns.
Flvio e os companheiros vibraram por Anita. Ela, com o estado que mantinha no conseguia ir ao Centro.  importante que certos tratamentos de desobsesso ocorram 
com o prprio paciente presente.  que o local para este trabalho  impregnado de vibraes essenciais ao tratamento e de delicados aparelhos de captao e cura 
energtica. O paciente  distncia nem sempre  bem atendido e assim o processo quase sempre  muito lento. No lar do encarnado habitam espritos de diversos nveis 
de evoluo encarnados e desencarnados e as energias que eles emitem na atmosfera domstica quase sempre interferem negativamente nos casos atendidos a distncia. 
J no prprio Centro, alm da limpeza energtica do ambiente, s entram os espritos que os guardies da casa permitem. Quais doentes terrenos, os obsediados muitas 
vezes necessitam do tratamento no prprio hospital, e o Centro onde se realiza a desobsesso  qual um hospital terreno. Logo um esprito sbio se manifestou:
- Boa-noite! Que Jesus esteja conosco! Anita, subjugada por mentes infelizes sente que o pequeno ser que chegar poder atrapalhar sua vida com Flvio. Antes era 
o prprio esprito reencarnante que a fascinava, hoje ele j foi esclarecido e segue o caminho do bem. Todavia, um grupo de espritos do astral inferior percebendo 
seus pontos fracos, utilizou-se deles para subjug-lo. Flvio querido, acreditamos que esta obsesso vai durar at o nascimento do beb. Est difcil o auxlio, 
pois Anita comunga com eles dos mesmos pensamentos, porm quando estiver com o pequeno e indefeso ser nos braos, sentir que o ama mais que tudo, assim vencer 
o cime e o medo. Nesta hora cortar a ligao com os obsessores. No deixe que os psiquiatras a examinem, pois constataro erroneamente tratar-se de loucura. Acredite 
em Deus e nos amigos espirituais, estaremos sempre do seu lado. Continuem vibrando por Anita e rezando a Deus por ela.
Flvio, emocionado, no continha as lgrimas. Foram atendidos mais dois casos e a prece final de agradecimento deu por encerrada a sesso. Na sada, Flvio props 
a Cristiano e Laura um lanche em uma confeitaria prxima. Eles concordaram. Durante o lanche, Cristiano falava admirado:
- Nossa, mano, aqui vocs tm um grupo muito bem estruturado de desobsesso. Vejo que segue  risca as orientaes de dona Margareth.
Laura tambm comentou:
- Fiquei impressionada, o seu Elias foi libertado logo na primeira sesso!
Flvio explicou:
- Isto se deu justamente porque ele fez a parte que lhe cabia. Certamente aprendeu o que a vida quis lhe ensinar e de agora em diante deve seguir em paz. Outra chave 
importante  a elevao do esprito. Fazendo isso os espritos inferiores no tm mais condies de atac-lo.
Eles mudaram de assunto, comentando os pontos positivos na conquista do equilbrio interior. J em casa, Cristiano e Laura foram se recolher e Flvio como sempre 
foi para o quarto de hspedes. Anita trancava o quarto, mas ele precavido tinha outra chave e ela nem desconfiava. Antes de deitar foi v-la, estava dormindo profundamente. 
Flvio tambm deitou e depois de sentida prece adormeceu. Passava da meia-noite quando uma luz cinza-escuro surgiu no quarto de Anita. Ela foi se condensando e tomou 
forma humana: era Rafael, antigo namorado de Camila. Olhando por todos os lados ele comeou a gritar:
- Camila! Camila! Aparea!
Nada acontecia, ele novamente gritou, e por fim duas entidades iluminadas vieram trazendo Camila pela cintura. Ela, aps olh-lo profundamente, disse:
- O que deseja Rafael? Estou em vias de reencarnar e est sendo uma trajetria muito difcil. Por que me chama? J no temos mais nada um com o outro, bastam s 
dificuldades que estou tendo para renascer!
Ele, feliz por t-la encontrado, correu para abra-la.
- Como estou feliz em te ver! Parece que esses meses foram sculos! Tambm vou renascer! Tambm fui chamado por mentores elevados que disseram ter chegado h minha 
hora. Quando voc sumiu do Desterro todos ficaram admirados, afinal no  fcil fugir de uma organizao como aquela. Ester me explicou que seu caso talvez seja 
uma reencarnao involuntria. Fiquei sem entender at que aconteceu o mesmo comigo. Adormeci e quando acordei estava num outro quarto prximo de bondoso senhor 
que tudo me explicou. Disse que se eu concordasse em reencarnar espontaneamente seria maisFcil para mim; se eu me negasse, reencarnaria da mesma forma, s que 
com mais sofrimento. Diante daquele argumento resolvi ceder. Eles disseram que me comprometi muito com a lei quando ajudei a enlouquecer sua me. Agora terei que 
voltar a Terra e reparar o meu erroCamila chorava abraada a ele. Surpresa, ela viu um fio tnue cor de prata que se perdia pela manso. Rafael, olhando enigmtico 
para ela, perguntou:
- Quer saber onde est ligado este fio?
- Quero sim.
Ele levou-a pela mo ao quarto de Cristiano e qual no foi  surpresa quando Camila percebeu que o cordo energtico estava ligado ao ventre de Laura.
Estupefata, Camila indagou:
- Ento seremos primos?
- Isso mesmo. Os mentores dizem que nos comprometemos mutuamente e como membros da mesma famlia poderemos desta vez a acertar.
Noel e Carlota apareceram no quarto e disseram:
-  isso mesmo, dessa vez podem vencer. Muito j sofreram neste mundo por no entenderem que no devemos fazer o mal a ningum. Como primos devero sublimar a antiga 
paixo que ainda arde entre ambos e fazer dela um sentimento superior.
Rafael mencionou:
- Fui informado por Hilrio que viverei na Inglaterra, j Camila viver aqui no Brasil, dessa forma como iremos conviver?
Noel com olhos perdidos no infinito respondeu:
- A vida tem seus meios e quando ela quer alguma coisa certamente consegue. A vida  Deus em ao, por acaso esto duvidando do poder de Deus?
Eles se calaram e Camila disse:
- Venha Rafael, desejo mostrar-lhe o porqu das minhas dificuldades reencarnatrias.
Eles voltaram para o quarto onde Anita dormia um sono agitado.
Camila mostrou-lhe a testa e com horror Rafael perguntou:
- O que so essas manchas pretas circulando o crebro de Anita?
Carlota respondeu:
- So massas de energias negativas que os espritos plantaram no corpo astral dela,  atravs dessas massas que eles a controlam a distncia. Note que no h nenhum 
outro esprito alm de ns nesse recinto.  que a distncia eles tambm enviam pensamentos e conseguem desequilibr-la.
Rafael assustou-se:
- Eles podem nos ver agora?
- No - disse Noel. - Estamos numa faixa de energia que eles no conseguem captar. Eles nem sequer sabem que voc ser filha dela.
Camila entristeceu-se:
- Estou triste e confusa, em breve entrarei inconsciente na cmara para sofrer a restrio do corpo perispiritual e mesmo assim o medo me domina. Sinto que amo Flvio 
com todas as foras do meu corao. Temo mais uma vez recair no erro. Talvez isso contribua para que Anita sinta cimes injustificados do marido. Se hoje no desejo 
prejudic-la, ainda sinto-me perdedora, afinal ela o tem como marido e esse  o maior sonho de minha vida. Temo cair em outro deslize.
Carlota a abraou:
- No fique assim querida, ter todo apoio do mundo espiritual para sair vitoriosa. Alm disso, ele ser seu pai, no haver mais sentimento de paixo como antes. 
Voc sublimar esse sentimento, vendo no homem amado de outrora apenas um pai fiel e amoroso.
Os espritos conversaram mais alguns instantes e logo depois desapareceram rumo s colnias que habitavam.

21 - DEZOITO ANOS DEPOIS

- Papai, no deixe ela nos dominar mais uma vez, eu quero minha festa de aniversrio! - gritava Maria Antnia aos berros para Flvio.
Paciente ele dizia:
- Filha, pense bem... Eu e Anita fizemos um maravilhoso baile de 15 anos, nos outros anos tambm houve festa, este ano dever se conformar. Voc no precisa mais 
de tanto luxo, alm do que j tem.
Ela irritada e com feies colricas bradou:
- Foi ela mais uma vez! Eu juro que ela me paga! Sempre querendo interferir na minha vida! Um dia ainda fujo pra sempre desta casa e ningum mais vai me encontrar.
Dizendo isso subiu feito um furaco as escadarias e trancou-se no quarto. Francisca que observava tudo a distncia, chegou-se perto de Flvio e disse:
- Meu filho, essa menina est sendo educada de forma errada! Meu Deus, eu no entendo um pai feito voc, um sbio, um mestre, educar a filha dessa forma. Desde que 
nasceu, voc lhe faz todas as vontades.  por isso que est assim, acha que para ela tudo  sem limites.
- Tia, eu fiz o que pude na educao dela, mas reconheo que Anita no colaborou. Ela no  ligada  filha, no se preocupa com seu bem-estar, alis, a senhora que 
acompanha tudo desde que ela nasceu sabe muito bem disso.
A velha e simptica senhora retorquiu:
- No sei no... Detesto ver cenas como esta. Quando a me chegar do shopping vai ser outra briga.
Flvio ficou vermelho:
- Anita novamente no shopping? Ela no disse que ia cuidar da assistncia social do Centro?
- Isto foi o que ela disse a voc. Mas eu vi muito bem ela pegar o carto de crdito e telefonar para Giulia combinando fazerem compras.
Flvio ficou com raiva; por que Anita mentia tanto para ele? Amava a esposa, no queria brigar, depois conversaria com ela. Francisca relatou:
- No gosto de me meter na vida de ningum, mas acho que Maria Antnia fica pior sempre que se encontra com o primo Fabrcio; aquele doidivanas ainda vai colocar 
sua filha em maus lenis.
- No fale assim do Fabrcio, ele  um bom menino, talvez os pais dele tambm tenham errado um pouco na educao, mas no  um doidivanas como a senhora diz.
Francisca levantou-se e disse:
- Voc  quem sabe, agora irei ver se o jantar est pronto.
Na imensa e luxuosa sala de estar Flvio ficou sozinho. Comeou a relembrar todos os fatos desde o nascimento de Maria Antnia e tentaria ver com a ajuda dos seus 
amigos espirituais onde realmente tinha errado. Em seu quarto, Maria Antnia chorava copiosamente. Detestava quando era contrariada em alguma coisa. Por que sua 
me no era to legal como o pai? Em sua raiva culpava Anita pelo desgosto de no ter sua festa de aniversrio. O que os amigos de cursinho iriam pensar? A me, 
sempre a me! Um dia ela iria ver quem podia mais. Levantou-se da cama com os olhos inchados e olhou a decorao de seu quarto. Pensava: "No gosto de nada do que 
ela colocou aqui! S gosto das fotos do meu pai que enfeitam minha vida. Como foi boa essa idia que tive de colocar posters dele por todo o quarto! Como ele  lindo! 
Nem parece que tem 48 anos!". Ela continuava com o devaneio: "Que homem lindo  o meu pai, quando me casar quero que seja com um homem como ele! Sinto que s com 
um homem assim, serei feliz". E olhando as fotos do pai, como se ele fosse um dolo, ela conseguiu se acalmar. Foi ao telefone e discou, esperou um tempo e uma voz 
do outro lado da linha respondeu:
- Maria Antnia,  voc?
- Eu mesma, no sabe como j estou com saudades. Sabe primo, acho que s voc me entende. Se eu pudesse morar a na Inglaterra, acho que seria muito mais feliz.
Fabrcio concordou:
-  verdade, sua me concorda de bom grado, j o tio no deixa de jeito nenhum,  muito apegado a voc.
- O que me segura ainda  o meu pai, imagine agora que a dona Anita no quer dar minha festa de aniversrio. Estou com vontade de fazer uma besteira daquelas...
Ele pareceu hesitar, mas falou:
- Besteiras ns j fizemos a no Brasil, meu pai ficou desconfiado que me envolvi com drogas, mas no pde provar, imagine se tio Flvio descobre que voc j experimentou?
Ela corou:
- Nem pensar, jamais quero dar qualquer desgosto ao meu pai. Ele nunca vai saber, isso no ir se repetir.
- Assim espero.
A conversa durou ainda alguns minutos e logo depois eles desligaram. Maria Antnia deitou-se na cama e fixando o olhar no rosto expressivo de Flvio numa foto na 
cabeceira de sua cama, conseguiu adormecer. Pouco antes da hora do jantar Anita chegou com inmeras sacolas de compras. Ela, durante aqueles dezoito anos havia se 
transformado bastante. Acostumada com o dinheiro fcil, nunca trabalhara. Tentava auxiliar no Centro espiritual de Flvio, mas raramente cumpria as obrigaes. Sua 
diverso era fazer compras, passear pelos melhores shoppings da cidade, freqentar sales de beleza e festas. Flvio a amava muito, todavia percebia profundamente 
a sua transformao. Em comunicao com os espritos superiores, era sempre orientado a ter pacincia e tolerncia com a esposa. Hilrio havia lhe dito que no seu 
caso as brigas e as discusses, alm de provocar desarmonia no lar poderiam atrair uma separao, o que no seria nada bom, uma vez que ambos se amavam. E assim 
Flvio ia perdoando suas futilidades, tendo pacincia com os seus ataques de possessividade, sendo tolerante com suas amigas matronas e fteis. Flvio no conseguia 
entender por que Anita no mais engravidara desde que nasceu Maria Antnia. A princpio ele achou que era por culpa da ltima gravidez cheia de problemas. Anita 
continuou obsediada at a hora do parto, s cortando o vnculo quando pegou em seus braos a criaturinha frgil e dependente. Assim, sentindo o amor maternal pde 
se livrar do grupo terrvel que a subjugava mentalmente. Percebendo que ela havia se curado da obsesso com auxlio de espritos abnegados, ele a levou em vrios 
mdicos, que no constataram nenhum problema. Olhando a esposa subir a escadaria cheia de compras sem perceb-lo na sala, ele ficou imaginando porque no pudera 
ter mais filhos. Flvio ignorava que a esposa havia procurado h anos um feiticeiro, indicado por sua amiga Giulia, e atravs dele conseguiu uma beberagem que impedia 
a gravidez. No princpio ela ficou incrdula, mas com o passar do tempo pde perceber que funcionava de verdade. Durante todos esses anos ela tomava a bebida religiosamente. 
Jamais iria querer deformar o corpo outra vez, j bastava  primeira. Depois, cuidar de crianas no era to agradvel como pensara a princpio. Havia tambm o medo 
sempre presente de ter que dividir Flvio com outras pessoas, j bastava aquele Centro que tomava boa parte das horas de seu marido. Flvio continuou meditando sem 
conseguir entender algumas coisas. Por que o relacionamento entre Anita e Maria Antnia era to difcil? Nos primeiros anos Anita parecia am-la de verdade. Era 
cuidadosa, extremada, e nada poderia acontecer  filha sem que a preocupasse profundamente. s vezes ela chorava muito e s se aquietava nos braos do pai. O tempo 
passou e fatos estranhos comearam a acontecer. Maria Antnia se apegou muito ao pai e tinha cimes de v-lo com a me. Desde os sete anos ela discutia com Anita 
como se fosse adulta e s estava bem se estivesse com Flvio. Talvez por seu temperamento estranho Anita comeou a afastar-se da filha, e repente passou a olh-la 
com indiferena, pois percebia que de forma indireta e sem razo sua filha queria afast-la do seu marido. Maria Antnia foi crescendo e a situao se complicando. 
Tudo o que a me dizia ou fazia, ela tinha por gosto ser do contra, e as discusses entre as duas eram inevitveis. O clima na casa de Flvio foi ficando permissivo 
ao contato com espritos inferiores, assim os espritos que j mantinham contato com Maria Antnia desde a ltima encarnao como Camila, voltaram a assedi-la. 
Dessa forma os obsessores se instalaram naquele lar. O Centro de desenvolvimento espiritual que Flvio dirigia com dedicao e amor, bafejando proteo espiritual, 
prosseguiu com seu enorme sucesso. As sesses de desobsesso curavam muitas pessoas: loucos irreversveis pela medicina, neurticos, sexlatras, violentos, subjugados 
e fascinados de todos os matizes. Flvio, com o passar dos anos, sentiu sua freqncia medinica aumentar a tal ponto que lhe foi possibilitada uma visita a um mundo 
distante, com uma civilizao muito avanada. Desde ento multiplicara seus esforos, fazia muito para que com seus trabalhos pudesse passar tudo o que aprendia 
com os espritos evoludos. Sabia perfeitamente das entidades negativas que viviam no seu lar com Anita e Maria Antnia, e se conseguia doutrinar muitas delas afastando-as, 
outras se aproximavam atradas pelos pensamentos que elas emanavam. Lembrou da terrvel obsesso que sua esposa passou durante os nove meses de gestao. Parecia 
haver enlouquecido completamente. Quando nasceu o beb, Anita voltou ao normal e lembrando-se perfeitamente de tudo o que havia feito chorou muito, envergonhou-se, 
porm Flvio com pacincia e amor explicou-lhe tudo sobre o processo obsessivo pelo qual ela passara. Anita pareceu ceder  espiritualidade, todavia, anos depois 
desligou-se completamente, levando vida ftil e vazia. Quando desceu para jantar, vendo o marido absorto em profundos pensamentos, aproximou-se:
- Meu amor, no sabia que estava a. Chegou agora?
Ele beijando-a delicadamente nos lbios respondeu:
- No, estava muito antes de voc chegar, vi quando chegou com as compras. Por que no foi ao Centro como o combinado?
Ela corou um pouco:
- Deixei a Ftima no meu lugar. Ela aceitou e ento resolvi distrair-me com as vitrines.
Ele procurou mudar de assunto:
- J viu nossa filha?
- No... Ela est em casa?
- Est sim e muito magoada com voc!
Anita sentou-se no sof fingindo-se de desentendida:
- Comigo, por qu? Ah, deve ser pela festa de aniversrio. Se for por isso saiba que este ano no vai haver de jeito nenhum. Todos os anos ela quer festa, sinto 
dizer, mas acostumamos mal a nossa filha.
Flvio replicou:
- Acho que devemos ceder desta vez, afinal ela  uma boa filha, merece sua festa.
- Ela  boa filha pra voc, no v como me trata? Parece at que sou sua inimiga. A Cleide e a Giulia j perceberam e andam perguntando o porqu desta atitude. Acho 
bom que voc que  o rei para ela faa alguma coisa.
- Voc  que deve conquistar sua filha.  distante e fria. Na sociedade em que vivemos atualmente os papis se inverteram. Antigamente eram os pais que sofriam com 
os filhos; a rebeldia, a abertura dos costumes, a droga fizeram muitos pais infelizes e ainda fazem. Porm hoje o contrrio acontece: so os filhos que sofrem amargamente 
com as atitudes dos pais. Muitos so autoritrios, acham que so os donos absolutos dos filhos, querem domin-los a todo custo, esquecem-se que os filhos so almas 
independentes e que tm um programa de reencarnao a cumprir neste mundo. Outros fazem como voc ficam frios e distantes, no do carinho, no procuram entender 
o que lhes vai na alma, no so amigos dos filhos. Se os pais soubessem a responsabilidade que tm com eles, deixariam de lado o papel social e se tornariam os melhores 
amigos dos filhos. So os laos de amizade entre pais e filhos que fazem a felicidade de uma famlia.
Anita discordou:
- O que voc diz no  verdade, no sou fria, apenas reajo s atitudes dela. Essa menina  muito estranha, nunca a vi olhando para mim com amor, j com voc, parece 
at paixo!
Flvio ia retrucar, mas foi interrompido pela voz de Francisca falando que o jantar estava na mesa. Os trs comeram em silncio e logo depois cada um foi para seu 
aposento. Antes de deitar Flvio foi ver a filha:
- Posso entrar? - disse ele colocando a cabea na porta.
- Claro que sim paizinho, o senhor sempre pode tudo comigo.
Ele entrou e sentou-se na cama, colocando a cabea de Maria Antnia em seu colo.
- Por que voc no desceu para o jantar? Voc no comeu nada! Pode ficar fraca.
Ela encarando-o disse:
- No quero ver o rosto dela!
- No fale assim de sua me, ela faz o que pode por todos ns, no a recrimine.
Ela no gostou do que ouviu e disse:
- No quer dar minha festa, sempre encontra uma maneira de me contrariar. Ser que o senhor  cego? At tia Francisca concorda comigo.
Flvio contemporizou:
- Ela no quer dar a festa, mas eu posso lhe dar uma boa viagem. Que tal curtir o fim de suas frias com seu primo Fabrcio?
Ela deu vrios pulos de alegria.
- Ah, voc  o melhor pai do mundo. Claro que quero, quero muito.
Beijou Flvio repetidas vezes no rosto.
- Agora, prometa ser melhor com sua me, seja mais cordata. Compreenda-a melhor.
Ela, movida pela alegria do momento, abraou o pai e disse:
- Por voc eu fao tudo!
Nesse instante havia tanta paixo no olhar da filha que Flvio se incomodou. Tirou-a de seus braos e aps beij-la na face se retirou. Em seu quarto Flvio remexia-se 
na cama inquieto. Rezou, meditou, mas no conseguiu adormecer. A sensao que sentiu quando Maria Antnia olhou-o daquela forma foi horrvel. Onde teria visto aquele 
olhar? No fundo sentiu uma energia macabra vindo da filha. S quando o dia comeou a clarear  que conseguiu adormecer. No outro dia pela manh, enquanto Flvio 
havia sado para o Centro,  notcia da viagem de Maria Antnia se espalhou pela manso. Ela e Francisca comemoravam, quando Anita chegou de surpresa.
- Quer dizer que minha filhinha vai viajar e nem sequer contou  me?
Fingindo no perceber o tom irnico que a me colocava na voz, Maria Antnia respondeu contente:
- Sim, o meu paizo me deu de presente de aniversrio uma viagem  Inglaterra. A propsito, ele me pediu que eu esquecesse as mgoas que tenho da senhora e que fiquemos 
em paz.
Ela correu a abraar a me, que por estar na frente de Francisca retribuiu com fingida alegria. E Anita disse falsamente:
- Que bom querida, o que eu no queria era mais uma daquelas suas barulhentas festas, porm uma viagem vem at em boa hora. Eu te ajudo a arrumar a bagagem.
Francisca, alegre com a cena, disse:
- Oh! Que bom que a alegria voltou a reinar aqui! E voc menina, no se cansa de estar com seu primo Fabrcio? Afinal, ele estava aqui h apenas duas semanas.
- Claro que no me canso, Fabrcio fala a minha lngua,  o meu melhor amigo. Nunca me dei to bem com algum como me dou com ele.
Francisca redargiu:
- timo! Agora v tomar o seu caf, afinal voc no pode ficar fraca seno no poder viajar.
Ela saiu para a cozinha e Anita foi para o telefone, discou um nmero e esperou:
- Al, Giulia? No sabe a novidade que tenho! Vou me ver livre da pestinha por mais de duas semanas, no  uma ddiva?
- Como assim? Fale logo!
- Ela vai para a casa dos tios na Inglaterra. Alm de ter me livrado da festa horrvel, vou me livrar tambm de sua presena incmoda.
A amiga gargalhou:
- Sabe que voc chega a ser cmica? Nunca vi uma me agir assim com uma filha, voc no gosta mesmo dela, no ? Anita tentou se explicar:
- No  isso,  que Maria Antnia sufoca muito o pai, no me deixa curtir o marido, agora ele ser s meu!
- Ento voc tirou a sorte grande mesmo. E nossa ida ao shopping hoje, ainda est de p?
- Ah, infelizmente no poderei ir, ontem notei que o Flvio no gostou muito da minha sada, e sabe como , detesto constrange-lo fao tudo para que ele me admire 
e me ame. Alis, vou aproveitar,  tarde para ir ao cabeleireiro.
- Ah bom, vou ver se a Cleide quer ir comigo... Ah! Voc sabe da ltima? A filha da Marisa est de romance com um amigo de meu marido.
- O qu? No me diga...
Elas continuaram falando da vida alheia sem perceber que espritos inferiores abraavam-se a elas prazerosamente.

22 - O RECOMEO DE UMA HISTRIA DE AMOR

Fabrcio exultou com a notcia da breve chegada de sua prima a sua casa. Cristiano e Laura acharam estranha essa sbita viagem, porm calaram-se, a alegria do filho 
nico era tudo para eles. Desde a mais tenra idade Fabrcio apresentava problemas de comportamento, sentia-se rejeitado como se fosse uma pessoa com motivos para 
esconder-se do preconceito. Seus pais levaram-no a vrios psiclogos, porm no adiantou, sua revolta continuava contra tudo e todos. S com a prima  que se dava 
bem. Na Inglaterra ele fez diversos cursos, mas no havia ainda ingressado em nenhuma faculdade. Na bem mobiliada sala do apartamento de seus pais, Fabrcio comentava: 
-  uma alegria estar com Maria Antnia,  a nica que me tende.
Laura lendo uma revista, interrompeu para dizer: 
-  que voc precisa fazer mais amizades, socializar-se com jovens de sua idade. No pode continuar trancado em casa, s saindo com Maria Antnia. Seu pai disse 
que quando melhorar seu comportamento vai te dar aquele carro que tanto sonha. Ele exultou:
- Mesmo? Ento juro que vou me esforar. Mas  difcil, sinto que as pessoas podem a qualquer momento me rejeitar, me colocar de longe...
Cristiano entrou na sala chegando do trabalho:
- Oi, soube que meu filho est com motivos de sobra para ficar contente, Maria Antnia ficar aqui durante trs semanas.
Fabrcio estava ainda mais alegre:
- Trs semanas? Isso  uma ddiva! Laura levantou-se indo beijar o marido.
- Hoje vamos ao Centro?
Cristiano respondeu:
- Claro! E Fabrcio tambm dever ir conosco. H tempos que dona Margareth pergunta por voc, tem sentido sua falta l.
Ele j subindo as escadarias disse:
- No vou hoje, essa notcia me deixou muito feliz, irei me comunicar agora com Maria Antnia pela Internet, temos muito que conversar.
Laura e Cristiano ficaram tristes. Por que o filho no se interessava pelo lado espiritual? De repente, eles pensaram que Maria Antnia e Fabrcio deveriam ser espritos 
endurecidos, que viveram juntos em vidas passadas e que retornavam agora para tentarem melhorar. Mal sabiam que o filho era a reencarnao de Rafael, que em ltima 
existncia foi negro e muito discriminado. Ignoravam tambm que Maria Antnia era Camila, a antiga namorada de Flvio. O dia to esperado chegou. No aeroporto Laura 
e Cristiano foram esperar Maria Antnia que no cabia em si de felicidade. Logo estava abraada ao primo. Foram para casa. L chegando, Laura questionou:
- Qual o motivo dessa viagem logo no final de suas frias?
Ela franziu o cenho:
- Mame, como sempre! No sei como duas irms podem ser to diferentes, a senhora  doce, suave, parece um anjo. J mame  fria, distante, sempre preocupada com 
o papai. A senhora sabe que ela nunca me deu ateno.
Laura mordeu os lbios, sabia que era verdade, sua irm havia se modificado muito depois que a filha nasceu, mas no podia concordar com isso na sua frente.
- No fale isso da sua me, ele faz o que pode por voc e seu bem-estar. Esta viagem, por exemplo, foi por conta dela.
Maria Antnia sentou-se no sof e com ar de enfado contou:
- A senhora se engana com a dona Anita; se estou agora na Inglaterra, podendo ficar uns dias com meu primo que tanto amo, isso se deve ao meu pai. A sua querida 
irm fez questo de no fazer a minha festa de aniversrio este ano, ela sabe que todos os anos noMeu aniversrio, papai d festas. Mas, para me provocar, como 
sempre, ela fez questo de dizer que no faria. Me rebelei, jurei me vingar, e meu pai como sempre, para ajeitar a situao entre ns duas me ofereceu esta viagem.
Laura surpresa, perguntou:
- O que voc fez para sua me lhe negar essa festa? Deve ter sido algo muito grave!
- At a senhora duvida de mim, tia? No fiz nada. O que minha me sente  muito cime de meu pai, ela tem inveja do relacionamento que tenho com ele desde pequena, 
s pode ser isso. No tem outra explicao.
Laura tambm suspeitava o mesmo. Anita, infelizmente, era muito possessiva, ser que at da filha ela tinha cimes? Resolveu mudar de assunto:
- Como est  tia Francisca?
- Tem se recuperado bem, eu pensei que ela nunca iria sair daquela crise horrvel pela qual passou.
Foi  vez de Cristiano falar:
- Eu tambm. Mas ela  uma mulher muito forte, sempre soube que sairia daquele problema.
Maria Antnia disse: - O bom disso tudo  que ela foi morar em nossa casa, passou a ser nossa governanta e  uma pessoa com quem sempre posso contar.
A conversa continuou fluindo agradvel at que Fabrcio convidou a prima a irem para o computador. Havia sites maravilhosos que ele queria lhe mostrar. Subiram para 
o quarto e ficaram a ss. Depois de muito tempo na internet, eles foram lanchar. A cozinha estava vazia quela hora da noite, ento iniciaram uma conversa.
- Sabe prima, voc  a nica pessoa que me entende, parece que s vezes o mundo est contra mim. No me sinto bem com as pessoas que me circundam.
Ela olhou-o penalizada e disse:
- Enquanto eu estiver por perto nada de mal ir te acontecer, eu juro.
Ele embeveceu-se:
- Como voc  linda! De repente...
- Diga! De repente...
Ele ficou envergonhado, no poderia expor assim o que sentia, resolveu contemporizar:
- De repente me sinto muito bem com voc,  s isso.
- Isso mesmo?
- ! Agora vamos dormir que j est tarde. O papai disponibilizou o carro s para ns amanh.
Ela alegrou-se:
- Mesmo? Que bom, assim poderemos visitar todos aqueles lugares que vimos da ltima vez. Aquela turma ainda est unida?
- A turma da pesada? Est sim, mas s tenho nimo de estar com eles quando voc est aqui.
- No Brasil tambm  assim. S tenho disposio para ir s festas quando voc est l.
E assim os dois jovens foram dormir.
Pela manh eles foram ao lugar que planejaram. Era um bar bem movimentado apesar da hora matutina. Vrios jovens tatuados, bebendo muito, estavam l. Um grupo os 
avistou e gritou:
-  isso a manos, quem  vivo um dia aparece!
Um jovem tatuado e fumando uma espcie de cigarro aproximou-se de Maria Antnia.
- E a boneca, por que sumiu? E nossa troa, hein?
Fabrcio interrompeu:
-  assim que nos recebe? Cad o bagulho? O outro pareceu se lembrar e disse:
- Tem para quem puder pagar, mas voc  filhinho de papai, deve ter dinheiro de sobra.
Fabrcio retirou alguns dlares da carteira e deu ao jovem:
- Tenho s para me divertir hoje, pra mim e pra Maria Antnia.
Ela estava assustada, havia experimentado droga no Brasil, mas no havia gostado muito. Falou ao primo:
- Eu no quero e voc tambm no deveria querer. Continua usando esse troo?
- No, mas com voc aqui  motivo para comemorar.
Ela retirando-se disse:
- Prefiro comemorar de outra forma, se ficar aqui vou embora.
Outro rapaz j drogado, aproximou-se:
- No estou te reconhecendo Toninha, da ltima vez voc estava muito mais descolada.
-  que ouvi uma palestra de meu pai em que ele dizia que os espritos viciados, que j viveram na Terra se drogam, sugando as energias atravs de ns. Eles comearam 
a rir:
- Ah, ento seu pai  feiticeiro, se entende com os espritos? Ela ficou com raiva, criticar seu pai era seu ponto fraco.
- No fale assim de meu pai, ele  um Deus para mim e tudo quanto diz  sempre verdade. No quero e nem vou mais provar isto. Vamos embora Fabrcio.
Ele obedeceu e j no carro ela disse:
- Nossa, a turma est cada vez pior, nunca mais volto aqui! - Tambm no precisa exagerar, quer dar uma de puritana? Sei muito bem que voc  chegada num bagulho, 
lembra l em So Paulo?
- Eu no sou chegada, apenas provei uma vez e foi voc quem me deu.
Eles discutiram um pouco, mas logo depois estavam s boas. Todas as noites iam para o quarto e ficavam na internet. Cristiano tinha controle rgido sobre o aparelho 
e Fabrcio no conseguia entrar em sites pornogrficos ou de violncia. Uma noite, os olhos de Fabrcio e Maria Antnia se cruzaram de forma diferente. Ambos sentiram 
um frio no peito. Ela comeou:
- No sei... De repente senti algo estranho por voc. Um desejo, uma sensao esquisita, sabia que voc  um homem bonito? No to lindo como o meu pai, mas  muito 
bonito!
Ele sorriu:
- Voc e essa sua paixo por tio Flvio. Ainda no conseguiu se curar?
- Claro que no! Se ele no fosse meu pai... Havia de tir-lo da mame.
Ele assustou-se:
- Nem pense nisso! Que coisa feia!
Ela alisou seus cabelos, dizendo:
- No penso, sei que  impossvel, meu amor pelo seu Flvio  platnico - disse meio sarcstica.
Uma entidade viciada penetrou no recinto e soprou-lhe ao ouvido:
- No  impossvel nada, boba! Quantas filhas existem nesse mundo que se relacionam com os pais? Muitas! Faa uma investida, voc pode!
Ela sentiu um calor imenso e o rosto de seu pai apareceu-lhe vivo no pensamento. Pouco depois falou com olhos vidrados:
- Sabe que me veio uma idia? Bem que posso investir no papai!
Carlota, que tambm estava em esprito no quarto, tentou impedir, inspirando Fabrcio:
- Diga a ela que semelhante ato  um crime gravssimo perante as leis de Deus. Faa-a voltar em si, voc pode, ela gosta muito de voc.
Fabrcio, ao ouvir a barbrie dita pela prima, interviu na hora:
- Isto  um erro muito grande, voc  louca? Pai  pai, respeite-o ou no serei mais seu amigo. O incesto deve ser um crime terrvel!
Ao ouvir estas palavras a entidade despida resolveu investir contra o rapaz, porm Carlota o protegeu, lanando sobre ele uma capa energtica azulada. Quando em 
contato com a capa protetora a entidade foi arremessada a metros de distncia. Maria Antnia, ouvindo as palavras do primo, pareceu haver sado de um transe. Envergonhou-se 
e comeou a chorar:
- No devia jamais ter dito o que disse, peo-lhe perdo. Fabrcio respondeu:
- Eu a perdo desta vez, mas se falar de novo isto, no quero mais saber de voc.
Ela, j refeita, alisou os cabelos e sem perceber o beijou nos lbios. A partir daquele dia eles comearam a namorar escondido. Estavam muito felizes, mais que o 
habitual e Laura percebeu:
- Nossa, como vocs esto alegres, o que aconteceu para ficarem desse jeito?
- Nada me - respondia Fabrcio. - Talvez as visitas a lugares tursticos tenham deixado eu e Maria Antnia mais felizes.
Ela aproveitou:
- J que esto to felizes assim hoje, vou lhes fazer um pedido e no deve ser negado.
Maria Antnia ficou curiosa:
- De que se trata?
Laura respondeu:
- Ir conosco no Centro de dona Margareth. Hoje  noite teremos uma reunio onde espritos elevados daro instrues a todos os freqentadores. Devem ir conosco.
Eles tinham um programa para a noite, mas bem poderia ser depois do Centro. Fabrcio respondeu:
- Iremos sim!
Laura ficou muito feliz:
- Nossa! Seu pai ficar honrado com a presena de vocs.
A noite finalmente chegou e com Cristiano ao volante todos foram para o Centro.
Cristiano olhou para Maria Antnia e disse emocionado:
- Foi aqui que seu pai estudou quando era mais jovem e pde se tornar tudo o que  hoje.
Ela respondeu:
- Sei disso, realmente, meu pai  um astro!
Cristiano sorriu:
- Esses adolescentes...
Laura, Maria Antnia e Fabrcio sentaram-se com algumas outras pessoas na platia, enquanto Cristiano foi para a enorme mesa onde outros mdiuns j estavam concentrados 
e em meditao. Dona Margareth, j muito velha, porm ativa, deu incio ao trabalho com uma prece. Logo depois um dos integrantes da mesa abriu ao acaso O Evangelho 
segundo o Espiritismo e leu uma mensagem sobre os laos de famlia. As luzes foram apagadas ficando apenas duas lmpadas azuis. Uma mulher de rosto sereno estremeceu 
levemente e comeou a falar:
- Felizes so aqueles que buscam as verdades espirituais. Neste mundo costuma-se dar mais valor s coisas materiais do que s espirituais. Para ser feliz,  necessrio 
inverter esses valores, porque o mundo material  passageiro, enquanto o nosso esprito  eterno. Hoje vim para alertar uma jovem que necessita muito aprender isso. 
O fascnio pelas coisas do mundo tomam conta de seu ser ofuscando sua viso, criando iluses, o que fatalmente a levar  frustrao e  desiluso.  preciso ver 
as coisas como elas so. Voc tem endeusado pessoas sem perceber que so apenas seres humanos, com qualidades e defeitos.  hora de sublimar este sentimento que 
tanto a tem prejudicado. Essa jovem est presente e deve procurar amar seu pai com os olhos do esprito. A vida os colocou unidos para que aprendessem a transformar 
o sentimento que os uniu em vidas passadas em algo divino. Ele j conseguiu, porm voc insiste em permanecer no mesmo erro. Oua a voz de sua alma, ela quer lhe 
oferecer a verdadeira alegria que a levar  felicidade.
Maria Antnia estremecia e chorava agarrada  sua tia. Tudo o que o esprito lhe disse era a realidade. Amava seu pai de forma exagerada e estranha, seria a hora 
de mudar tudo aquilo? O esprito continuou:
- O amor quando vivido de forma verdadeira jamais provoca sofrimentos, muito pelo contrrio,  o amor que produz a felicidade, a alegria e o bem-estar.
Maria Antnia continuava chorando sem parar, acolhida por sua tia. O esprito se despediu e logo depois outros se manifestaram, todos falando do amor e dos laos 
familiares.
Quando chegaram em casa os jovens no estavam com nimo para conversar, deixaram o programa para depois e foram para seus quartos, Cristiano, j no leito com a esposa, 
comentou:
- Querida, veja como a vida faz tudo certo, Maria Antnia ouviu tudo o que precisava, justamente na noite em que foi ao Centro, que bela mensagem!
Ela concordou:
- Isto  verdade, Maria Antnia  muito apegada a Flvio, assim como minha irm Anita. s vezes me pergunto: por que Flvio atrai tantas pessoas dependentes e apegadas? 
No posso negar que o apego de minha irm e minha sobrinha  exagerado. No sei como ele suporta.
Cristiano sentou-se na cama e ligou o abajur: - Laura,  fcil entender por que Flvio atrai essas pessoas. Ele  uma luz, e todos querem ficar em volta de uma 
luz, s trevas ningum d importncia. A natureza nos mostra que a luz produz atrao por onde passa, note como os insetos voam para ela atrados pelo seu calor 
e fascnio. Assim  Flvio: uma pessoa iluminada, abnegada e feliz. Ningum gosta de ficar prximo de quem se queixa ou tem baixas energias.
- Isto  verdade, mas Anita e Maria Antnia se apegam demais, tenho a impresso que o usam como muleta.
Cristiano concordou:
-  verdade, porm Flvio faz sua parte, explica que toda dependncia  sinal de imaturidade e atrai sempre o sofrimento. Elas  que no querem ouvir, neste caso 
a responsabilidade  toda delas.
Laura concordou e eles continuaram conversando, at que vencidos pelo cansao, foram forados a adormecer. Fabrcio e Maria Antnia continuavam namorando escondido 
sem que ningum percebesse. Uma tarde estavam sozinhos no quarto e Fabrcio muito arrojado props:
- Voc  tudo para mim! Est na hora de ser minha de verdade, tem que ser agora!
Ela meio envergonhada negou:
- Acho que no  ainda a hora, est muito cedo, estamos ficando h apenas duas semanas.
- O tempo suficiente para que eu tenha certeza de que voc  a mulher de minha vida.
- Eu tambm te amo, mas... Sabe como , acho que aqui no seu quarto no  lugar.
Ele com voz melflua disse:
- Por que no? Ningum vai chegar...
Ela acabou cedendo e j estava seminua quando percebeu uma presena no quarto. O susto foi grande, Laura estava esttica. Eles comearam a se recompor e, refeita 
do susto, Laura vociferou:
- Vocs so loucos? Como se atrevem a esse absurdo? Meu Deus! O que sua me vai dizer quando souber? - Olhou para o filho.
- E voc? Ter uma sria conversa com seu pai quando ele chegar. Maria Antnia no pode ficar mais aqui, dever voltar o mais rpido possvel para o Brasil.
Ela, trmula de vergonha e de susto, suplicou:
- Tia, por favor no diga nada  minha me, meu pai ficar sabendo e no saberei como agir perante ele.
Laura sentia sua irritao aumentar:
- Ainda pede que eu omita uma situao como esta? Seu pai ser o primeiro a saber, eu mesma ligarei para ele agora e contarei tudo. Aprendi com seu pai que devemos 
ser verdadeiros doa a quem doer, pois a verdade nunca  prejudicial. Nunca esconderei isso. Fabrcio gritou:
- A senhora no tem o direito de nos separar dessa forma, ns nos amamos!
Laura estava atordoada: 
- Pelo visto isso no comeou hoje, a situao  pior do que eu pensava, se descobrir que houve algo mais entre vocs, no saberei qual ser minha reao.
Maria Antnia chorava imaginando como seria a reao do pai. Por que cometera aquela loucura? Amava Fabrcio era verdade, mas sentia um pavor ao pensar que o pai 
pudesse perder a imagem pura que tinha dela. Mas uma coisa era certa, nada a separaria de Fabrcio. Laura tomou um calmante para esperar o marido chegar, tendo Maria 
Antnia e Fabrcio sentados  sua frente. Horas mais tarde, quando Cristiano chegou, ela contou tudo nos mnimos detalhes. Cristiano tentou acalmar-se e faz-los 
perceber o erro que estavam cometendo. Porm, eles no concordaram com nada que ele dizia. A notcia caiu como uma bomba na casa de Flvio. Anita rodava de um lado 
a outro esbravejando contra a filha. Francisca tentava acalm-la enquanto Flvio permanecia pensativo no sof. Anita vendo-o calado explodiu ainda mais:
- No vai falar nada? Veja no que se transformou a nossa filha, numa rameira qualquer. Algo me dizia que ainda teramos um srio desgosto com essa menina!
Flvio olhou-a sem se perturbar:
- Nada h de dramtico.  voc que exagera as coisas, nossa filha j tem dezoito anos e o aparecimento do sexo  inevitvel. Alm disso, Laura garantiu que nada 
de mais aconteceu, ela chegou e conseguiu impedir.
Anita continuava colrica:
- E se Laura no tivesse chegado? Tudo estaria consumado uma hora dessa e voc ainda encara com naturalidade.
Ele imperturbvel continuou:
- O adolescente precisa vivenciar muitas coisas para amadurecer, o sexo e o amor so duas dessas coisas. O que h de mal nisso? Os pais no devem estimular a prostituio, 
porm a vida sexual sadia deve ser discutida com eles dentro do prprio lar.
- No posso acreditar no que estou ouvindo, no! Os ouvidos no so meus. Voc est compactuando com uma infmia dessas?
Flvio sempre calmo respondeu:
- No  questo de compactuar e sim de tentar compreender. Nossa filha retorna que dia?
- Daqui a dois dias penso que estar aqui.
Francisca se pronunciou:
- Acho que os nimos esto demais exaltados aqui, que tal fazermos uma orao chamando os guias espirituais? Precisamos de paz!
Anita sentiu realmente que precisava de oraes. Os trs unidos oraram pela famlia e assim ficaram mais calmos.

23 - AUXLIO ENTRE A TERRA E O CU

Na colnia Campo da Redeno rica estava aflita na sala de espera de Hilrio. Ao seu lado estavam Marina e Carlota.
- No fique aflita, rica, tudo acontece de forma certa e Deus est no comando de tudo, para que temer?
Ela se acalmava sempre que ouvia Carlota, mas mesmo assim no conseguiu parar o turbilho de pensamentos que lhe invadiam a mente.A porta se abriu e um casal ainda 
jovem saiu dela. Carlota, referendo-se a eles disse:
- Veja, esse casal desencarnou num desastre de carro deixando trs filhinhos sobre a Terra. Esto abalados, porm confiam em Deus. Hoje eles vieram pedir permisso 
a Hilrio para visitar o lar terreno, onde a prole fica com a av materna. Pelos semblantes felizes conseguiram permisso.
Chegou  vez de rica, que ansiosa, entrou na sala do simptico e sorridente senhor que os convidou a sentar. Hilrio como sempre j sabia o motivo da visita e foi 
direto ao assunto:
- Sei que est aflita com a famlia de Flvio, veio pedir para intervir e auxiliar, porm este  um momento delicado, quando as pessoas tero que usar o livre-arbtrio. 
Nestes casos ns no podemos interferir, apenas auxiliar aliviando as dores.
rica comeou a chorar:
- Carlota me falou do que pode acontecer e estou apavorada, meu filho no merece passar por uma coisa dessas.
Marina interveio:
- Tambm acho, ele  muito bom, tirou-me daquele vale onde estava perdendo minhas energias e se estou bem  por causa dele.  uma injustia o que ocorrer.
Hilrio olhava profundamente nos olhos da me e da filha, pensou por alguns segundos e respondeu:
- Observem com cautela. Vocs chegaram a esta colnia h pouco tempo, no conseguem entender certas coisas e por isso julgam a vida injusta. Voc, rica, que passou 
mais de vinte anos morando naquela organizao justiceira, onde a verdade est corrompida por uma moral permissiva e ilusria, ainda tem muitos pensamentos materialistas 
e grosseiros. Quando achamos que determinado fato  injusto, estamos vendo com os olhos da matria. S com os olhos da alma conseguimos enxergar a verdade da vida. 
Ela jamais erra, e
permite que as conseqncias das nossas atitudes sirvam para aprendermos os valores eternos do esprito. Marina tambm no est em condies de ver os fatos. Aps 
tempos de prostituio no Vale do Amor Livre conseguiu ser libertada pela alma elevada de seu irmo e por isso julga que tem o direito de livr-lo das provas que 
passar. Ignora que a Inteligncia Divina tem tudo sob controle e age sempre no bem de todos, e o faz do seu jeito, o que nem sempre ocorre da forma como gostaramos. 
Ningum tem o poder de manipular a vida. Querer fazer isso  uma iluso.
Marina e rica envergonharam-se um pouco, porm no se deram por vencidas. rica disse:
- Sei que Flvio me ensinou, me retirou da priso onde vivia e por isso sou muito grata. Ele  meu filho amado. Mas ser que o destino  assim inexorvel e fatal? 
Nada h que impea a tragdia?
Hilrio explicou:
- O destino no  inexorvel e fatal, uma vez que as coisas mudam conforme as pessoas agem. No caso da famlia de Flvio, h Camila que reencarnada no conseguiu 
vencer sua paixo inferior e seus sentimentos mrbidos. Estudou conosco, renasceu sob a superviso de espritos abnegados, porm o contato com as energias do mundo 
fsico fez com que todas as tendncias ms retornassem. Nisso no h nenhuma fatalidade. Na Terra h dois tipos de energia predominantes: a negativa e a positiva. 
E o esprito encarnado que faz a opo pela qual vai transitar. Maria Antnia estar de frente com uma escolha muito importante da vida dela, que vai decidir todo 
o seu futuro, ela vai optar pelo caminho do amor ou pelo caminho da dor. S ela poder decidir o que fazer. Marina replicou:
- No h como Anita evitar a situao?
- Sempre existe um caminho onde se pode inverter as prioridades. O caminho do amor  mais fcil,  de alegrias e xitos. Porm as pessoas esto acostumadas a pensar 
que o amor pode esperar. Por isso atraem todo tipo de sofrimento. O amor a Deus, a si mesmo, ao prximo,  natureza no podem esperar pelo dia de amanh, deve ser 
vivido desde j.  Brevemente haver um grande expurgo no planeta Terra, onde milhares de espritos desencarnaro compulsoriamente de forma coletiva, e no tero 
mais a chance de reencarnar l. Infelizmente se Maria Antnia fizer o que pretende no poder mais nascer na Terra. J Anita vive pensando que doar-se, amar, ser 
feliz, libertar-se, pode esperar pelo dia de amanh. Pelo que conhecemos da personalidade dela  provvel que no consiga evitar a catstrofe.
rica quis saber mais:
- Voc fala em expurgo.  verdade que isto acontecer? Na igreja sempre ouvia falar no fim do mundo,  o que ocorrer com a Terra?
Hilrio sorriu amavelmente: 
- Absolutamente no. Nosso planeta no morrer por completo, pois est sob a lei Divina de progresso. Todavia, seu processo de regenerao j est em andamento e 
certas pessoas que no acompanham a vibrao do mundo novo, no podero mais permanecer nele. Os violentos, os assaltantes, os assassinos, os viciados em aberraes 
sexuais e em txicos, os egostas, os orgulhosos, os que guardam dio e os trapaceiros sero expurgados para aprenderem em um mundo mais condizente com suas vibraes. 
A Terra vai entrar em um clima de regenerao e nada poder perturbar quem permanecer sobre ela.
Marina quis saber:
- Como isso ocorrer? Em que data?
- O tempo ainda  uma incgnita para ns. O que podemos afirmar segundo os espritos mais elevados  que ser em breve. Essa varredura tambm se dar em plano astral. 
O fogo purificador levar os espritos inferiores para a crosta de outro mundo ainda primitivo e renovar a atmosfera espiritual do planeta. As colnias e habitaes 
dos espritos inferiores tambm sero destrudas pelo fogo purificador.
rica estava abismada:
- Trata-se de castigo contra os infratores?
A resposta foi clara:
- Castigo  uma palavra que no existe no dicionrio divino. Trata-se do retorno das prprias aes malficas para quem as produziu. Na realidade  o caminho da 
aprendizagem para aqueles que optaram pelo sofrimento. Vivendo em um mundo primitivo, sem rdio, anestesia, cinema, recursos mdicos, eles aprendero a valorizar 
o dom da vida e a respeitar o espao de cada um.
Marina voltou ao assunto anterior:
- Quanto a Flvio nada poderemos fazer? Ficaremos de braos cruzados?
- No, doaremos energias revigorantes e saudveis. Quanto ao resto pertence apenas ao livre-arbtrio de cada um. E, mudando de assunto, hoje vocs podem visitar 
quem desejam.
rica sentiu-se trmula, finalmente iria rever o seu to amado esposo. Marina iria junto. Carlota que as levaria ao local pediu:
-  necessrio que vocs duas estejam bem emocionalmente para fazer a visita que desejam, se forem levar energias depressivas, o melhor  permanecerem por aqui.
Marina garantiu:
- Estou bem, apesar de saudosa, mas pelo que sei saudade no faz mal.
- Eu digo o mesmo - voltou a falar rica. Elas despediram-se de Hilrio e volitaram at a crosta terrestre. Entraram numa creche grande e muito bem organizada, 
foram at uma das salas e perceberam que era a hora do lanche. De longe avistaram uma assistente dando comida na boca de um garoto que tinha cinco anos. A criana 
parecia revoltada por no conseguir comer como os coleguinhas, porm a docilidade da assistente o acalmava.
rica emocionada dizia:
-  difcil aceitar a situao na qual renasceu meu pobre ngelo. Sem as duas mos, muitas oportunidades lhe sero tiradas.
Marina abraava-se ao garoto e dizia:
- Ah, paizinho, como te amo, sempre que puder estarei contigo. Pena que no o valorizei quando estava na Terra, sinto que no fui boa filha.
Carlota interferiu:
- No tenham sentimentos de pena para com ele. D e piedade destroem o ser humano, pois indicam que ele no tem foras para lutar e vence. Isso no  verdade, todo 
ser humano tem muita fora e pode vencer esteja onde estiver. A medicina avana e em breve ele ter mos artificiais, podendo trabalhar normalmente como qualquer 
outra pessoa.
Marina perguntou:
- Por que ele escolheu vir desta forma?
- Ele quis se punir pelos atos de roubo que cometeu nas duas ltimas encarnaes. Foi orientado de que podia aprender pelo amor, poderia vir com o corpo sadio e 
utilizar as mos como mdico-cirurgio, dando passes nos centros espritas, ou como mdium escrevendo sobre a espiritualidade e os importantes valores do bem. Porm 
ele, individualista e egocntrico como sempre, preferiu sofrer sozinho ao invs de modificar seu carma, trabalhando em favor de si mesmo e do prximo.
- Como  ruim a autopunio! Por isso em minha prxima encarnao farei de tudo para aprender pela lei do amor - disse rica. - Sei que me comprometi quando fiz 
aquele aborto, mas estou disposta a receber aquele esprito novamente e a trat-lo com amor e dedicao, ensinando-lhe o caminho do bem.
- Eu tambm - disse Marina. - Desejo fazer algo de til para mim e para a humanidade. As pessoas esto sofrendo muito sobre a Terra e necessitam de orientao e 
consolo. Se puder contribuirei para acabar com a prostituio e ensinar a viver a sexualidade sadia.
Espero conseguir, pois assim tambm estarei me auxiliando.
Depois de lanar energias positivas sobre ngelo, elas se despediram e foram para a casa de Flvio. Fazia dois dias que Maria Antnia havia retornado da Inglaterra 
e o clima estava pssimo em todo o ambiente. Fechada em seu quarto ela dava vazo s lgrimas, enquanto Anita recebia na sala sua amiga Giulia.
- Ai, como me arrependo de no haver dado aquela festa que a pestinha pediu, para mim tudo foi pior, s pode ser castigo.
Giulia mexendo delicadamente no belo arranjo de flores ao lado do sof concordou:
- Foi mesmo, essa menina merecia uma bela sova, imagine, namorar com um primo! Se fosse minha filha, mesmo nessa idade apanharia.
- Imagine se o Flvio vai deixar! Ela nunca apanhou na vida porque o pai no permitiu. Acho que deixei o Flvio cuidar demais dessa menina, por isso deu no que deu. 
Ele prega que os castigos e surras no educam ningum, imagine s. Se no fosse ele, Maria Antnia veria o que  uma boa educao.
Giulia com um tom admirado na voz retorquiu:
- Engraado... Na sociedade voc e o Flvio so admirados como um casal modelo. Ningum imagina que voc vive nesse clima com sua filha, para todos voc  a me 
bondosa e perfeita.
Anita declarou:
- Fao isso para no deixar minha imagem manchada. Mas entre mim e o Flvio tudo  s mil maravilhas, nisso todos tm razo. Mas no sei o que acontece entre mim 
e Maria Antnia, parece que somos completamente estranhas, inimigas, talvez. Desde que ela nasceu perdi muito espao junto ao Flvio, ele s d importncia a ela. 
Isso me ofende muito.
- Voc deve se conformar, afinal filhos so para a vida toda. Ainda bem que sou feliz com os meus. Onde est Maria Antnia agora?
- L no quarto chorando, fazendo drama para o pai derreter-se todo e liberar o namoro.
Francisca subiu as escadarias com uma bandeja de lanche, olhando de soslaio para as duas.
- Essa velha maluca  outra que perturba a minha vida. Desde que se mudou pra c vive se metendo em nossos problemas. Quanta coisa tenho de aturar pelo meu marido! 
Giulia estava curiosa:
- Afinal, por que essa Francisca veio morar aqui? Ela no tinha uma bela casa em bairro elegante?
- Nossa, voc est mal informada, parece que nem somos amigas - retorquiu Anita. - Essa velha meteu-se com uma confeco h tempos e no deu certo, no tinha tino 
para os negcios. A loja foi endividando-se e ela comeou a tomar dinheiro com agiotas. Como a crise no foi superada, teve que vender a casa e a loja. Como nico 
parente no Brasil Flvio deu guarida a ela aqui. Agora est como governanta. Veja s, no faz nada aqui, mete-se na minha vida e ainda ganha por isso. S mesmo nessa 
famlia!
Giulia lamentou:
- Avalio sua dor querida, se ao menos seus pais estivessem vivos, voc poderia passar uma temporada com eles como fazia antigamente.
- Nem fale Giulia, nunca vou perdoar Deus por ter matado meus pais daquela forma naquele desastre. E o Flvio ainda garante que a vida faz tudo certo.
A amiga ouvia admirada:
- Quer dizer que voc no segue a filosofia dele? Estou admirada cada vez mais com voc.
-  claro que no d para no acreditar em algumas coisas, porm na maioria das vezes finjo que aceito. Sabe como , uma esposa apaixonada faz tudo pelo seu casamento.
Nessa hora Francisca interrompeu:
- Com licena, Anita, mas preciso falar com voc seriamente.
- Do que se trata? Se for sobre Maria Antnia, nem quero saber!
-  sobre ela sim. Acho bom voc fazer alguma coisa antes que ela adoea. Levei o lanche e ela no comeu. Isso j faz dois dias, o que quer? Que ela seja internada?
- Ora, como se a culpa fosse minha. O que ela est fazendo  s para chamar a ateno do pai, pensa que no sei?
Francisca pediu:
- Por favor, converse com ela, diga que libera esse namoro. Voc sabe como so essas coisas de adolescente, logo tudo passa.
Anita teve um ataque de fria:
- No acredito que ela ainda mantm esse pensamento! Vou j falar com ela. Direi umas boas verdades.
Francisca interrompendo a passagem da escada bradou:
- Veja s o que vai fazer para depois no se arrepender. O Flvio  muito paciente, mas uma hora dessa pode mudar, cuidado!
Encarando-a com rancor Anita vociferou:
- Saia da minha frente, eu sei como educar minha prpria filha, afinal eu sou a me.
Francisca saiu e sem olhar para Giulia, foi rezar em seu quarto. Aquela casa precisava muito de boas vibraes. Anita invadiu o quarto da filha, onde grossas cortinas 
impediam a luz do sol de penetrar. Vendo Maria Antnia com a cabea nos travesseiros, perdeu a pacincia.
- Eu pensei que voc j havia se conformado, mas no! Agora est recorrendo  boba de sua tia. Saiba que acontea o que acontecer voc no ir jamais continuar o 
namoro com o Fabrcio. Eu no permitirei.
Maria Antnia, o poo vivo da obsesso, levantou transtornada, olhos vidrados a encarar a me com rancor:
- Miservel,  assim que quer destruir a minha vida? Saiba que sou mais forte e vencerei. Tenho condies de tirar o papai de voc para sempre!
Anita empalideceu, ser que estava ouvindo direito?
- Voc disse o qu? Repete, que eu no entendi bem. Sem se esquivar, Maria Antnia continuou colrica:
-  isso mesmo dona Anita, voc me separa do Fabrcio e eu torno sua vida um inferno. Fao meu pai te abandonar. Voc morrer sozinha e abandonada.
Anita, sem se conter, desferiu um forte tapa no rosto da filha, que tombou ao cho.
Maria Antnia, de onde estava, repetiu entre dentes:
- Voc vai me pagar por isso, eu juro que vai. Maldita seja voc e sua alma! Primeiro rouba o meu pai, agora rouba o Fabrcio. Um dia ainda sentir o peso de minha 
ira. Anita, olhos desafiadores, respondeu:
-  o que veremos. Bateu a porta e desceu as escadas deixando para trs todo o dio e rancor da filha. Giulia j havia partido e ela resolveu tomar uma ducha e 
tentar relaxar.
Em seu quarto Maria Antnia estava com dio triplicado. Espritos inferiores j em simbiose intua-lhe vrias idias. Ela rodava sem parar, atormentada por tantos 
pensamentos. No saberia viver sem Fabrcio, sua me haveria de lhe pagar. Ela precisava pensar numa maneira de neutralizar a atitude da me, mas como? Pensou, pensou 
e conseguir achar uma sada. At que de repente uma idia veio-lhe a mente e tomou forma. Era isso que iria fazer! Como no pensara nisso antes? Rapidamente consultou 
a lista telefnica e achando o numero, discou:
- Al, preciso falar com Janjo, ele est? Uma grossa voz masculina, sem nenhuma simpatia, perguntou:
- Quem deseja falar?  que ele est sempre muito ocupado e s fala com pessoas que tenham assunto importante.
- O meu assunto  importante, posso falar com ele amanh de manh? Diga que  a Maria Antnia de Menezes, certamente se lembrar de mim.
O outro demorou alguns instantes, depois respondeu:
- Tudo certo garota, amanh ele ir receb-la.
Ela agradeceu e desligou. Seu plano seria perfeito, ningum iria desconfiar de nada. Desceu mais refeita e j encontrou o pai na sala. Correu a abra-lo. Flvio 
retribuiu o abrao com prazer, adorava ver a filha feliz. O que tinha acontecido? Por que apesar das confuses ela estava feliz? Vendo a filha abraada ao marido 
Anita perguntou:
- Nossa, essa sua filha  uma caixinha de surpresas! H menos de meia hora estava no quarto, me agredindo e chorando. Agora j ri e o abraa.
Maria Antnia esclareceu com fingimento:
-  que pensei em tudo o que a senhora me disse e resolvi seguir seus conselhos. Meu lance com o Fabrcio no pode continuar. A senhora estava coberta de razo.
Flvio sentiu-se mal. De repente, uma onda de energias pesadas invadiu o ambiente. Ele no saberia de onde vinham, mas as estava sentindo. Seria da filha? Algo lhe 
dizia que ela estava mentindo. Resolveu arriscar:
-  isso mesmo que quer para sua vida, filha? Pense direito, sei que sua me tem boas intenes, mas s voc pode decidir seu destino, sei que  forte e capaz.
Os olhos de Maria Antnia brilharam. Como o pai era maravilhoso! Resolveu continuar com a mentira:
-  isso mesmo pai, resolvi pr um ponto final nessa histria maluca. Desejo toda a felicidade a Fabrcio, mas sei que no ser comigo. O meu namorado ainda vai 
aparecer.
Flvio fingiu acreditar e no perguntou mais nada. Foram jantar e assim esqueceram os incidentes do dia.

24 - A VINGANA 

No outro dia pela manh Maria Antnia saiu cedo em direo a uma rua pobre da Zona Norte de So Paulo. Tinha certeza de que era ali que Janjo morava. Pagou o txi, 
deu ordem para que esperasse e seguiu andando. Numa rua de m aparncia um sobrado luxuoso se destacava. Ela se aproximou do porto e falou com o segurana: 
- Sou a Maria Antnia, tenho hora marcada com Janjo agora de manh, gostaria que voc fosse avis-lo. 0 segurana, com cara de poucos amigos, avisou por um aparelho 
de rdio, que havia uma moa querendo falar com o chefe. Aps dar o nome, ele liberou a passagem e ela entrou. Passou por um jardim bonito e foi conduzida pela empregada 
ao segundo andar. Pelo corredor ela passou por vrias portas at chegar a uma, repleta de seguranas. Pouco depois estava frente a frente com o famoso traficante. 
Olhando-a intimamente, ele perguntou:
- O que a traz aqui? Veio buscar o bagulho para algum? At onde eu sei voc no  viciada, apenas provou aquele dia com meu filho e seu primo na festa que demos 
aqui em casa. Nunca pensei que fosse voltar, afinal, filha de um homem metido a santo, sabe como .
Ela foi direto ao assunto:
- O senhor sabe que sou amiga de seu filho e sei de muitas coisas sobre voc. Inclusive que mata sem d nem piedade seus inimigos no trfico. Sei tambm que no 
faz isso pessoalmente, contrata pistoleiros especializados para esse fim. Seu filho num "daqueles" momentos me contou tudo.
Ele cocou a barba preocupado:
- O que tem isso a ver com sua visita?
- Tudo a ver! Quero que um de seus pistoleiros extermine uma pessoa para sempre da face da Terra. Tem que ser um servio bem-feito e sem deixar pistas!
Ele se admirou:
- Olha que tenho visto muito bandido por a, da pior espcie, mas nunca vi nenhum assim com cara de anjo. Por acaso quer matar a namoradinha de algum garoto por 
que est apaixonada? Se for isso, no precisa chegar a tanto, uma crueldade praticada com classe separa qualquer casal, sem precisarmos recorrer ao crime.
Ela foi clara:
- Quero matar a minha me, o mais rpido possvel!
Janjo abriu a boca e fechou-a rapidamente de tanta surpresa, poderia esperar qualquer maldade, mas uma dessas estava fora de seu pensamento.
- Menina, j pensou bem no que quer fazer? Isto  muito grave. Veja, at eu tenho amor  minha me, cuido dela com todo carinho. O que a sua fez de to srio?
Maria Antnia demorou, mas respondeu:
- Ela existe! Isto  o que ela fez de mais grave, existir.
Janjo estava cada vez mais admirado e com um tom grave na voz ele argumentou:
-  melhor desistir do que vai fazer, certamente se arrepender muito e no poder mais voltar atrs.
Um esprito de mulher que acompanhava Maria Antnia, irritada, soprou-lhe ao ouvido:
- No se deixe levar pela conversa dele, insista, v at o fim. S ser realmente feliz quando sua me morrer, a ter o Flvio e o Fabrcio s para voc. No seja 
fraca!
Ela no registrou suas palavras, mas de repente sentiu aumentar o desejo de ver sua me morta:
- No vou me deixar levar por suas palavras. Quem  voc para me dar lies de moral? Sei que j tem mais de quarenta mortes nas costas. O que quero  que voc contrate 
a qualquer preo um de seus pistoleiros para dar cabo de minha me o mais urgente possvel. No posso esperar mais.
Ele coou a barba indeciso, depois retrucou:
- Est bem, poderei contratar uma pessoa de Gois que trabalha pra mim. Mas ela cobra caro e eu tambm quero minha comisso.
- J esperava por isso. Tenho como conseguir esse dinheiro. Entre em contato com ela o mais rpido possvel. Desejo saber o valor ainda hoje. Este aqui  o nmero 
de meu celular. - Ela pegou um pedao de papel com um nmero anotado e deu para ele. Logo depois se despediu e foi embora.
No trajeto de volta para casa Maria Antnia sorria satisfeita. Com esse ato ficaria livre para sempre de sua me e teria seu namoro liberado. Depois cuidaria para 
que Flvio no se casasse novamente, no suportaria v-lo com outra. Quem tivesse viso espiritual perceberia vultos negros andando de mos dadas com Maria Antnia, 
que estava  beira de cometer mais um crime. Porm, nada acontece sem que as foras do bem estejam atentas, e em Campo da Redeno os mentores juntamente com Marina 
e rica estudavam o caso.
-  triste perceber que apesar de tudo Maria Antnia no conseguiu vencer sua paixo - lamentou-se Carlota. - Tudo fizemos para que ela pudesse crescer sem sofrimento, 
mas por livre-arbtrio escolheu o caminho da dor. s vezes penso que ela est regredindo espiritualmente.
Hilrio explicou:
- Isto seria impossvel. Na escala da perfeio ningum desce, apenas estaciona. No emaranhado das reencarnaes sucessivas podemos perder at mesmo as conquistas 
intelectuais, porm as morais jamais so perdidas. Acreditem, Maria Antnia no est madura para agir diferente, alm do mais ela encontra reciprocidade. A energia 
da me est atraindo esse crime.
- Que horror! - bradou rica sem entender. - Onde est Deus que no impede esse crime? Estar omisso?
Hilrio sorriu:
- Dia chegar em que todos percebero como Deus age, acionando a evoluo. No movimento de seres que povoam o Universo, os mais inferiores auxiliam o progresso de 
outros e assim por diante. Se as pessoas vencessem a violncia ntima, lutassem para banir o pessimismo e o medo do corao, ningum mais seria assassinado ou violentado. 
Anita no tem a violncia estampada no rosto como muitos a tem, porm acredita no mal, teme o mal, acha que ele  mais forte que o bem, v sua filha como uma rival. 
Ao lado de Flvio teve a oportunidade de se modificar, porm a ignorou. Leva vida ftil onde o materialismo impera. Se Maria Antnia conseguir o que pretende ser 
porque a me necessita desta experincia para evoluir, no como fatalismo, mas por afinidade.
Marina pareceu entender:
- Ento  por isso que as pessoas so assassinadas? Elas atraem o crime para suas vidas?
- Lgico! No existem vtimas inocentes sobre a Terra. Num crime, num assassinato, o que h  o encontro de vibraes do assassino com o assassinado. Na Terra h 
pessoas "assassinveis" que morrem com facilidade, seja por balas perdidas, crime premeditado, passional, etc. Essas no esto dando o melhor de si em seu nvel 
de evoluo, esto carentes de si mesmas e de Deus. Em contraposio existem pessoas "no assassinveis"; essas no morrem atravs da violncia, do crime, do roubo 
e nem so violentadas, isto se d porque j venceram a violncia ntima, acreditam na fora do bem, cultivam a espiritualidade, so otimistas, no dramatizam nem 
invadem a vida alheia. Infelizmente, se Anita morrer  porque  "assassinvel".
rica em dvida questionou:
- Ento, quer dizer que o ato de Maria Antnia est certo? Ela no ser castigada por Deus?
Hilrio delicadamente respondeu:
- Um crime, de qualquer espcie s traz resultados negativos, portanto  sempre um mal. Deus no castiga ningum, todavia dirige o Universo atravs de leis perfeitas 
e imutveis que do sempre a cada um segundo suas obras. O esprito que hoje chamamos de MariaAntnia, j viveu como Helena; naquela poca j acreditava na violncia, 
por isso optou por matar Anete, sua rival no amor por Henrique. Recebeu a violncia de volta quando foi assassinada pelo capanga que virou seu amante. Em sua penltima 
reencarnao continuou acreditando no mal, como soluo de problemas e novamente morreu assassinada. Agora mais uma vez recorre ao crime e desta vez o pior de todos: 
contra a sua prpria me. Certamente sofrer muito com essa atitude.  uma obsediada em altssimo grau.
Marina perguntou:
- Ser justo Anete morrer assassinada mais uma vez? E pela mesma pessoa?
- Para Deus ela estar sempre aprendendo ainda que pelo caminho da dor. Quando viveu como Anete, julgava-se fraca e Indefesa, acreditava na fora do mal, temia o 
mal. Por isso foi morta tragicamente. Na presente existncia, para fugir da experincia anterior, seu esprito entrou nas iluses. Acha-se dona de Flvio, pensa 
que pode fazer o que quer por causa do dinheiro e da influncia do marido. Prometeu amar, melhorar-se, aproveitar a evoluo de Flvio para crescer junto, porm 
tem invertido todo o processo. Se as pessoas soubessem o quanto a violncia ntima as prejudica lutariam para modificar suas ms inclinaes. Mas no mar encapelado 
do mundo a maioria esquece-se de cultivar o bem, a espiritualidade. Creia Marina, se Anita procurasse o bem verdadeiramente ningum conseguiria assassin-la. Aps 
esta reunio, Hilrio os convidou para continuarem observando os fatos, para ajudarem se fosse preciso. Na manso de Anita, tudo reinava na mais aparente tranqilidade. 
Ela sentia-se aliviada, j que a filha estava modificada, mostrando-se benevolente e no falava mais no primo Fabrcio. Com isso, sem mais problemas para cuidar 
voltou  vida vazia de sempre. Francisca continuava cuidando de tudo, porm ao perceber Maria Antnia ao telefone, ficou desconfiada. Com quem ela estava conversando 
que quando a viu ficou to assustada? Ela sentia energias ruins no ambiente, mas no conseguia perceber de onde vinham. Era noite de reunio espiritual na casa de 
Flvio. Uma vez por semana ele reunia a famlia na grande sala de estar e orava em favor da humanidade, recebendo instrues psicofnicas, que eram gravadas por 
Francisca num aparelho de som, para serem estudadas depois. Aps a prece inicial, Anita com rosto compungido leu uma mensagem sobre a fora do pensamento positivo 
e o livre-arbtrio. Depois dos comentrios de Francisca e Flvio, as luzes principais foram apagadas, ficando o ambiente em penumbra. Concentrado, Flvio entrou 
em transe e comeou a falar:
- Boa-noite irmos, a mensagem de hoje ser sobre a boa nova da paz. O nosso Mestre Maior ensinou-nos o perdo das ofensas e o arrependimento. At quando vamos adiar 
a conquista destas virtudes? Em nossa iluso deixamos tudo para depois, ignoramos que a felicidade s pode ser vivenciada no hoje, nunca no passado ou futuro. Iludidos 
projetamos para o futuro nossos sonhos e desejos, imaginando que s seremos felizes com eles. Para realiz-los no titubeamos em ferir, magoar e interferir drasticamente 
na vida alheia, achando que assim alcanaremos a paz que tanto sonhamos. Porm, o que comea errado jamais poder dar certo, e na colheita de nossa semeadura receberemos 
a desiluso e a dor, forando-nos a amadurecer e a reparar.  o momento de descobrir que o amor e a felicidade verdadeira no podem esperar pelo dia de amanh. O 
Criador no espera o dia de amanh para nos amar, porm ns cultivadores que somos de toda sorte de iluses, esperamos o amanh para am-lo e praticar seus ensinamentos. 
O nvel de evoluo de cada um conta sempre. Hoje todos que habitam este lar esto tendo uma chance preciosa de parar para pensar no que vm fazendo de suas vidas 
e onde esto colocando seus coraes. A partir de agora no podem mais utilizar a desculpa da ignorncia para encobrir os erros, todos aqui j esto cientes do mal 
que no devem fazer e do bem que devem praticar. Quem sabe mais tem o dobro de responsabilidade. O Nazareno nos disse: "Muito ser pedido h quem muito foi dado". 
E essa  a realidade. Conservem a paz no corao, o otimismo e a conduta reta, marcada sempre pela tica e pelo verdadeiro bem. Gostaria de dizer que ainda d tempo 
de corrigir muitos erros e evitar o sofrimento, pelos descaminhos nunca se chega ao caminho, pela maldade nunca se chega  felicidade. Quem comete o mal mergulha 
o subconsciente nas sombras da infelicidade, e como o subconsciente trabalha na materializao das nossas crenas,  a infelicidade que teremos em nosso caminho. 
S o amor liberta, s a prtica do bem verdadeiro pode levar  prosperidade completa. A mensagem foi encerrada e Flvio voltou ao normal. Beijou a filha e a esposa, 
abraou Francisca e alguns amigos que estavam com ele na sala. Quando foram se recolher, j no quarto, Flvio comentou com a esposa o teor da mensagem:
- Algum nesta casa est querendo fazer alguma espcie de mal. Nunca me engano, sempre que Hilrio d mensagens deste tipo  porque algum est na prtica do mal. 
No me negue Anita,  voc? Ela, que estava deitada, levantou-se nervosa:
- Como voc pode perguntar isso a mim? Afinal, no me conhece depois de tantos anos de casamento? Seria incapaz de fazer mal a uma mosca, voc sabe.
- No sei... Voc mudou muito de alguns anos para c. Sinto que no  a mesma moa com a qual casei.
Ela corou, nunca quis que o marido tivesse queixas dela.
- As coisas podem mudar meu amor, isso no quer dizer que eu passe a cometer maldades. Voc diz que eu mudei, mas eu no vejo em que. Afinal, no estou sempre amorosa 
com voc? Nossa vida ntima nunca mudou nesses anos todos, continuamos anos amar como sempre.
- Voc diz isso porque analisa apenas o seu lado afetivo.  claro que continuo amando-h como no primeiro dia, porm tem levado vida ociosa, briga demais com Maria 
Antnia, no tem gestos de carinho,  fria com as outras pessoas, s vejo-a sendo amorosa comigo. s vezes acho seu amor por mim um pouco obsessivo.
- Nunca pensei que um dia chegaramos a ter essa conversa. Achava que voc nunca ia me cobrar por no ser religiosa. Sempre achei que se um dia nosso casamento acabasse 
seria por causa de sua religio. Afinal, no sou a mulher religiosa como voc queria.
Ele enterneceu-se, amava Anita sinceramente apesar de todos os seus defeitos. No queria e nem gostava de brigas. Resolveu contemporizar:
- Tudo bem meu amor, aceito-a como voc . Vamos esquecer esse nosso papo e pedir a Deus que se algum aqui deste lar estiver com a maldade no pensamento, possa 
se arrepender e voltar atrs.
Anita, vendo-o rezar, sentiu-se aliviada. Aquela conversa estava seguindo um rumo que no estava lhe agradando. Imagine se o marido descobrisse que ela utilizava 
ervas para no engravidar? Temia perd-lo para outro filho. Jamais engravidaria de novo. No silncio da noite, Anita refletiu sobre seu comportamento, mas influenciada 
por entidade das trevas concluiu que estava sempre certa e que no precisava mudar em nada. Assim adormeceu. Sonhou que estava numa praa arborizada e uma brisa 
suave banhava seu rosto, era noite e o cu estava estrelado. De repente, uma figura de mulher surge-lhe a distncia e ao aproximar-se lentamente provoca-lhe muito 
susto:
- Mame! Como pode? A senhora no morreu com papai naquele desastre horrvel?  mentira, devo estar tendo alucinaes. - Dizendo isso fugiu desesperada para o corpo 
fsico, acordando banhada de suor.
No astral Alexandra dizia triste:
-  Alonso, minha filha nem mesmo conseguiu me ver, conversar comigo, to mergulhada est nas iluses do mundo. Admito que devo ter errado muito na educao dela. 
- Comeou a chorar.
Alonso, companheiro da comunidade onde viviam, confortou-a:
- No pense assim amiga, lembre-se de que voc tambm educou Laura e ela no  nem um pouco parecida com a irm. Neste caso no foi questo de simples educao domstica, 
mas sim de nvel de evoluo espiritual. Enquanto Laura mais evoluda conseguiu captar facilmente suas palavras e exemplos, Anita, mais primitiva, esqueceu-se e 
caiu nas malhas do pessimismo e da futilidade. No   toa que vai atrair semelhante crime para a sua vida. Alexandra, enxugando as lgrimas e sentada em um banco 
tosco, comentou triste:
-  difcil aceitar a morte. Temo que Flvio no consiga reagir positivamente perante os fatos. Aqui Anita ficar comigo, mas l ele ficar sozinho.
Alonso sorriu delicadamente ao dizer:
- Ningum est sozinho. Flvio j tem amadurecimento suficiente para vencer esta prova. Confiemos em Deus. Ela concordou e juntos foram para o ptio interno da 
operosa colnia.
Em seu quarto Maria Antnia agarrada ao travesseiro no conseguia dormir. Ser que aquela mensagem foi para ela? No, no podia ser. O que ela iria fazer era um 
favor ao mundo retirando dele aquela criatura cruel e infeliz que era sua me. Quando a viu lendoTo linda mensagem teve ganas de agredi-la. Mas o que poderia fazer? 
Se quisesse ter vida boa e feliz ao lado do pai e de Fabrcio teria que extermin-la. Levantou-se e sobre o toucador havia um porta-retratos dela bem pequena, com 
trs anos talvez. Sua me estava junto. Naquela poca tudo era feliz, por que as coisas tiveram que mudar? Reconheceu que gostava de provocar a me, mas ela era 
tambm culpada. Nunca havia tido gestos de carinho com ela. As outras mes que ela conhecia eram amorosas com os filhos, cobriam-lhe de carinhos e beijos, faziam-lhes 
todas as vontades. Porm sua me era distante, fria e egosta. At tia Francisca que era solteirona e nunca havia tido filhos, tinha arroubos de carinho para com 
ela muito mais que sua prpria Anita.
Olhou o relgio digital: eram duas horas da manh. Pela manh receberia de Janjo a informao da quantia necessria para o crime. No poderia desistir. Olhou para 
os posters de seu pai na parede e pensou: "Como um homem to bonito pode ter gostado de uma pessoa como sua me?". Em sua perigosa iluso se via como a mulher ideal 
para Flvio, a nica que ele realmente merecia. No, no poderia desistir. Acertaria tudo com Janjo. Ela no percebeu, porm Ester, sua antiga companheira quando 
na erraticidade, estava do seu lado insuflando-lhe idias macabras:
- Isso mesmo Camila, no desista. Onde est aquela jovem corajosa e voluntariosa que conheci? Essa zinha que voc chama de me  sua rival, roubou-lhe seu amor e 
vai lhe roubar a vida se voc permitir. Acabe com ela agora ou sofrer muito no futuro!
Ela no registrava suas palavras, porm sentia o dio por sua me aumentar:
- No posso e no vou desistir. O que quero fazer ser o melhor para a minha vida. Ela j me rouba a ateno de meu pai, agora quer me separar de Fabrcio. Isso 
no poder acontecer, mostrarei para ela quem  mais forte". - Pensando assim foi para a cama e depois de horas rolando insone, conseguiu adormecer.
Maria Antnia, em seu egosmo, esquecera-se completamente de tudo quanto aprendeu com o pai desde criana. Flvio ministrava-lhe aulas de espiritualidade, pensamento 
positivo, mentalismo e metafsica. Todavia, os sentimentos perversos prevaleceram e ela no se lembrava o quanto o assassinato  crime terrvel perante o tribunal 
da prpria conscincia, muito pior se cometido contra um dos genitores. A responsabilidade  dobrada.

25 - O DIA DO CRIME 

- Al!? Janjo? Tudo certo para hoje? A quantia  aquela mesma?
- Sim, mas deve ser entregue s trs horas como o combinado. Se no estiver na hora marcada nada feito. - Sim, estarei l!
- Como voc arranjou esta quantia?  muito alta. Voc  espertinha, como conseguiu enganar o velho?
Ela irritou-se:
- Isto no  de sua conta. Meu pai no  velho,  o homem mais jovem e bonito que existe! Como ousa pronunciar o nome dele com sua boca suja?
- Olha garota, vamos terminar esse papo antes que eu me irrite com voc. Esteja l s trs.
Maria Antnia desligou o celular e continuou andando por uma avenida larga e movimentada. De repente chegou a uma bela praa. A fonte luminosa jorrava e alguns pssaros 
brincavam felizes redor dela. Ela sentou sem perceber a beleza do lugar, s tinha olhos para seus problemas. Uma senhora com aproximadamente 80 anos tambm chegou 
e sentou-se perto dela. Que horas so, mocinha?
- Dez e meia.
- Voc costuma sempre vir a este local?
- No, estou aqui por acaso - respondeu j irritada. A velhinha olhou-a profundamente e disse:
- J observou como so belos e inocentes esses pssaros? Brincam felizes sem se preocuparem com nada.  uma beleza! Sempre que estou com problemas venho aqui retirar 
deles preciosa lio.
- Era s o que faltava! - pensou Maria Antnia. - Lio de pssaros! O que esses seres degradantes poderiam oferecer? Lies sim eram aquelas que seu pai dava em 
seus cursos. A senhora, parecendo ler seus pensamentos, disse:
- Vejo que voc no entendeu o que eu disse e nem consegue enxergar a lio que eles podem nos dar. A natureza  muito rica e com ela podemos aprender muitas coisas. 
Porm os homens esquecem-se do belo, do natural, vivem como se fossem robs, esquecem-se de que na natureza esto todas as lies que ns precisamos para viver melhor. 
s vezes penso que a nica religio que existe no mundo  a natureza. J imaginou que beleza?
Ela deu de ombros:
- Pra mim religio  aquela que meu pai professa, ele  muito religioso e sbio, fique sabendo!
- Sei que seu pai  assim, mas vamos falar dos pssaros. Deveramos ser como eles. Despreocupados, brincam, trabalham sempre confiantes de que o dia de amanh lhes 
vir belo para suprir todas as suas necessidades. Ns somos diferentes, desconfiamos da vida, vivemos sem f, achando que o dia de amanh ser sempre de sofrimento 
e problemas. No confiamos na Fonte da Vida e nem sabemos sequer que ela  Deus em ao.
Maria Antnia contestou:
-  claro que os pssaros so despreocupados, so somente pssaros, seres sem nenhuma importncia. Nem sequer pensam nem sentem nada.
H senhora muito viva respondeu:
- Engana-se, antes de serem animais eles so uma centelha divina neles reside o princpio inteligente que um dia tornar-se- esprito. Neles, por instinto, h a 
confiana num ser divino que tudo prov e comanda. Ns, os seres humanos, somos a raa mais desenvolvida da Terra, porm a mais sofredora. O pensamento, o raciocnio 
que nos foram dados como mrito, para nosso crescimento e progresso, esto sendo usados para a destruio e a derrota. Creia querida, nunca colheremos flores se 
plantarmos sempre espinhos.
Maria Antnia ficou pensativa. Parecia at que aquela velha lia seus pensamentos.Resolveu terminar a conversa:
- Olha minha senhora, j ouvi falar de tudo isso no Centro de meu pai, no preciso saber de mais nada. V cuidar de sua vida que eu cuido da minha.
Dizendo isso saiu apressada e no percebeu que a mulher desapareceu rapidamente indo buscar outros espritos que estavam esperando por ela. Ao v-la chegar, Noel 
indagou:
- E ento, Luiza, ela cedeu  nossa ltima tentativa? - Infelizmente no, querido. Acha que sabe tudo e que no precisa de mais nada nem ningum. O egosmo impera 
e s ser vencido com o sofrimento.
Noel abraou-a com carinho:
- Nem tudo que queremos podemos evitar, se aqui do plano espiritual pudssemos interferir no livre-arbtrio das pessoas, muito sofrimento seria evitado. Entretanto, 
s experimentando  que as pessoas teimosas vo aprender. As pessoas inteligentes vo pelo caminho do amor, as insensatas vo pelo caminho da dor, h apenas estes 
dois caminhos para se evoluir...
Maria Antnia continuava andando sem parar. Estava planejando esse crime h duas semanas e nada poderia falhar. Armaria tudo para que parecesse um assalto, assim 
ningum seria condenado ou preso, muito menos ela. O pistoleiro viria de Gois e assim que terminasse o servio iria embora. Havia conseguido com um amigo, poderoso 
sonfero que colocaria na bebida dos seguranas, fazendo-os adormecer. Naquela noite haveria palestra e todos de sua casa sairiam, menos Anita que h meses no freqentava 
o Centro. Teria que ficar atenta para que a me no inventasse nenhum programa e sasse de ltima hora. De sbito decidiu ir para casa e ficar grudada ao telefone, 
assim se a Giulia ligasse ela daria uma desculpa e no a deixaria falar com a me. Todos almoaram normalmente naquele dia, menos Maria Antnia que estava muito 
nervosa, mas s Francisca percebeu. Aps ficar at o meio da tarde sem sair, lembrou-se do compromisso inadivel de levar o dinheiro a Janjo. Assim foi, entregou 
o dinheiro, deu o mapa da casa e uma foto de sua me. s nove horas tudo ocorreria sem falhas.
s sete da noite todos se preparavam para sair. Quando Flvio viu Maria Antnia pronta para seguir com ele e Francisca ficou admirado:
- Resolveu ir conosco, assim de repente? Fico muito feliz!
-  que gostaria de ouvir sobre o tema de hoje. Nem sei o que , mas sei que tudo o que o senhor fala  lei!
Francisca interviu:
- Mas voc raramente vai ao Centro com seu pai, o que deu em voc, menina?
Ela mordeu os lbios:
-  que...  que no me sinto bem hoje, quem sabe uma boa palestra renovar meu nimo!
- Bem que eu percebi que voc estava muito nervosa, quase no almoou nem jantou. At tremer voc tremeu. Conte  sua tia, algum problema?
Anita que ouviu tudo a distncia se aproximou com fingido interesse:
- O que minha filha pode ter? Afinal tem tudo aqui, nada lhe falta! Eu no entendo esses jovens de hoje, tm o mundo nas mos e ainda se queixam.
Maria Antnia queria dizer que o principal lhe faltou que era um amor real de me, porm queria demonstrar ao mximo que estava em paz com ela, apenas disse:
- Agradeo sua preocupao mame, mas no deve ser nada srio, apenas uma indisposio.
- Voc precisa ver isso filha, depois da palestra voc far uma consulta com um dos nossos terapeutas para ver se essa indisposio est no corpo fsico ou astral. 
Agora vamos, que no posso chegar atrasado.
Eles saram deixando Anita sozinha na sacada da manso olhando-os de longe. Quando o carro partiu ela sentiu uma tristeza infinita. No sabia definir de onde vinha. 
Resolveu ligar para Giulia. Discou e esperou:
- Giulia? Que tal vir aqui me fazer companhia? Estou to solitria, todos me abandonaram - disse ela em tom de brincadeira.
- Voc est se sentindo sozinha? Nunca a vimos assim, diga logo, est desconfiada do Flvio com outra? Anita se horrorizou:
- Nem de brincadeira fale uma coisa desta, nestes longos anos de casamento tenho certeza de que ele nunca me traiu,  da natureza dele ser fiel. Se ele tivesse me 
trado com algum certamente eu teria eliminado da Terra essa rival. Giulia assustou-se:
- Nossa, voc s vezes tem uma crueldade que me espanta. Seria mesmo capaz de um ato desses?
- Pelo meu marido eu at mataria se preciso fosse.
- Bom, estarei passando a dentro em pouco, apenas vou dar uns retoques na maquiagem.
Ela desligou o telefone e foi esperar a amiga ouvindo msica. Nessas horas que a casa ficava vazia, gostava de colocar o som que mais lhe agradava. Olhou no relgio 
e percebeu que passara um bom tempo distraindo-se com a msica. E Giulia que no chegava? De repente um homem encapuzado surge  sua frente, silencioso, apontando 
uma arma para ela:
- Silncio madame,  melhor no gritar ou dou cabo de voc agora mesmo!
Ela ficou desesperada:
- Por favor, o que quer de mim? Meu marido  muito rico, pode lhe dar o dinheiro que voc quiser, no me mate, tenho uma filha que precisa muito de mim.
A voz de Anita estava rouca e suas mos trmulas, arrependeu-se amargamente de no ter sado de casa com o marido. O que seria de sua vida? Resolveu contemporizar:
- Eu sei que  um assalto, podem levar o que quiser, tem muitas peas valiosas aqui, mas por favor poupe-me a vida.
Outro homem chegou na sala com um capuz na cabea, dando gargalhadas:
- Est reconhecendo esta foto?
Anita, nervosa, e com a arma na cabea, reconheceu uma das suas fotos que estava no porta-retratos do quarto e que havia sumido misteriosamente. O homem gargalhando 
muito disse:
- Isto aqui no  um assalto coisa nenhuma,  apenas o dia de sua morte. Esta foto foi nos dada por uma linda mocinha chamada Maria Antnia, conhece?
Anita gelou ainda mais, aquilo no poderia ser realidade:
- Mentira, minha filha me adora e jamais faria uma coisa dessas comigo!
O homem continuava gargalhando:
- Pois foi ela sim. J percebeu que os seguranas de sua manso esto todos dormindo? Ela colocou sonfero na bebida deles para que adormecessem e facilitassem nossa 
misso. Tambm pediu que lhe fosse revelado que a assassina era ela, ela  que foi a mandante. Disse que jamais voc poderia morrer sem saber quem foi  autora. 
Ela quer que voc saiba que a odeia e que a odiar para sempre. Agora prepare-se para ir pro inferno.
Anita to chocada estava que nem sequer suspirou, foi fulminada por trs balas silenciosas e tombou ao cho. Os homens saram correndo e cerca de cinco minutos depois 
Giulia entra assustada:
- Anita, o que aconteceu com sua casa, est toda aberta, os seguranas dormindo...
De repente plida, viu Anita no cho banhada de sangue. Um grito de horror e Giulia saiu correndo em direo  rua. Tomou um txi e foi em direo ao Centro de Desenvolvimento 
Espiritual Luz no Caminho. Flvio concentrado iniciava sua palestra sobre a paz: 
- Ouvimos muito as pessoas dizerem: "Desejo a paz". Mas ser que elas realmente sabem o que esto desejando? Para vocs o que  ter paz?
- Paz  ficar parada sem fazer nada? Muitos desempregados esto nessa mesma situao, ser que eles tm paz?
- Paz  ficar quietinho num lugar sem que ningum lhe perturbe? As pessoas na UTI, esto nesta exata situao, ser que elas esto em paz?
- paz  ter muito dinheiro? Muitas pessoas so milionrias, ser que elas vivem em paz, com tranqilidade e alegria?
- Paz  ter muita sade? Pode at ser, mas muitas pessoas saudveis aproveitam-se dessa ddiva para embrenhar-se em todas as formas de vcios. Ser que elas tm 
paz?
A paz verdadeira s acontece com a compreenso e aceitao da vida. Se desejamos a paz devemos deixar de lado as preocupaes, as culpas, as mgoas, o medo e o dio. 
Precisamos expulsar de nossa mente tudo o que nos desarmoniza, todo pensamento que nos causa sensaes ruins. O planeta Terra no est errado, nossa viso sobre 
ele  que est equivocada. Muitos de ns com essa viso superficial e grosseira invadimos a privacidade dos outros, viramos justiceiros, pensando que para ter a 
paz  preciso fazer a guerra. Esta atitude mesquinha e equivocada de buscar a paz tem nos arrastado durante sculos a reencarnaes inferiores, onde agindo da mesma 
forma vamos receber os mesmos resultados. O que precisamos mesmo  mudar de atitude mudando nossa forma de agir. Temos que aprender a tomar conta da prpria mente, 
educ-la, deixando de lado o pensamento velho que subjuga e considerar os prprios sentimentos. Somos responsveis por todos os nossos problemas, mas no somos os 
nossos problemas. Se no somos os nossos problemas, podemos olh-los de fora, domin-los e venc-los. S ouvindo a voz de nossa alma  que teremos a paz que tanto 
almejamos. Flvio continuou discorrendo facilmente sobre o assunto at que em dado momento percebeu uma agitao na porta principal. Algumas pessoas queriam impedir 
que uma mulher muito nervosa entrasse e atrapalhasse o trabalho. Porm, ela venceu os seguranas e passou correndo esbaforida por entre as cadeiras. Admirado, Flvio 
percebeu que era Giulia Aguiar, amiga de sua esposa. Giulia se aproximou dele muito plida e ofegante, no conseguia falar. A esta altura ningum mais prestava ateno 
em nada a no ser na figura daquela mulher. Flvio fez ela sentar em uma poltrona, pois sua respirao impedia a pronncia de qualquer palavra. Quando se acalmou, 
ela olhando-o nos olhos, disse:
- Flvio, no sei como te dizer, no sei como aconteceu, mas... Mas Anita foi assassinada e est estendida no tapete de sua sala banhada em sangue.
Ningum ouviu o que ela disse alm de Francisca. Flvio, mudo, sentou-se no cho, depois deitou-se e com a cabea entre as mos, chorando muito, comeou a fazer 
sentida prece a Deus. Vendo o movimento Maria Antnia, que j sabia do que se tratava, aproximou-se com fingida comoo:
- O que houve aqui, tia Francisca? Por que meu pai est chorando desse jeito?
Francisca abraou-a de encontro ao peito e chorando respondeu:
- No tenho outra maneira de te dizer, sua me foi assassinada friamente agora, e est l estendida no cho. Um desastre, uma tragdia horrvel.
Abraadas, as duas comearam a soluar. Maria Antnia fingia muito bem e agarrava-se a Flvio que deixava as lgrimas carem em profuso pelo rosto. As pessoas foram 
retiradas da platia sem entender o que estava acontecendo. Flvio foi para casa e quando chegou ainda pde perceber o cenrio do crime, a mulher que ele tanto amava 
estava l estendida no cho vtima da maldade alheia. Sobre o corpo da me, Maria Antnia fazia um verdadeiro escndalo. A polcia chegou, afastou todos do local 
e levou o corpo. A tragdia se abateu sobre aquela famlia. Espritos inferiores que tentaram atrapalhar o trabalho de Flvio tentaram se aproximar dele para lanar-lhe 
energias negativas, porm foram impedidos por uma capa azulada que o protegia. Mesmo muito evoludo, Flvio sentiaA dor do momento vendo sua esposa morrer de forma 
to trgica. Cristiano e Laura vieram para o enterro e decepcionados ouviram da polcia que a motivao do crime fora uma tentativa de assalto. Os ladres no conseguiram 
levar nada porque certamente perceberam a presena de Giulia que estava chegando. Provavelmente Anita tentara se defender e fora atingida por tiros silenciosos, 
pois ningum mais na vizinhana ouviu nada. As pessoas comearam a duvidar do trabalho de Flvio, j que em seu prprio lar a violncia fez morada. Mas ningum em 
momento algum desconfiou de Maria Antnia. Ela representando uma terrvel depresso conseguiu que Laura deixasse Fabrcio no Brasil por um ms e assim eles voltaram 
a namorar. Flvio, com o auxlio de Hilrio, Flix, Noel e Carlota conseguiu superar o momento e seis meses depois j estava de volta aos cursos. E assim o tempo 
foi passando...

26 -  O PERDO QUE LIBERTA

Um ano depois da tragdia, tudo continuava igual. Maria Antnia namorando feliz com Fabrcio nem sequer lembrava que um dia teve me e que a mesma foi morta por 
ela. Flvio, muito sensitivo, passou a achar que havia algo de muito estranho naquela morte. Conversando com os seus mentores espirituais, eles lhe diziam para esquecer 
o ocorrido, pois a morte era simples mudana de lugar e que Anita continuava bem na outra dimenso. Apesar de saber que a mulher havia sido acolhida em um posto 
de socorro e que se recuperava lentamente, em seu ntimo algo lhe dizia que havia alguma coisa sria e errada por trs daquela morte. Ele nunca mais foi o mesmo 
homem. Continuava com seus cursos, explicando como a vida agia e procurava se esforar para ser feliz o mximo que podia. Francisca tentava ajudar para que s vezes 
ele no entrasse em profunda depresso, mas nem sempre conseguia. A sensao que uma grande barbaridade tinha vitimado sua querida Anita, ainda estava lhe amargando 
o peito. Ele j no sofria pela morte dela, mas sim por aquela sensao esquisita que no o deixava em paz. Maria Antnia no cabia em si de egostico contentamento. 
Agora o pai era s dela.
Em uma tarde de inverno todos tomavam o ch das cinco na elegante sala onde Anita veio a falecer. Maria Antnia estava muito saudosa do namorado que havia retornado 
a Inglaterra para continuar os estudos. De repente o telefone tocou e Francisca foi atender, era Laura preocupadssima, e com voz trmula:
- Por favor, chame o Flvio com urgncia, o assunto  srio.
Flvio atendeu:
- O que foi de to grave? Algo com o Cristiano?
- No, com o Cristiano tudo bem,  com o Fabrcio, ele est mal. Teve um surto de loucura h dois dias e est internado.
Flvio ficou surpreso:
- Como isto foi acontecer? Ele  um rapaz to equilibrado!
-  isto que no sabemos, foi de repente, ele est to mal que precisou ficar preso naquele hospcio horrvel! Me ajude, Flvio, no sabemos o que fazer.
- No se desespere, nestas horas o equilbrio  fundamental. Hoje no Centro tem uma reunio medinica e poderemos pedir informaes sobre este caso. Sabemos de antemo 
que muitos dos problemas psiquitricos so, na realidade, obsesses gravssimas, porm no sabemos se este  o caso. S a espiritualidade  que pode dizer.
- Sinto-me confortada ao ouvir suas palavras. Cristiano tambm est confiante e vai procurar aqui com dona Margareth o auxlio, porm eu confio muito no trabalho 
de vocs a no Brasil. Avise a Maria Antnia e pea-lhe que reze pelo namorado.
Quando Flvio anunciou a drstica notcia, Maria Antnia correu para o quarto. Sozinha e abraada ao travesseiro ficou assustada. Na ltima vez que conversara com 
Fabrcio, contara a ele toda a faanha que culminou com a morte da me. Tinha toda confiana em Fabrcio e juntos comemoraram o sucesso do plano. Teria aquela notcia 
abalado os nervos do namorado?
No Centro, Flvio j em transe, recebeu a seguinte comunicao sobre o caso de Fabrcio:
- O problema de seu sobrinho  simples. Antes de renascer na Terra ele viveu no astral unido a espritos inferiores e que praticavam o mal. Ele era um esprito que 
foi vtima do preconceito racial, viveu como negro e foi muito discriminado. Encontrando uma falange de justiceiros, resolveu pagar o mal com o mal e unindo-se a 
eles buscou no abismo, na sub-crosta terrestre, uma forma degenerada e colocou-a mediunicamente em quem julgava t-lo prejudicado quando ainda no mundo. Sua "vtima" 
enlouqueceu e at hoje encontra-se num hospcio terreno sem qualquer chance de cura. Ele reencarnou com uma grave leso no crebro perispiritual que passou a depender 
de sua nova conduta que iria se desenvolver ou no no corpo fsico. Foi a que encontrou sua comparsa de vidas passadas e voltando s mesmas atitudes de outrora, 
desarticulou as foras do bem que o sustentavam. Agora, atravs de uma psicose de difcil tratamento, aos poucos seu perisprito lesado vai reencontrar o equilbrio. 
Flvio quis saber: - Ele ir se curar?
A entidade elevada respondeu:
- S o tempo e a mudana interior  que vo dizer. Ele no  um obsediado como pode parecer a princpio, ele tem realmente um distrbio psiquitrico causado pela 
leso no crebro, ocasionada pela sua conduta quando viveu no astral. Se as pessoas soubessem o que podem receber quando fazem o mal jamais o fariam, muito pelo 
contrrio lutariam para bani-lo do corao com toda a fora de vontade. Mas agora  o momento de ficarmos com Deus e aguardarmos sua divina misericrdia. A f e 
o pensamento positivo tudo conseguem, pois eles so dispositivos que interferem na lei de causa e efeito, mudando suas conseqncias. Porm nada acontece sem a mudana 
verdadeira,  necessrio entender que Deus v o ntimo de cada um, no existe um bom sofrendo, pode ter certeza, quem sofre coloca pra fora todas as suas mazelas 
espirituais e seus pensamentos equivocados. So as crenas no mal que provocam e atraem todo o sofrimento que grassa sobre a Terra. Quem cr apenas no bem fica imune 
s doenas, acidentes, prejuzos, solido, falta de amor e quaisquer fracassos. A educao mental  a chave que falta para banir pra sempre o sofrimento da Terra, 
transformando-o no mundo de regenerao que tanto sonhamos.
O esprito Hilrio se despediu e Flvio emocionado fez silenciosa prece de agradecimento a Deus. Quando ele ligou para Laura dias depois, percebeu que a mdium Margareth 
recebeu comunicao idntica na Inglaterra, provando assim que era realmente verdadeira. Sem o namorado, Maria Antnia foi ficando muito depressiva. Ao visit-lo 
na Inglaterra e ver seu estado penoso, uma sensao desagradvel de culpa a acometeu. No sabia de onde vinha esse sentimento, porm no conseguia se desvencilhar 
dele.  medida que foi passando o tempo ele foi ficando cada vez mais amargo e profundo. Flvio percebia, tentava ajud-la levando-a ao Centro, mas no adiantou, 
a cada dia estava mais triste. Uma noite sonhou que estava num terreno baldio e lamacento, as rvores tinham aspecto feio e pareciam estar mortas. De repente, do 
meio da escurido, um lobo grande e com dentes afiados lhe apareceu. Os olhos estavam vermelhos como fogo e acesos como se fossem lmpadas eltricas. Aterrorizada 
ela comeou a correr sem parar, porm o lobo corria com mais velocidade e a agarrou fortemente. Com a respirao ofegante Maria Antnia percebeu que a face do lobo 
transformou-se no rosto de sua me. Tentou gritar, mas a voz no saa, estava presa nas patas daquela que parecia ser Anita. O lobo abriu a boca e falou com voz 
rouca de dio:
- Voc vai pagar tudo o que me fez sua assassina! Vai morrer louca e sozinha, sem ningum para lhe ajudar - dizendo isso comeou a apertar o pescoo de Maria Antnia 
que acordou sufocada, aos berros, e suando muito. Francisca ouvindo os gritos de Maria Antnia, acordou tambm assustada, saindo em disparada batendo na porta de 
seu quarto:
- Abra menina, o que h com voc?
Ela abriu rapidamente a porta e agarrou-se a Francisca:
- Tia, foi horrvel, foi o pior pesadelo que tive na vida.
- Conte-me como foi, talvez no passe de sua cabecinha assustada com a sorte do seu primo Fabrcio.
Ela chorava sem parar:
- No foi no tenho certeza. Era minha me que veio do inferno se vingar de mim.
- No diga isso menina, sua me a amava e no teria motivo para se vingar. O melhor a fazer  rezar e pedir a orientao dos amigos espirituais. Em qualquer circunstncia 
a prece  a fora que nos liga a Deus e s foras superiores do Universo.
- No posso rezar, tenho vergonha! Francisca sorriu:
- Vergonha de rezar, onde j se viu isso? Deus no nos condena por nada, por que ns teramos vergonha Dele?
Maria Antnia soluava:
- Tem razo, vou tentar - comeou a fazer uma prece mecnica, mas mesmo assim se acalmou. Minutos mais tarde, quando a tia saiu do quarto, j se sentia mais calma, 
porm lembrando da viso terrvel no conseguiu mais dormir.
Do lado de sua cama estavam Anita, Hilrio e Noel. Anita falou:
-  incrvel o que a conscincia culpada pode fazer num ser humano. H muito que j a perdoei pelo mal que me fez. Porm esta viso terrvel ainda a acompanhar 
por muito tempo...
-  verdade. - concordou Hilrio - Deus no nos condena por nada, porm a conscincia de cada um  o prprio juiz que lhe pede a reparao sempre que se transviar. 
Sua filha poderia evitar isso se confessasse o crime perante a justia dos homens. Esse seria apenas o comeo de sua redeno. Porm  certo que ainda voltar a 
reencarnar para modificar essa conduta errada que a levou ao crime. Talvez venha a sofrer exatamente o que praticou. Ter uma filha ruim que poder com os desgostos 
e inconseqncias tirar sua prpria vida. Anita perguntou:
- No ser uma injustia? Afinal, sei que ela me matou na ltima existncia, porm eu que atra esse crime na minha vida. Desde que morri como Anete sculos atrs, 
desenvolvi grande vaidade. Para me defender do mal que sofri ao ser morta por Helena, passei a ser arrogante e possessiva. Quando cheguei aqui assassinada pela minha 
prpria filha, me revoltei, chorei, blasfemei e quase voltei a Terra para cobrar meu tributo, se voc no tivesse me mostrado como atra tudo, talvez ainda estivesse 
interferindo na vida de todos.
Hilrio explicou:
-  mesmo, voc mudou muito desde que desencarnou, deixou de ser aquela mulher ftil de outrora. Mas isso aconteceu porque voc contribuiu, amadureceu com a dura 
experincia que passou. O mal que ocorrer a Maria Antnia  por causa da sua crena na violncia, no mal e na vingana. Talvez sofra muito para finalmente aprender 
que s Deus pode tirar a vida de um ser humano.
Anita o abraou com carinho:
- Por que no te ouvi quando falava atravs de Flvio? Na verdade achava tudo muito distante da realidade, nunca me envolvi de fato com a espiritualidade que batia 
 minha porta. Talvez se tivesse me ligado mais a Deus ainda estivesse no mundo ao lado do meu marido.
- No fique triste Anita, a morte  o agente da transformao, por onde ela passa tudo se modifica. Seu marido agora poder se dedicar a um projeto antigo. Convido-a 
para ver o que ir acontecer.
Ela animou-se:
- Ento irei, estar perto de meu amor sempre me d alegria.
Os espritos Noel, Carlota, Luiza e Anita passaram a transmitir a Maria Antnia  idia de que ela precisava confessar o crime para livrar-se do remorso. Os dias 
foram passando e os pesadelos aumentando. Ela contava parcialmente ao pai, que lhe aplicava passes, conversava amorosamente, melhorava, porm no outro dia estava 
do mesmo jeito. J no freqentava mais o colgio, acabaram-se todas as poucas amizades. Vendo-a to depressiva, Flvio preocupado falava  tia:
- No sei mais o que fazer para tir-la da depresso. J nem quer mais sair do quarto.
- Ela lembra-me voc quando ainda era jovem e foi morar em minha casa. Foi um tempo muito ruim. rica, ngelo e Marina morreram naquele acidente e voc ficou praticamente 
rfo contando apenas com Cristiano. Voc teve muita fora e venceu tudo, mas lembro que foi difcil. Depois houve seu namoro com Camila que morreu tambm tragicamente. 
s vezes te acho um heri, hoje o olhando mais maduro e confiante percebo, que em nada mais lembra aquele jovem medroso e desconfiado, que no sabia que rumo dar 
 prpria vida.
Ele sorriu meio melanclico:
- Passei realmente por muitas coisas, mas nessa vida ningum  heri. Esse mito que ns devemos sofrer heroicamente na Terra para alcanarmos um grau maior de evoluo 
 balela. Hoje sei que atravs do amor aprendi muito mais do que pela dor.
-  que voc  modesto e no gosta de reconhecer. Agora mesmo sofreu esse golpe fulminante da vida, perdeu a mulher amada e este a conformado e confiante.
-  que a espiritualidade conforta e auxilia. Saber que a vida no comea no bero e nem termina no tmulo, transforma a vida de qualquer um. Mas falemos agora da 
senhora. H muito tempo mora comigo, est feliz assim? No desejaria voltar  sua antiga casa? Saiba que tenho condies de compr-la a hora que quiser.
Ela sorriu:
- Nem diga isso, aqui tenho toda a liberdade que tinha na minha casa, at meus gatos eu crio. Voc me d tudo que desejo para ser feliz e ainda me paga por isso. 
Aquela aventura minha com o comrcio mostrou-me que ainda estava imatura para este tipo de servio e apontou-me o caminho para ser sua governanta. Veja como Deus 
 bom!
Flvio admitiu:
- No sei o que seria de minha vida sem a senhora, tia. Minha casa no seria a mesma sem sua ajuda. Mas o que voc falou sobre o comrcio  uma grande realidade. 
Quem se aventura numa coisa muito grandiosa como voc fez deve ter estrutura financeira e psicolgica para tanto. A crena na facilidade das coisas  fundamental 
para quem lida com o comrcio. Pessoas que no confiam na fora da vida, que no usam seus poderes mentais esto fadadas ao fracasso.
- Foi isso que aconteceu comigo. No tive o otimismo suficiente, logo estava cheia de dvidas. Envergonhada, no quis lhe pedir ajuda e gastei tudo que tinha, hoje 
sei que se tivesse agido com mais prudncia e otimismo, tudo seria diferente do que foi.
- O bom  que sempre se pode tirar vantagem mesmo de uma situao ruim. Acredito que a senhora deve ter aprendido muito com o que aconteceu.
- Muito! At hoje no consigo esquecer esta lio, sei que a vida usa nossos atos ruins para nos levar ao bem. A vida  mgica, tudo o que nos acontece tem sempre 
uma razo de ser.
- Isso mesmo tia, hoje a senhora est mais evoluda do que antes. Mas voltando a falar de minha filha, no sei o que acontece com ela, est muito estranha. s vezes 
penso que foi depois que o Fabrcio adoeceu, mas sinto que tem algo muito estranho acontecendo com ela. No  normal esses pesadelos horrveis que vem tendo. Agora 
mesmo est l no quarto sobre a cama em profunda depresso.
- Acho melhor voc ir v-la, conversar com ela, sei que isso lhe far bem.
- Tem razo tia, afinal hoje no tenho atividades no Centro e posso ficar em casa.
Dizendo isso Flvio subiu at o quarto da filha. Chegando l percebeu que ela soluava. Com compaixo ele sentou-se prximo dela e alisou-lhe os cabelos. Ela, percebendo 
que era o pai, rompeu em mais soluos. Anita estava ali com ela transmitindo-lhe energias revigorantes e ao mesmo tempo suplicando-lhe para que tivesse coragem e 
revelasse o crime.
- Filha, por que est assim? Pensei que fosse por causa do Fabrcio, mas vendo-a desse jeito sinto que tem algo mais que a atormenta muito.
Ela olhou para ele com o rosto e os olhos inchados pelo choro. Como poderia revelar-lhe o que lhe ia na alma? Por que esse remorso torturante a invadia? Sentia que 
a nica soluo era confessar a barbaridade que cometeu, mas no tinha coragem para isso. Como iria olhar novamente para o pai? O deus, o dolo que ela tanto cultivou 
desde a infncia ser que ia perdo-la? Se confessasse e Flvio a odiasse para sempre ela com certeza se mataria, no conseguiria jamais viver sabendo que o homem 
a quem ela amava como mulher a desprezava.
Agora , naquele instante, ela percebia que o que sentiu por Fabrcio era s uma paixo boba e momentnea. Que destino trgico e estranho era esse que a acompanhava 
desde a infncia?
- Pai, estou morrendo por dentro, sei que s terei paz quando colocar pra fora tudo o que est me atormentando, mas no tenho coragem, sei que me odiar pelo resto 
de sua vida!   Ele ficou surpreso: - Por que, logo eu que sou seu pai a odiaria? No sabe que o amor de pai abre as portas para o amor incondicional? Seja o que 
for que tenha feito com certeza eu a perdoarei. Agora somos s ns, precisamos nos unir para no sentirmos a falta que sua me faz!
- Sei que o senhor  muito bom, mas tenho certeza de que quando souber o que fiz jamais olhar novamente em meus olhos, e sem voc do meu lado sinto que morreria 
em pouco tempo.
- No diga isso, voc  jovem ainda e tem tudo pela frente, o que uma adolescente pode cometer de to mal? Diga-me e lhe mostrarei que o que voc fez no  to grave 
assim, apenas sua cabea de menina  que est exagerando.
Ela levantou-se da cama e gritou colrica, com as faces desfiguradas:
- Ser que voc  to ingnuo que nunca percebeu? D pra parar de ser o santo por alguns segundos e me enxergar? Quem est em sua frente no  uma meninazinha boa 
e ingnua, aqui est uma mulher que te ama mais do que tudo. Nunca reparou como eu te olhava? Nunca percebeu que em meu peito nunca existiu um amor de filha e sim 
de amante?
Ele corou e no conseguiu articular nenhuma palavra. Ela continuou bradando muito alto:
- Isso mesmo Sr. Flvio, nunca o amei como filha, sempre o desejei. Nunca suportei aquela mulher que se chamava Anita e que me roubava voc, dia aps dia. Ela parecia 
sentir ou sabia dos meus sentimentos, pois disputava sua presena comigo, como se fssemos duas rivais. Mas voc sempre com esse jeito sonso nunca percebeu o que 
acontecia em seu prprio lar. Louca pela raiva e pelo cime no titubeei em mat-la para ter voc s pra mim. Isso mesmo, eu que matei minha prpria me. Contratei 
assassinos de outro estado e eliminei aquela vida ftil e vazia que atormentava a minha existncia! Ela parecia fora de si e gritava muito. Flvio comeou a tremer 
qual folha sacudida pelo vento, parecia que estava vivendo uma situao familiar, parecia que aquele fato j havia acontecido com ele alguma vez na vida. Agora entendia 
o porqu do estado de Maria Antnia. Por mais que no quisesse acreditar, sentia que o que a filha, criada com tanto carinho e proteo, lhe dizia era a realidade. 
Levantou-se da cama num acesso de loucura e deu-lhe vrios tapas no rosto. Naquela hora no se lembrava de nada do que pregava ou que havia aprendido, deixou seus 
instintos tomarem conta de seu ser. Comeou a sacudir violentamente a filha pelos cabelos enquanto ela gritava e chorava histrica.
- Assassina! Assassina, voc ver qual  seu destino.
Comeou a arrast-la pela escadaria e jogou-a violentamente no cho da sala. Francisca e os empregados correram e no acreditavam no que viam. Aquele no era o Flvio 
de jeito nenhum. Francisca comeou a gritar:
- Pare, voc vai mat-la deste jeito, ela j est sangrando.
-  isso o que ela merece depois de tantos anos de carinho e proteo que teve neste lar. Saibam que esta criatura no passa de uma reles assassina, ela matou a 
prpria me. Aquilo no foi um assalto, foi um crime premeditado por ela e capangas no sei de onde. O cime, os baixos sentimentos que ela nutre por mim a levaram 
a praticar semelhante ato, agora que apodrea na cadeia. Colrico e fora de si Flvio ligou para a polcia e fez a denncia. Francisca desmaiada, fora levada para 
o hospital, enquanto Maria Antnia na delegacia confessou tudo o que fez. Deu os telefones dos pistoleiros e foi levada para um presdio de deteno mxima onde 
aguardaria julgamento. A imprensa ficou agitada depois dessas revelaes, em todos os telejornais s o que se ouvia era a notcia de que uma filha adolescente, por 
cime do pai, assassinara cruelmente sua prpria me. At psiquiatras e psiclogos foram  TV dar entrevistas sobre o ocorrido, tecendo as mais descaridosas opinies. 
O Centro de Flvio foi fechado por tempo indeterminado. As pessoas perderam um pouco da credibilidade devido aos fatos trgicos que o acometeram. Ele viajou para 
a Inglaterra e ficou l com Laura e Cristiano durante quase um ano. Sua f no fora abalada, depois que pensou em tudo com frieza, percebeu que foi muito violento 
com a filha e no conseguia se perdoar por isto. Apesar de tudo ele a amava. Mesmo assim no conseguia voltar ao Brasil,  vergonha de ver novamente a filha e encar-la 
depois de tudo o que fez a ela era muita. Apenas sabia notcias por Francisca que todos os domingos, de quinze em quinze dias ia visit-la no presdio. Ficou sabendo 
que Maria Antnia tentou o suicdio por duas vezes, achando que Flvio no a havia perdoado, s ficou melhor quando recebeu uma carta dele contando que a perdoava. 
Ela jamais iria se esquecer do que ele havia escrito: Filha do corao,Naquele dia fatdico te disse que o amor paterno abre as portas para o amor incondicional. 
Hoje sei que  verdade. Mesmo sabendo tudo o que fez no consigo deixar de am-la. Em meu corao estaro gravadas para o som do seu primeiro chorinho, a imagem 
de seus olhinhos pequeninos me fitando com tanto amor pedindo-me proteo. A partir daquele dia senti que a amaria para sempre, acontecesse o que acontecesse. Lembro-me 
com emoo da sua primeira palavra 'papai', dos seus primeiros passinhos vindo na minha direo, naquele dia que voc andou pela primeira nem fui ao Centro to empolgado 
fiquei. Como no te amar para sempre? Se dentro de mim venci a antiga paixo que nos unia sei que voc no teve foras para tanto, no posso te condenar, nem te 
julgar por isso, muito menos pelo que fez com sua me. Hoje sei que para Deus somos todos inocentes, para Ele somos apenas crianas aprendendo a viver, lutando para 
conseguir uma vida melhor. Apesar de estarmos submetidos ao resultado das nossas atitudes, Deus no nos condena, afinal Ele  sumamente amor e sabedoria. S o que 
sinto por voc  capaz de explicar um pouquinho o amor que Deus sente pela humanidade. Hoje tambm percebi que no estava preparado para o perdo, no titubeei em 
te violentar esquecendo-me que o mal jamais se paga com o mal e sim com o bem. Descobri que s o perdo liberta nossa alma. Quem no perdoa vive sem alegria e sem 
paz no corao.
Aproveite para fazer de sua vida, a partir de agora, um hino de amor a Deus. Sei que voc ser julgada e condenada, porm mesmo de onde voc est, j pode ir caminhando 
para Deus, seguindo seus ensinamentos. Do paizo que te ama,Flvio de Menezes. Na solido do presdio ela leu e releu aquela carta, dormindo com ela agarrada 
ao peito. No domingo que se seguiu, durante a visita de Francisca ela pediu:
- Tia, eu quero ler, quero me instruir sobre a vida espiritual. Sempre deixei-a de lado, achando que seguindo as regras do mundo seria mais feliz. Hoje percebi que 
estava equivocada. Quero procurar o amor divino, hoje sei que esse amor no espera pra me amar e quero retribuir um dia todo esse amor que Deus me d gratuitamente.
- Que bom minha filha que voc chegou a esta concluso. Logo hoje trouxe em minha bolsa um livro muito importante que gostaria de lhe emprestar, veja.
Maria Antnia olhou e leu: O Livro dos Espritos, de Allan Kardec.
- Comearei a l-lo ainda hoje. Meu pai sempre me falava dele e nunca dei importncia, quero vencer essa paixo horrvel por ele que s tem me feito sofrer, e sei 
que com este livro terei esta fora.
-  isso mesmo minha filha, essa paixo como todas as outras desenfreadas, nos fazem sofrer e nos levam ao abismo. Seu pai  muito evoludo e por isso vocs nunca 
chegaram  aberrao do incesto. Imagine se voc tivesse agora mais este terrvel crime na conscincia, como estaria?        
-  mesmo, quero am-lo como o pai querido que a vida me confiou, sei que conseguirei.
Foi com o corao renovado pelo xito que Francisca saiu do presdio naquela tarde. Tinha certeza de que aquele livro iria fazer um bem enorme  sobrinha, como tem 
feito a tantas pessoas mundo afora.

EPLOGO

Era inverno e Flvio em sua grande sala de estar meditava profundamente. Fazia trs anos que descobrira que Maria Antnia era a assassina de Anita. De l para c 
muita coisa havia mudado. Com a ajuda dos espritos superiores que sempre o assistiram, ele conseguiu reabrir o Centro e voltar a ter o mesmo sucesso de antes. Durante 
a reunio medinica Anita se comunicou e narrou-lhe todo o passado. Disse que ele j estava maduro para saber. Foi um choque descobrir que Maria Antnia era Camila 
reencarnada e que Fabrcio tinha sido Rafael seu antigo namorado. Anita prometeu esper-lo no futuro, quando sua misso na Terra terminasse e ambos pudessem desfrutar 
de uma vida mais harmoniosa. Compreendeu por que tudo aconteceu daquela forma e pde agradecer a Deus por toda a sua bondade. Francisca desceu a escadaria e props:
- Vamos acender a lareira? Est um frio daqueles, afinal moramos na terra da garoa.
Ele, com semblante distendido, pareceu estar viajando quando disse:
- Tia, tive a melhor idia de minha vida! Hoje descobri que preciso fazer uma coisa muito importante e que no pode mais ser adiada.
- O qu?
- Esta casa  muito grande para ns dois apenas, vou adotar vrias crianas e com seu auxlio e de empregados competentes sei que poderei cri-los. Tenho muito dinheiro 
e sei que posso dar-lhes o melhor!
Francisca chorou de emoo ao ouvir as palavras do sobrinho. Dias atrs, ela havia tido a mesma idia.
- Nossa Flvio, que boa ao!  claro que te ajudarei. Sei que tenho pouco tempo sobre a Terra, j estou velha, mas sei que ainda posso ser til.
- Voc  a velhinha mais jovem que j conheci - disse Flvio rindo muito e abraando-a. - Sei que ser meu brao direito por muito, muito tempo. Aceita mesmo me 
ajudar?
-  lgico, com todo prazer. Agora me diga, quantas crianas pretende trazer para esta casa?
- O mximo que puder, sei que posso cri-las. Assim, quando Maria Antnia sair da priso tambm poder nos auxiliar.
- Meu sobrinho, acho que voc agora est sendo inspirado mais do que nunca, acho que devemos rezar e agradecer a Deus por mais esta bno.
Ele concordou e com olhos fechados comeou a orar:
"Pai de infinita bondade e sabedoria!
"Como  grande a sua misericrdia e quanto  infinito o seu amor.
"Sinto que no devo mais esperar para amar toda a humanidade como se fosse uma s.
"Sei que posso e devo dar o melhor de mim por tudo e todos que estiverem  minha volta. Que o mundo possa sentir todo o seu amor, como sinto agora".
"Eu te agradeo Deus de amor, por tudo o que me destes. Ajuda-me atravs de Jesus e dos espritos superiores a cumprir com fidelidade a misso que me destes sem 
fraquejar, nem me abater".
"Sei que s a Tua fora  capaz de remover todas as pedras do caminho e que sem ela ns no fazemos nada".
Por tudo isso Senhor  que te agradeo". Flvio chorava e Francisca tambm.
Lanando sobre eles energias coloridas estavam Hilrio, Anita, Noel e Carlota. rica e Marina  distncia observavam tudo em estado de orao. No fundo elas sabiam 
que Deus a tudo prov e que Flvio mais uma vez conseguiria ser seu fiel discpulo. Como foi bom t-lo em sua famlia! Era um anjo do bem que derramava luzes por 
onde passava. Elas agora entendiam que tudo o que sofreram foi por falta de amor. Na prxima existncia elas saberiam usar esse fogo divino que no pode e nem deve 
esperar para acontecer. Nessa hora de jbilo e felicidade sentiram leve brisa no rosto como que a dizer que desta vez elas conseguiriam.



1
